Namoro

Na segundo texto do Raimundo de Moraes para o projeto Eu escritor, ele continua o tema proposto na primeira aula. A relação do autor iniciante com a ficção agora está um pouco mais séria e já chegou no namoro. Aqui ela dá muitas dicas de leitura e no fim do texto, um exercício muito original. Divirtam-se.

Por Raimundo de Moraes

Namoro

Foto: enviada por Raimundo de Moraes

 

Olá. Aqui estamos no nosso segundo encontro da oficina Eu escritor. Provavelmente você já deve ter refletido um pouco sobre as perguntas que lançamos no nosso último postAgora damos mais um passo nessa decisão de tornar a literatura sua principal forma de expressão na arte e na vida.

Quando perguntados como se faz um escritor, todos os grandes mestres e oficineiros de escrita literária partilham de um mesmo conceito básico: é preciso ler, ler muito. Isso é um conselho óbvio, pois não existe músico que não saiba tocar um instrumento, não existe cozinheiro que não saiba fritar um ovo. Como você se propõe a contar uma história se nunca leu outras histórias para torná-las parâmetro e fonte de inspiração para a sua criatividade?

Dizer leia muito é um conselho genérico que pode dar bons frutos ou ocasionar uma enorme dispersão e energia gasta em bobagens que poderiam ser evitadas. Claro que, quanto mais conhecimento em várias áreas você acumular, mais ferramentas serão adicionadas à sua prática diária. Mas tente traçar um plano de leitura que não lhe direcione apenas aos best-sellers ou a um único tipo de literatura.

No estágio de escritor iniciante, acho importante que você tenha um sólido conhecimento dos clássicos – pois os autores contemporâneos que você admira também beberam nessa fonte. Levando em conta sua espontânea atração para alguns gêneros, explore os grandes autores com o critério de aprendiz e ao mesmo tempo com o olhar crítico de futuro colega de ofício. E não esqueça de anotar suas impressões dos livros que mais lhe tocaram. No futuro, daqui a alguns anos, você poderá até se surpreender com o que escreveu e com a pessoa que você era e a pessoa que você se tornou.

O que ler, por onde começar? São tantas as possibilidades, mas cabe a você decidir. Por exemplo, que tal fazer um plano de leitura a partir da lista Os 50 autores mais influentes do séc. XX e o que aprendemos (ou devíamos ter aprendido) com eles? Nessa eclética reunião de nomes e estilos, o escritor e jornalista português José Mário Silva faz uma pequena análise de cada um dos cinquenta escolhidos e diz por que é importante conhecer seus livros. Em outra lista, Os 100 maiores livros de todos os tempos, elaborada pela revista americana Newsweek, aparecem alguns títulos da lista de José Mário. É uma versão mais extensa – condensando outras enquetes famosas – e não menos interessante. Quase todas as obras citadas pela Newsweek já foram traduzidas para o português. As duas listas estão disponíveis na internet.

Aliás, faça da internet uma aliada para a sua formação de escritor. Diversos sites possuem um acervo disponível para downloads gratuitos, como o Domínio Público, Biblioteca Virtual, Cultura Brasil, Projeto Gutenberg,  entre outros. Outra dica que acho importante você pôr em prática: frequente uma biblioteca real. Provavelmente na sua cidade deve ter alguma, ou na sua escola, na sua faculdade. Quando eu era estudante da Universidade Católica de Pernambuco todos os dias da semana eu estava na biblioteca de lá, para pegar/devolver livros ou apenas para ler jornais e revistas. Alguns textos meus que foram premiados depois, nasceram ou foram inspirados naquela época de intensa leitura.

Aconselho também dar igual importância aos clássicos brasileiros. Eu costumava usar como bússola o livro História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi. Outra opção que pode lhe servir de guia é O livro de ouro da Literatura Brasileira, de Assis Brasil.

Para completar essa parte o que ler e como ler, gostaria de incluir alguns títulos específicos que poderão lhe ajudar nesse namoro e futuro casamento com a Literatura:

Escrevendo com a alma, de Natalie Goldberg, é uma espécie de autoajuda para o escritor iniciante. Natalie é muito conhecida nos Estados Unidos, tanto por esse seu livro – adotado em várias escolas – como pelas suas oficinas. Utilizando a filosofia do zen budismo, ela aborda os bloqueios de cada um e como eles podem ser superados. Mas se você acha que algo um tanto filosófico não é sua praia, sugiro o oposto: Como escrever um livro, do escritor e jornalista argentino, Ariel Rivadeneira. São cem perguntas e respostas encadeadas em capítulos curtos e bastante didáticos. Reúne várias dicas, como a estruturação de um conto ou de um romance, construção de personagens, ritmo narrativo etc. Em A arte da ficção, de John Gardner, e A preparação do escritor, de Raimundo Carrero, tudo que está no livro de Rivadeneira é comentado com mais profundidade. Carrero mantém no Recife uma das mais antigas oficinas literárias do Brasil, e esse background serviu para que ele escrevesse esse manual de leitura obrigatória para qualquer futuro escritor. Gardner foi crítico literário, escritor e professor, e dedicou parte da sua obra a comentar e explicar as técnicas utilizadas pelos escritores. E finalmente, como sobremesa, indico Como eu escrevo?, organizado por José Domingos de Brito, reunindo depoimentos de dezenas de autores. Às vezes é divertido ficar sabendo como os nossos colegas trabalham, não é mesmo? Cada um tem uma mania, um método, detalhes que inspiram seu dia a dia.

Vamos agora a um pouco de prática? Logo aqui abaixo temos duas figuras, que ficaram famosas através dos estudos de David Perkins sobre o uso da criatividade nos textos literários. O que você vê em cada uma? Quatro elefantes olhando uma laranja? Um homem com gravata borboleta preso no elevador? Ou nada disso? Crie os personagens e depois invente uma história.

perkins_exercicio

Solte-se, não tenha medo. Não tenha medo principalmente de escrever bobagens. Já que você decidiu ser escritor(a), a imaginação agora é a matéria-prima da sua vida. Ela quer espaço e liberdade para crescer e dialogar com tudo que lhe cerca.

Até a próxima.

 

2 thoughts on “Namoro

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