Grupos literários driblam as dificuldades para chegar aos leitores

Por Ney Anderson

Discutir literatura, interpretar poesias, escrever não apenas para si, mas para o mundo, mesmo que esse mundo seja o bairro de cada um, o bar, a livraria. Sair do conforto do lar, das leituras e produções solitárias que antes faziam os escritores “deuses da escrita”. É fato que nos últimos anos muitas pessoas deixaram o posto de leitor, para se tornarem escritores. Mas o que fazer para divulgar obras produzidas por esses jovens narradores e poetas?

Sem o espaço da mídia, uma solução eficaz minimizou essa barreira: os grupos literários. Decidiu-se então levar histórias em prosa e verso para lugares que antes não recebiam esse tipo visita, que estão cada vez mais em moda no Recife. Muitos desses grupos se reúnem em bares, declamando poesias, lendo contos e trechos de romances. Tudo isso para “movimentar” a literatura.

Pelo menos foi com essa finalidade que surgiu, em 2008, o Dremelgas, reunindo alguns jovens poetas declamadores que apresentam textos próprios e de outros autores e que, por diversas razões, não tinham visibilidade no cenário cultural da cidade. A iniciativa foi do escritor Fernando Farias que, junto com a produtora Sachiko Shinozaki, fez o grupo tomar forma.

“Apesar das dificuldades de alguns em comparecer em todos os eventos, estamos sempre envolvidos em eventos culturais”, comenta Shinozaki. Para ela, o principal benefício dessas apresentações é o fomento e divulgação da cultura, que não pode ser apenas um ato isolado, por ser “ importante para a popularização da literatura”.

Dremelgas
Já para Alexandre Melo, coordenador do Nós Pós, a intenção era criar um grupo que motivasse o consumo dos novos escritores pernambucanos; que abrisse espaço para eles. “Percebemos que não havia uma representatividade significativa focada nos jovens escritores que estão surgindo”, diz. “A ideia inicial foi do escritor Artur Rogério, que pensou em eventos intimistas para jovens escritores se apresentarem. Quando reunimos o grupo (agosto de 2007) fomos amadurecendo a ideia e lhe dando corpo e forma”, completa.

No princípio, o grupo fazia leituras performáticas de contos e poesias em bares do Recife Antigo. Depois, resolveram investir em projetos maiores, como a Balada Literária, organizada em São Paulo pelo escritor Marcelino Freire. Ainda que grupos de literatura sejam para uma parcela pequena da população, por causa da pouca familiaridade com os livros, Alexandre pensa que a literatura pode ser levada a todos os públicos, desde que se faça uma interligação com outras linguagens para despertar o interesse por ficção. 

Wellington de Mello, coordenador de lite­ra­tura da Secre­ta­ria de Cultura do Governo de Pernambuco e integrante do grupo Urros Masculinos, acredita que essas ações servem, acima de tudo, para trocar ideias, compartilhar projetos “como qualquer grupo de amigos, na verdade”.O Urros…nasceu em 2008, quando Artur Rogério, que já havia fundado o Nós Pós e saído do grupo resolveu criar um novo formato para apresentações, juntando-se ao grupo o poeta Bruno Piffardini. Sem hora e nem lugar para acontecer, basta um telefonema ou e-mail para os participantes reunirem-see “fazer” a literatura acontecer. 
Dremelgas

O grupo é o responsável por outro projeto, o Freeporto, que, como o nome já sugere, é uma ironia à Festa Literária Internacional de Pernambuco(Fliporto), e já trouxe nomes de peso da literatura nacional,como os escritores Mário Prata, Ivana Arruda Leite e Santiago Nazarian. Todos na base da “camaradagem”, pois só recebem uma ajuda de custo mínima, diferente do alto valor pago pelos grandes eventos da área. A última edição da Freeporto foi no ano passado (2011), pois a intenção era mostrar que festivais de literatura poderiam acontecer em qualquer lugar e com poucos recursos. 
Freeporto

Sair da redoma de vidro e mostrar os dentes –ou melhor, as páginas. Iniciativas assim divulgam o livro, a literatura e a ficção de um modo geral e se torna um prazer para os grupos de literatura. Fazendo cada um o seu papel, lutando diariamente para mostrar que literatura não precisa ser obrigação e sim diversão. 

“Não tem nenhum objetivo de salvar a literatura ou fomentar a produção ou qualquer coisa dessas. Nós é que nos beneficiamos com o convívio, com a troca de ideias, de olhares sobre o que estamos produzindo. Somos leitores uns dos outros”, analisa Wellington de Melo.

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