Sem medo de ser feliz. Ou infeliz.

No quarto texto do projeto Eu escritor, Cícero Belmar fala um pouco da importância da disciplina no ato da escrita, segundo ele “se você não se permitir escrever, as palavras não vão brotar num passe de mágica no papel em branco”. E ainda diz mais, aprende-se a escrever lendo os clássicos, sempre.

Por Cícero Belmar 

Escrevendo

Foto: internet

É muito legal fazer oficina literária. Ajuda.  Claro que sim. Mas não adianta esperar milagres. Se você não é uma pessoa que tenha disciplina, desista de querer ser escritor. Não há oficina, nesse mundo de meu Deus, que realize a façanha de torná-lo um contista, um romancista, um poeta sem que você se predisponha a escrever. E a ler.

Imagine o sujeito que quer ser ator. Sabe todas as teorias de encenação. Tem amigos no teatro, discute sobre peças. Mas na hora de subir ao palco ele trava. Não deixa emergir o personagem porque seus conceitos e preconceitos atrapalham. O teatro simplesmente não vai acontecer. Ou o artista se permite fluir, passear por outras experiências, ou a arte não acontece.

Do mesmo jeito é o escritor. Ou a pessoa que quer vir a ser. É preciso, portanto, compreender que quem faz o escritor é ele mesmo. E não a oficina. Começando pelo começo, só para ser redundante: quem quer escrever começa lendo, continua lendo e vai ler a vida toda. Ou parafraseando a moda (trabalhar, trabalhar, trabalhar), o sujeito precisa ter objetivo de ler, ler e ler. E, sobretudo, reservar tempo para escrever.

Isso tem um nome. Chama-se disciplina. Reservar tempo. Fazer o exercício que alguns fazem diariamente (eu não vou mentir, não o faço diariamente) de escrever. Se não todo dia, pelo menos quase todos. Um dia você escreve, no outro revê o que escreveu, no outro acrescenta, no seguinte, corta. Mas precisa dessa disciplina. Se você não se permitir escrever, as palavras não vão brotar num passe de mágica no papel em branco.

E ler. Como é que um escritor lê? Não é a leitura dinâmica, de que tantos falam. É uma leitura mais demoradinha. Fazendo comparações, observando as frases, o uso de verbos, de substantivos, a pontuação. É preciso ler os clássicos. Aprende-se a escrever lendo os clássicos. Eles falam da travessia humana. Eles falam da gente, pois somos todos iguais seja em Bodocó ou na Rússia.

Também ler os autores modernos que fizeram nossas cabeças: Juan Rulfo, Carson MacCullers, Camus, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Kawabata, Clarice Lispector, Carlos Fuentes, Gabriel Garcia Marques, Graciliano, Jorge Amado, Hemingway, e por aí vai.

Ler os mais modernos ainda que nos surpreendam pelo ritmo, pela inteligência, pelo mergulho na alma: Raimundo Carrero, Moacir Scliar, Adélia Prado… Enfim… Ler. E ter a disciplina de renunciar a tudo para ler; e para se postar diante do computador e batucar nas pretinhas do teclado. Se o camarada não tiver força de vontade para renunciar a todos os apelos externos ele nunca, jamais, em tempo algum, será escritor.

Reserve uma horinha para que esse escritor se exercite. E naquele instante renuncie a tudo para escrever, pois se cedemos aos apelos externos nunca faremos a primeira linha. É preciso dizer não ao Facebook (hora de escrever, escrever), à televisão, ao cinema, ao namoro, aos amigos.

Oficina literária é útil, sim. Pois vai aperfeiçoar seu estilo, vai melhorar o seu texto. Vai dar toques sobre coisas que antes passavam na frente do seu focinho, dando tapa no seu rosto, e você não via. É para isso que servem as oficinas, para abrir os olhos, para lhe sofisticar.

Mas, sendo repetitivo, ela não vai lhe ensinar a escrever. Essa predisposição precisa ser sua. Esse desejo de recriar o universo em palavras é um desejo seu; um desejo que todo mundo pode realizar sim, mas que vai lhe exigir uma atitude.

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