A literatura que alimenta a alma de Raimundo Carrero

Por Ney Anderson
O escritor Raimundo Carrero, 63, lançou o livro Seria uma sombria noite secreta (Editora Record, 144 pgs, R$ 33,00) (o primeiro lançado depois do AVC que teve em outubro do ano passado) e mostra mais uma vez o motivo de ser um dos autores mais premiados do Brasil. No romance é possível observar que os temas recorrentes em suas obras estão todos lá: violência psicológica, crítica social e os estupros,embora não explicitamente, e nem precisa.



A força narrativa do livro mostra um Carrero preocupado em mostrar que técnica literária, nada mais é do que trabalhar cenas, cenários, diálogos, e fazer com que tudo isso chegue ao leitor com uma simplicidade incrível.


Na última quinta-feira (21/07/11), Carrero fez uma sessão de autógrafos numa Livraria Jaqueira lotada de amigos e leitores, que queriam ver o mestre das oficinas literárias em total recuperação. Mesmo ainda fragilizado por causa da doença, mostrou-se forte e animado no começo da noite, mas teve que sair cedo por causa das  dores que sentia na coluna. 


Ficou a impressão que a literatura realmente é o combustível que alimenta a alma desse sertanejo de Salgueiro, sem ela dificilmente Carrero teria toda essa coragem e determinação. O sorriso já não era mais o mesmo do Raimundo Carrero que todos conheciam, contando uma piada e rindo, ele mesmo, do “causo” que estava contando. Mas a força de sua literatura sim, essa sim é a do escritor que nunca se cansou de levar para a literatura a voz das pessoas frágeis e sem rumo.


Escutamos o narrador conversando com a personagem Rachel: 

Era você, Rachel, que devia contar. Mas com essa mania que você tem de contar coisas só de calcinha, nua, não é?, nua sentada no meio-fio,protegendo os peitos com os braços, às vezes com as coxas e os braços, feito quem se agasalha do frio, para evitar sua exposição, por orgulho e vaidade, eu conto. O que você faz é organizar. Está bem?”.

Entendemos que Carrero quer mostrar definitivamente, que tudo pode ser feito na literatura, que as técnicas existem para serem usadas. O personagem Alvarenga não fala nada nesse livro, por não poder falar mesmo, mas pensa, ou “pensa que pensa”, e todas essas impressões da vida a sua volta vão sendo contadas por Rachel e pelo narrador, que não tenho dúvidas, é Raimundo Carrero. Alvarenga é um camelô que fica na porta da pensão onde Rachel recebe os clientes, e avisa com um toque de corneta quando a mulher está livre, por isso recebe balas e doces, que mais parecem peixes jogados para uma foca gorda .

 

Esses dois personagens apareceram no livro anterior, A minha alma é irmã de Deus (Editora Record – 2009), que venceu o prêmio São Paulo de Literatura e Machado de Assis do ano passado, e como tantos outros personagens tiveram um papel importante no livro do autor.

 

Pode-se dizer que é um amor estranho que nutre a vida de Alvarenga e Rachel. Uma prostituta, ou mulher que tem um “corpo social”, e um anão gordo, que nada fala e mal toca a corneta que aprendeu a utilizar na infância. Uma paixão alimentada por pena, tanto dela, quanto dele.

 

“Seria uma sombria noite secreta” é o melhor livro da obra de Raimundo Carrero, e faz um grande diálogo com outros livros do autor,como ele sempre fez, talvez por tentar escrever uma única obra, dividida em várias partes.

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