O sebo em tempos de download

Local fica localizado no centro do Recife

Por Ney Anderson

Em tempos em que imperam o gosto pela rapidez dos Ipads, Smartphones, dos celulares ultrapotentes, dos tablets e dos downloads de livros, um local antigo, antes ponto de encontro de artistas e intelectuais, a Praça do Sebo, na Rua da Roda, Centro do Recife, está ficando cada vez mais esquecido. Segundo dados da última pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, o brasileiro lê em média 1,8 livro por ano, no entanto a contradição no dado é a quantidade de exemplares impressos no último levantamento feito em 2010, cerca de 500 milhões.Uma explicação para isso podem ser os livros didáticos, os de entretenimento e aqueles comprados pelo governo para distribuição nas escolas do país. 



Na Praça do Sebo, um dos principais locais de vendas de livros usados na cidade, é possível ver crianças com os pais em busca dos livros didáticos, mas também estudantes universitários e pessoas que só estão ali para comprar um livro de ficção. O local, que já foi um espaço muito mais disputado, hoje sofre com a falta de manutenção e de segurança. “A prefeitura poderia ajeitar o calçamento, melhorar os banheiros e algumas outras coisas. Já pedimos tanto e nada acontece”, desabafa Severino Augusto, 52 anos, um dos livreiros mais antigos do local, que está lá desde a fundação em agosto de 1981. 


Severino Augusto, mesmo com o pouco estudo que teve é fascinado por livros, principalmente os de História e pede para a reportagem fotografar a vitrine com livros sobre Pernambuco, a invasão holandesa e as biografias de personagens famosos da história recente. “Não me vejo fazendo outra coisa, sou muito apegado aos livros”, diz. Pai de dois filhos, diz que os livros são o que de mais importante pode deixar para eles. “Minha filha trabalha comigo desde nova. Essa é a maior herança que posso deixar”, diz.
Livros baratos são o forte do local que, segundo o livreiro Carlos Pontes, vendem muito quando são amplamente divulgados pela mídia, à exemplo da série Crepúsculo, da norte-americana Stephenie Meyer; do padre pop star Marcelo Rossi e dos livros espíritas. “Nosso movimento é constante até o final de março, depois fica o famoso pinga-pinga”, comenta. Entre os autores que mais vendem ele destaca Paulo Coelho, Augusto Cury e J. K. Howling (autora da série Harry Potter). “É impressionante como esses escritores vendem, talvez seja o gosto pelo oculto, a busca de algo que não conhecemos”, filosofa Carlos. 


Alguns escritores e jornalistas são clientes dele, que tem orgulho de falar que já vendeu livros para o jornalista José Teles, Fernando Rêgo Barros e para o escritor e pesquisador Liêdo Maranhão. Sobre o índice de leitura ele comenta, “Antigamente os jovens liam mais”. Mesmo com a baixa quantidade de jovens interessados por ficção ele diz que chega a vender 10 livros por dia, mas já foi melhor. 


Entre os frequentadores do sebo, a dona de casa Katia Regina , 34, sente falta dos livros escolares. Já para a professora Verônica Camarote, 50 , o local é ótimo para não apenas comprar livros, mas para trocar. “Sempre estou por aqui, vendendo e comprando, os livros no sebo são mais baratos e o local é muito aconchegante. Além do quê, já comprei muita coisa rara, como por exemplo a História de Chico Heráclio, O último dos coronéis brasileiros”, conta. 


Entre bares e pontos de táxi, carrocinhas de CDs e DVDs “piratas”, mendigos, prostitutas e faculdades, a Praça do Sebo parece um jovem perdido em um local totalmente desconhecido, abandonado pelo poder público e pelos leitores ávidos de outrora. Os donos de estandes na Rua da Roda acham que a o local poderia ser melhor se existisse uma associação para brigar pelos interesses de todos, mas não deu certo em algumas tentativas. O que eles fazem todos os dias, de segunda a sábado, é tentar manter viva uma história que já dura mais de trinta anos. Mas, parafraseando o escritor Ariano Suassuna, locais como esse nunca deixarão de existir enquanto houver pessoas interessadas em Dom Quixote e Madame Bovary.


Carlos Pontes acredita que os jovens liam muito mais em outras épocas
Estátua do escritor Mauro Mota
Kátia Regina sempre frequenta o sebo
Variedades de títulos com preço reduzido é o diferencial
Severino Augusto, um dos mais antigos da Praça da Roda

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