Uma livraria que entrou para a história

Por Ney Anderson

Quem hoje trafega pela Rua Sete de Setembro, transversal com a Avenida Conde da Boa Vista, no coração do Recife, não faz ideia que uma das maiorias livrarias das décadas de 1970 e 1980 ficava ali: A Livro 7. Começou com uma pequena loja dentro de uma galeria do Edifício Amaraji, na mesma rua, com pouco mais de vinte metros quadrados. Mas o acanhado espaço era apenas o começo daquela que se tornou em pouco tempo a maior livraria do Brasil, figurando no Guinness Book cinco anos seguidos.

Mesmo ainda pequena, a livraria já começava a aparecer na mídia devido aos eventos constantes que realizava. Escritores como Hermilo Borba Filho, Nagib Jorge Neto, Antonio Torres, José Mário Rodrigues e Joaquim Cardoso foram os primeiros a autografarem na pequena livraria. Em paralelo as noites/tardes de autógrafos, aconteciam os recitais, as projeções de filmes ainda em super-8, de Jommard Muniz de Brito, Fernando Spencer, Fernando Monteiro e tantos outros. Exposições/performances com Paulo Bruscky, Daniel Santiago, Katia Mesel, Ivan Maurício, Sérgio Lemos, Marcus Cordeiro e Cavanni Rosas também integravam os eventos promovidos pela livraria.

“Havia um bom violão que ficava sempre à disposição dos frequentadores. Kátia de França, Robertinho do Recife, Luís Ricardo Leitão, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, por exemplo, sempre davam uma canja”, relembra o ex-proprietário, Tarcísio Pereira. “A abertura de espaços para eventos culturais, a participação na vida cultural da cidade, a maior liberdade e acentos para consultas, coisas muito comuns nas grandes livrarias hoje, podem ter sido inspiradas pela Livro 7”, acredita Pereira. O local teve seus altos momentos, com lançamentos de parar o trânsito, literalmente, como o do escritor norte-americano, Sidney Sheldon, que vendeu 940 livros em 2 horas e meia de autógrafos.

“O Sheldon, sem dúvida, foi o maior lançamento que organizei, das cinco noites de autógrafos que ele realizou no Brasil, a nossa foi disparada a melhor”, diz. Foi o maior lançamento e também o mais difícil de ser realizado. Começou na Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha. Lá Tarcísio conheceu o agente literário do autor do best-seller O outro lado da meia noite, quinze dias depois, soube-se que Sheldon iria fazer uma turnê pela América Latina, passando pelo Brasil.

Pereira acredita que o tipo de livraria que criou foi determinante para a criação das grandes redes de hoje

O Recife não estava no roteiro, pois o próprio autor disse que não viria por causa da violência da capital pernambucana. Depois de muita insistência do livreiro, ele cedeu, sob a condição de ter um jatinho à sua disposição. “Foi a melhor noite de autógrafos de Sheldon do Brasil, e sem dúvida a maior realizada na história da Livro 7”, comenta Pereira.


Mesmo com o reconhecimento do público e da mídia, a livraria não resistiu. Numa época de recessão, em que os salários dos professores, maiores clientes da livraria, tinham sido reduzidos; e que a degradação do bairro da Boa Vista era nítida, a livraria, depois de 28 anos de atividades, fechou as portas em 1998. “Tive momentos difíceis, de terríveis dificuldades financeiras, de vender todos os bens naquela visão não de empresário, mas de livreiro apaixonado que achava que a crise passaria”, recorda-se.


A Livro 7 fez parte de uma época em que o livro era muito mais do que um mero objeto, pois ainda não existia os computadores como conhecemos hoje, e a Internet estava apenas engatinhando. O livro e os jornais eram as fontes de pesquisa, consulta e lazer para quem gostava de ler, talvez por isso que o charme e o tamanho da livraria fizessem as pessoas ficaram várias horas tentando “descobrir” um livro. Difícil existir uma pessoa no Recife que goste de livros e não ter um com o inconfundível selo da livraria.


“O público leitor, principalmente o meio acadêmico, era muito mais exigente, principalmente porque não havia a Internet com a força que tem hoje. Então, o livreiro importava muito mais”, diz Tarcísio. Criar uma livraria como a Livro 7 não foi apenas um sonho de Tarcísio Pereira, foi um grande desafio que serviu de combustível para as futuras atividades que exerceria, mesmo sendo no ramo parecido. Agora, com 65 anos, esse senhor de cavanhaque e chapéu marcantes, está se lançando em outra empreitada, a criação do selo editorial com o próprio nome. “É um momento de desafios devido à instabilidade do mercado depois da chegada da Internet e dos e-books, mas gosto dos desafios. Aprende-se muito com eles”.


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