Antônio Xerxenesky faz um retorno de obsessões em novo livro

Por Ney Anderson
O escritor Antônio Xerxenesky,26, lançou no mês passado o livro de contos A página assombrada por fantasmas (Editora Rocco, 128 pgs. R$ 23,50) nele o autor retorna ao tema do livro anterior Areia nos dentes: um exercício metalinguístico, mas nesse caso, que foca no leitor como cúmplice para uma literatura, seja ela de qual gênero for, funcionar. São nove contos que passeiam por livros e autores conhecidos no mundo inteiro. Xerxenesky usa e abusa de suas influências tanto literárias, quanto de outros gêneros ficcionais, o cinema, por exemplo. No livro ainda há espaço para os games, que toda uma geração nascida da década de 1980 para cá, aprendeu a gostar.


O livro é ágil e fácil de ler, o que não é um demérito, não é preciso reinventar a roda, basta apenas um bom punhado de histórias bem estruturadas e amarradas num enredo lógico e eficiente, o que torna a leitura prazerosa; Se engana quem pensa que o livro não traz algumas reflexões interessantes, como o mercado editoral brasileiro, que está publicando cada vez mais com uma qualidade, em muitos casos, baixa. O mais importante na literatura de Antônio Xerxenesky é o frescor que ela transmite, talvez por ainda não estar preocupado em fazer sucesso ou ganhar muito dinheiro(se é que é possível ganhar muito dinheiro com literatura no Brasil), e o foco seja dado apenas na escrita, no prazer de escrever.

Confira abaixo a entrevista que o autor concedeu exclusivamente para o Angústia Criadora.

Entrevista: Antônio Xerxenesky

Não há nada de errado em não se interessar por literatura
Foto: Tómas Rangel
Você escreveu um livro curioso, onde a metaliteratura está bastante presente, algo que você já fez no seu romance “Areia nos dentes”, ainda sente necessidade de tentar mostrar como funciona a ficção?
Olha, acho que com o “A página assombrada por fantasmas”, terminei de expressar tudo o que queria nessa área. Foi importante – e divertido – para mim usar jogos metaliterários nesses dois livros. Em certo sentido, o Areia nos Dentes complementa este novo livro de contos. “Areia nos dentes” é focado no escritor, “A página assombrada por fantasmas” no leitor. Mas agora acho que acabou. Espero.
A geração Z descrita no último conto do livro é uma alusão a escritores do sul e sudeste do país que são conhecidos por serem “fechados” a autores de outros locais?
Não, de modo algum. Há muita ironia naquele conto. Além de brincar com as “cenas literárias”, também satiriza a visão dos críticos acerca dos novos autores e dessas “cenas”.No conto “Sequestrando Cervantes” você descreve um grupo de pessoas filiadas a um determinado partido, que queria mudar toda a estrutura do livro “Dom Quixote” para causar alguns efeitos em determinadas camadas e beneficiar outras. Já teve vontade de mudar a estrutura de algum romance clássico?
Não, não, nunca tive esse desejo. Mas esse tipo de coisa acontece, em um nível muito menor, naquelas edições “simplificadas” para adolescentes. É impossível fazer um jovem ler “Dom Quixote” nos dias de hoje. Nada de errado com isso, claro. Cada um lê o que quiser. E não há nada de errado em não se interessar por literatura, também.O início do conto A breve história de Charles Mankuviac é bem irônico: “Charles Mankuviac. Brasileiro,apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro”. Acha que não é possível a literatura brasileira conquistar outros países? Por quê?
Acho que a literatura brasileira tem tudo para conquistar outros países. Acho até bizarro que escritores do porte de um “Bernardo Carvalho” não sejam mais lidos lá fora. No entanto, é fato que os autores daqui não são tão lidos no estrangeiro. Falta de incentivo do governo, talvez? Os outros países costumam financiar traduções, costumam bancar viagens dos autores até outros lugares, e assim por diante. Vejo muito pouco isso no Brasil. Percebemos no seu livro uma nostalgia com alguns filmes, livros e games. Acha que é possível escrever sobre o que não faz parte do seu mundo?
Acho que o escritor escreve sobre o que pode. Digamos que eu queira escrever sobre, sei lá, iatismo. Posso pesquisar a fundo o assunto. Mas se o tema do iatismo não significar nada para mim, será uma escrita fria, artificial.

Você produz sua literatura através de alguma imagem inicial, ou você vai arriscando e escrevendo todos os dias procurando novas possibilidades?
Eu tenho uma ideia, anoto em algum lugar, faço alguns diagramas e cedo ou tarde sento a bunda na cadeira e escrevo.

