Ana Paula Maia encerra sua saga da brutalidade

Por Ney Anderson

Ana Paula Maia é uma escritora bruta. Não dá moleza para a palavra, sempre tentando buscar uma “voz” própria e correndo dos clichês que perseguem seus temas desde o início da carreira: violência e realidade. Uma realidade dura como ela é de fato, por vezes psicológica e, na maioria dos casos, física. Maia lança o último volume da trilogia A saga dos brutos que iniciou com: Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos; O trabalho sujo dos outros e agora Carvão Animal (Editora Record, 160 pgs. R$ 29,90) Nesta entrevista Ana fala, entre outras coisas, como surgiu a ideia de criar a trilogia; crítica brasileira e internet.

Entrevista: Ana Paula Maia

Qualquer coisa pode me inspirar

 

 

Maia encerra a trilogia A saga dos brutos.
Foto: Marcelo Corrêa.
 De onde partiu a idéia de escrever a trilogia “A saga dos brutos”?
 Depois de escrever a novela “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, percebi que a história não terminava ali. Que haveria desdobramentos para o tema. E assim nasceu a trilogia.
Personagens à margem da sociedade sempre te despertaram interesse?
Personagens interessantes, pouco comum nos relatos literários, é que me despertam interesse.

A quantidade de sangue e morte nos três livros é uma influência dos filmes do cineasta Quentin Tarantino, como está descrito na “orelha” do “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”?
Não. Se prestrar atenção, verá que a morte e violência nos três livros estão aquém dos filmes do cineasta. É bem pouco perto do que ele produz.

Ficou algo muito claro na trilogia: os brutos em questão tornaram-se brutos por causa do meio em que viveram. Acredita mesmo que a sociedade é responsável pela marginalização?
Os brutos tornam-se brutos pela vida que levam. São homens dignos, trabalhadores e que não reclamam da vida. São pouco sensíveis à ela, pois já se acostumaram com a precariedade. São homens duros, rudes, nada marginalizados.

É possível criar uma ficção desprovida de realidade?Não. Qualquer ficção parte da nossa ideia de realidade e é essa ideia que nos permite subverte-la.

O escritor Amós Oz escreveu um romance curioso: Rimas da vida e da morte. O livro começa com um escritor dizendo que tudo pode se transformar em ficção; ele está sentado em um bar e em um determinado momento começa a tornar tudo ao seu redor em ficção. Isso acontece com você? 
A realidade me sugere possibilidades de história, mas não costumo ficcionalizar tudo ao meu redor. Mas é uma possibilidade interessante. Um exercício.

Pode se dizer que a nova literatura brasileira tem uma marca? Qual?
A diversidade pode ser uma delas e a pouca ousadia outra.

Seus livros são muito sensoriais, é uma influência do cinema?
Pode ser. Mas eu sou muito sensorial. Sinto as coisas em dimensões ampliadas.

Qual o risco de assumir-se escritora? 
É assumir um compromisso com a literatura. Esta foi a única mudança significativa para mim.

Alguns autores já sofreram o famoso “branco” na hora que estavam escrevendo. Já aconteceu com você? Como fez para livrar-se dele?
Sim, isso acontece. Tento organizar bem as idéias e seguir com a história, isso se ela fluir, se ela realmente estiver me comovendo, como se fosse um outra existência para mim.

Você busca ideia no dia a dia, ou elas surgem de histórias passadas?
Surge de uma imagem, uma frase, qualquer coisa pode me inspirar.

Chico Buarque disse na Flip de 2009 que “escrever é um sofrimento”. Concorda?
Nem um pouco. Escrever causa desgaste ao longo do trabalho, existe um esforço, dedicação, mas sofrimento não. Me dá prazer, satisfação.

Quando sabe que um livro está chegando ao fim?
De acordo com a evolução dos personagens, com o desenrolar das ações. Não gosto de esticar demais uma história. Quando percebo que já disse tudo o que queria a cerca daquele assunto, já é hora de encerrar.

Você é uma autora que publicou muita coisa na internet. Hoje a internet popularizou ou prostituiu a literatura? 
Não publiquei tanto assim na internet. Só a novela Entre rinhas… e o início de O trabalho sujo dos outros. Fora isso apenas atualizações no meu blog, Killing Travis, e lá não há literatura, e sim, notícias sobre o meu trabalho, dos outros, etc. A internet não prostituiu a literatura, e sim, ajuda bastante a divulgá-la.


Como avalia a crítica brasileira?

Há pouca crítica literária no Brasil. Muito pouca. Mas ainda há interessados no assunto. A universidade é um espaço importantíssimo, que tem se voltado para a literatura contemporânea de um modo tímido ainda, mas que já dá sinais.

O que você poderia dizer para um aspirante a escritor não fazer?
Não desista dos seus sonhos. Pode ser piegas, cafona, mas isso é um conselho que nunca fica velho.

 

 

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