Na solidão da metrópole

Por Ney Anderson
Quem passa pela Rua Sete de Setembro, no Recife, não imagina que ali mora um escritor que desde pequeno só via a literatura como a coisa mais importante em sua vida. Entre gritos de ambulantes e sirenes de viaturas da polícia, Gilvan Lemos olha pela Janela do décimo segundo andar do edifício onde mora. No escritório repleto de livros, ele tira um cigarro do bolso, põe a boca e, por alguns segundos, seu olhar vagueia pela estante a sua frente, mas o escritor não está olhando para estante. Seu olhar está relembrando o passado.


Fotos: Ney Anderson
Um autor que já foi o queridinho das editoras, agora sofre com o esquecimento delas. “Dizem que foi por causa da timidez”, desabafa um homem de mais de oitenta anos que não consegue mais fazer o que sempre fez, escrever. A memória, que antes era a grande arma, agora está sem pólvora. Toda a munição já foi gasta nos 25 publicados.

O escritor nasceu em São Bento do Una, interior de Pernambuco, que serviu de cenário para boa parte da obra dele. Lemos nunca gostou de escrever à mão. Quando chegou ao Recife, começou a trabalhar em uma fábrica e com o primeiro salário comprou uma máquina de datilografar. Desde então não escreveu mais à mão. O autor começou fazendo quadrinhos. Foi nessa mesma época que a irmã começou a comprar livros para ele. O primeiro que leu foi  O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, que o despertou para o romancista que escreveria mais de vinte livros. 

Nunca havia pensado ser escritor. São Bento do Una, muito atrasado, não tinha colégio. Chegou até o terceiro ano primário e não pôde mais seguir em frente. Autodidata, começou a trabalhar numa fábrica de laticínios e com o dinheiro que ganhava comprava livros em São Paulo e no Rio de Janeiro, via reembolso postal. Formou quase toda a biblioteca dessa maneira. “Não sei como uma pessoa passa pela vida sem ler, sem se interessar pela literatura”, comenta Lemos, que sempre viu na ficção a sua fonte do prazer.

A escrita passou a ser o objetivo principal da sua vida. Amigo de Osman Lins, conta que o amigo sempre o influenciou em diversos momentos da vida. Um exemplo é quando pediu a Gilvan Lemos para inscrever um romance no prêmio Fábio Prado, do Rio de Janeiro. Não deu outra: Gilvan Lemos sairia vitorioso.

Os livros mais recentes do autor têm uma alta dose de realidade, como por exemplo Na Rua Padre Silva, uma espécie de Graciliano Ramos no Centro do Recife ou em qualquer outra metrópole do Brasil. “Escrevo sobre o que vejo e conheço. As desgraças que acontecem na cidade, no país. Quando escrevo tento causar as mesmas coisas que queria causar quando era menino, pensando em ser escritor: distração, vivência, alegrias, tristezas”, revela.


Lemos publicou um novo livro este ano: Sete Ranchos (Editora Nossa Livraria – R$ 30,00) o primeiro livro escrito por ele e que até então estava inédito. Não fosse a insistência do proprietário da Nossa Livraria, João Luiz, o livro nunca sairia. “Disse para ele que tinha um livro inédito, que foi o primeiro que escrevi, aí ele disse que queria publicar, eu aceitei”.  

Gilvan Lemos não vê a nova literatura brasileira com bons olhos. “Não consigo entender o que os jovens escritores estão fazendo. Eles escrevem para ninguém entender nada. Até o Dalton Trevisan, que era o melhor contista do Brasil, está inventando esse negócio de contos curtos. Disse que a meta dele era escrever um conto com apenas uma palavra. Não tenho mais interesse”, decepciona-se.

A conversa está terminando e resta apenas uma última pergunta. “O que é a literatura para você?”. Com os olhos perdidos e cheios de lágrimas, responde como uma metáfora de um dos livros que criou: “Saudade”.

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