Para um jovem autor é importante buscar referências em outros jovens autores, ou isso pode “contaminar” uma literatura que ainda não amadureceu?
É essencial que um novo autor leia os novos autores, para saber em que cena está se inserindo. Nem que seja para romper e discordar dos seus outros comparsas.

Qual o nível que pretende alcançar com a sua literatura?
Gosto de pensar que escrevo livros com vários níveis de leitura, livros que ofereçam coisas diferentes a diferentes tipos de leitores, dos menos experientes aos mais eruditos. Por isso acho importante sempre escrever algo divertido, por mais bobo que isso possa parecer. Não há nada de errado em entreter o leitor.

O que você tem a dizer sobre escritores que escrevem em blogs e sites? Pode ser chamado de literatura?
Se há trabalho estético, não tem porque não ser chamado de literatura. Só muda o suporte. Blogs e sites são meios tão válidos quanto os livros.


É importante um jovem autor tentar publicar em antologias e jornais?
Se ele quer ser bastante lido, acho que sim. Publicar em antologias não faz ninguém crescer enquanto autor, só dá mais divulgação ao trabalho do escritor.

Quando se deu a vontade de começar a escrever?
A partir dos 16, quando escrevi alguns contos horríveis que, pelo bem da minha sanidade, foram apagados.

No seu blog você faz o seguinte comentário: “como os livros, ao invés de unir, separam as pessoas”. Explique melhor esse conceito.
Em meu livro A página assombrada por fantasmas, tentei fugir daquela visão que muitos livros sobre literatura trazem, de que “literatura é demais”, é apaixonante, nos torna mais humanos etc. Não que não seja isso. Mas parece que muitos livros que trazem a própria literatura como tema parecem cartas de amor exageradas à literatura. Eu quis escrever um livro que levasse em conta o fato de que nem todas as pessoas no mundo são leitoras, nem todos os escritores são legais, livros podem estragar nossas vidas, nos isolar do mundo, e assim por diante.

Você edita a revista online Caderno de Não-Ficção, pretende lançar em formato impresso?
Pretender, claro que pretendo. Mas só seria possível com um financiamento externo. Não daria lucro. O que por um lado é bom, porque isso significa que posso editá-la sem fazer nenhuma concessão.

Quando está escrevendo um conto ou até mesmo um romance, consegue desligar-se do mundo real completamente?
Não, pois o telefone insiste em tocar, e cedo ou tarde eu preciso ir ao banheiro.

Ser um jovem escritor causa admiração nas pessoas?
Não. No máximo viro motivo de piadas entre ex-colegas de colégio.

O que mais lhe atrai quando está lendo um livro de um autor que você não conhecia?
Acho que certo “frescor” narrativo. Não “originalidade”, pois isso não existe. Mas parecer autêntico, diferente. Um autor com uma voz própria.

Qual um livro que você leu e que ainda hoje se pega pensando nele?

Não tem um dia que passe que eu não lembre de alguma cena de O arco-íris da gravidade, do Thomas Pynchon. Aquele livro é maior que o mundo.

A Não Editora, na qual você é editor, acabou de lançar o livro de contos  24 letras por segundo, são histórias que remetem ao estilo de grandes diretores do cinema mundial, um conto seu está presente, fale um pouco sobre esse lançamento e os próximos projetos da editora.
Pois é. São contos inspirados em cineastas, geralmente imitando o estilo deles – seja visual, seja de roteiro – nos contos. O meu conto é baseado na obra do cineasta independente Hal Hartley. Quanto aos próximos projetos da Editora… bem, isso ainda é segredo.

O escritor Nelson de Oliveira lançou recentemente o livro Geração Zero Zero e causou uma certa polêmica no conceito de “geração”. Qual sua posição sobre esse tema?
Apesar de discordar com vários autores que o Nelson escolheu, considero a iniciativa de tentar mapear nossa geração louvável. Mas, enquanto o Nelson tenta aproximar os autores pela linha do “bizarro”, eu diria que não há absolutamente nada em comum entre os autores da nova geração. Vivemos no mais puro pluralismo literário.

A Revista Granta vai publicar no próximo ano jovens autores brasileiros com até 40 anos, você vai enviar texto?
Eu gostaria de enviar. Todavia, não tenho absolutamente nada inédito, tirando dezenas de “primeiros capítulos” de um romance que não sei se vou conseguir escrever.

Qual foi a maior crítica que recebeu sobre um texto seu?
O comentário mais positivo que já recebi, e isso vai parecer engraçado, foi de um conhecido meu, que disse que levou um trecho do Areia nos Dentes para o psiquiatra e leu para ele, dizendo algo na linha de: “É assim que eu me sinto”. Esse comentário me marcou. Agora, “crítica literária” séria, não saberia dizer qual foi a melhor ou a pior.

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