Jornalismo na trincheira

Por Ney Anderson

“Se seu ofício é escrever, fazer televisão é como tentar respirar embaixo d’água. Você não consegue porque não tem guelras, precisa encontrar o jeito, um jeito qualquer para não morrer afogado”. Essas palavras do escritor e jornalista italiano, Roberto Saviano, autor do cultuado livro Gomorra, traduzem muito bem o espírito de A máquina da Lama, histórias da Itália de hoje (Cia das Letras, 160 pgs. R$ 29,50). A maneira que o autor encontrou para “sobreviver” em frente as câmeras do programa Vieni via com me (Vem embora comigo), foi simplesmente falar sobre o que descobriu sobre o lugar que tanto ama. Como já havia feito com seu livro de maior sucesso, o autor não poupou nos relatos sobre corrupção, o direito à morte digna, a grande quantidade de lixo nas ruas de Nápoles e tantos outros temas.


O que mais impressiona são as narrações em longos monólogos sobre diversos assuntos, tudo isso em um programa de televisão de baixa audiência que, milagrosamente, bateu o Grande Fratello, reality show de sucesso no país, como também várias partidas da Liga dos Campeões, entre elas Inter x Barcelona. Talvez porque “os espectadores querem ouvir histórias, e não fofocas, e não gritos”, como salienta o autor.

Saviano é um jornalista sem medo, que arriscou sua própria vida (depois do sucesso de Gomorra, ele foi jurado de morte pela máfia e hoje vive sob escolta permanente e muda constantemente de endereço) para mostrar aos cidadãos comuns da Itália o verdadeiro país onde vivem. Ele é um jornalista que entende a profissão não apenas como uma mera reprodução do que todos já sabem e estão vendo, mas levando para o grande público o que ele não consegue enxergar.

“Mas se você chega a tantas pessoas, com um recorde tão alto, deixa todo mundo em crise, porque demonstra que é possível fazer uma televisão diferente e ter audiência. Mesmo sem gritar, mesmo sem grandes encenações, mantendo no centro de tudo a palavra. Você demonstra que o insucesso não é culpa de um público anestesiado e tolo, mas com freqüência, de quem não consegue fazer relatos estimulantes e gerar empatia”.

Esse é um ponto chave nas obras do autor: a empatia. Difícil ler e ficar na mesma posição de conforto de antes, por isso que Saviano virou o alvo número um da máfia napolitana, justamente por ele ter aberto a porta e mostrado a verdadeira história para os italianos. A máquina da lama do título é justamente a luta de grupos obscuros que tentam difamar e destruir moralmente as figuras interessadas em combater o crime em todos os seus derivados. 


“Um ataque de uma máquina que lhe cobre de lama: um ataque que parte de sua vida privada, de fatos minúsculos de sua vida privada, que são usados contra você. Então, quer seja prefeito, assessor, médico, jornalista, antes de criticar você reflete um pouco. Quando isso acontece, a liberdade de imprensa começa a se deteriorar, a liberdade de expressão começa a se deteriorar. Seja qual for seu estilo de vida, seja qual for seu trabalho, seja qual for seu pensamento, se você se posiciona contra certos poderes, estes sempre responderão com uma única estratégia: deslegitimá-lo”

Saviano vive escoltado e muda constantemente de endereço

Foi exatamente essa tentativa de ataque que Saviano recebeu quando provou a existência da rede mafiosa Cosa Nostra, todo um poder lutando contra apenas um homem, onde as únicas armas sempre foram a caneta e o papel. Mas que estão fazendo um estrago grande, com relatos precisos sobre problemas crônicos do país, como o lixo nas ruas de Nápoles, que geram, lógico, doenças e degradação humana, envenenamento de campos e estradas, o que ele chama de “ecomáfias”, organizações que desviam dinheiro público destinado para a retirada dos detritos espalhados por toda Nápoles. 

Roberto Saviano não se detém apenas na máfia, embora ela sempre exista como pano de fundo para as histórias contidas no livro, como o padre que mudou e salvou toda uma comunidade que não via um futuro promissor para seus habitantes; a falta de manutenção de prédios antigos, principalmente os universitários, que sempre desabam por falta de “interesse” do governo, matando muitas pessoas. Ainda existe um apêndice com três artigos que ficaram de fora do livro Gomorra e foram publicados no jornal italiano La Repubblica. 

Nesse A máquina da LamaSaviano faz mais uma grande análise de como os acontecimentos recentes são deturpados por grupos que dominam os veículos de comunicação, e que é função dos verdadeiros jornalistas mostrar a verdade, não apenas em benefício próprio, para que sejam levantadas as cortinas de ferro, revelando que do outro lado há um país que poucos conhecem e talvez nem saibam que existe.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *