Criador ou criatura?

Já perceberam que na maioria dos livros de ficção sempre existe uma “voz” que diz o que está acontecendo nas cenas? Algumas dessas vozes falam em primeira pessoa, outras em terceira. Existe ainda outra que tudo sabe e vê. Elas são conhecidas como narradores e muita gente acaba achando que o narrador e o escritor são a mesma pessoa. Ainda que as semelhanças sejam grandes, um é diferente do outro, mas também pode ser a mesma pessoa. São várias as opções para entreter o leitor. É sobre esse assunto que trata esse novo texto de Gerusa Leal para o projeto Eu escritor. Adivinhem qual o segredo para descobrir mais esse truque dos autores? Leitura, com um acréscimo, leitura atenta com pinça e lupa. Divirtam-se.

Por Gerusa Leal

Criador ou criatura?

Imagem: reprodução internet

 

“Ler, Ler, Ler, viver a vida

que outros sonharam.

Ler, ler, ler, a alma olvida

as coisas que passaram.

Restam as que ficam, as ficções

as flores de uma caneta

as ondas, as humanas emoções,

o decantar da espuma.

Ler, ler, ler serei leitura

amanhã também eu?

Serei meu criador, minha criatura,

serei o que passou?”

Miguel de Unamuno

Ler? De novo? Não se sai desse tema? Afinal, o nome da coluna não é Eu escritor? Pois é, pois é. Para os que gostam de escrever e os que andam flertando, namorando com a ideia, parece que andamos vendendo gato por lebre, não é? Mas o fato é que em se tratando de pretender ser escritor não há como fugir do exercício da leitura. Tanto apenas para ler como entretenimento quando no caso de pretensões a escrever, ler, e ler, e ler só leva ao aperfeiçoamento das habilidades, do leitor assim como do escritor.

Leia, e leia, e leia. Assim como morrendo é que se aprende a viver, lendo é que se aprende a escrever. A gente já comentou em texto passado que, no entanto, para quem se propõe a escrever, não basta ler apenas por entretenimento. Há que se ler, como costuma falar Raimundo Carrero, “com pinça e lupa”.

Já vimos como a leitura é, no fim das contas, um diálogo entre escritor e leitor. Já compreendemos que a personagem é elemento importantíssimo na obra de arte literária. E que o narrador é o primeiro – e de acordo com teóricos e escritores relevantes – o mais importante personagem criado pelo escritor. É ele quem vai “contar a história”, “apresentar” os personagens, “montar” o texto de forma que provoque no leitor tal ou qual efeito.

Mas se podemos entender – mesmo quando tecnicamente se utilize de outras ferramentas e nomes – o narrador como uma espécie de alter-ego, de porta-voz do escritor, então aí como é que fica? O narrador é criador ou criatura?

As duas coisas, e mais algumas.

José Castello, em um dos textos do seu As feridas de um leitor, entende que a literatura não é uma máquina diante da qual a realidade se ajoelha e se despe e sim, como diria Julio Cortázar, uma máquina de inventar novas realidades. Nesse contexto, o narrador seria uma reinvenção do escritor. Reinvenção que, em alguns momentos, se realizaria inclusive à revelia do autor. O narrador seria, simplificando demais a questão, o escritor que se reinventa.

Essa reinvenção, essa recriação não se dá assim, totalmente no abstrato, como se baixasse uma entidade alienígena e dominasse o escritor. Tanto que para tratar da questão do narrador diversos teóricos criaram inclusive tipologias. A do Norman Friedman, em que ele batiza e categoriza vários tipos de narrador, talvez seja a mais conhecida. É encontrada facilmente numa pesquisa na internet. Ele define e detalha cada um dos tipos de narrador.

Mas se você pegar um livrinho chamado O foco narrativo, de Ligia Chiappini Moraes Leite, vai encontrar lá ela dizendo que para chegar a essa tipologia Friedman começou por colocar as principais questões que é preciso responder para tratar dos tipos de narrador. A primeira delas seria: quem conta a história? Trata-se de um narrador em primeira ou em terceira pessoa? De uma personagem em primeira pessoa? Não há ninguém narrando?

Só essas primeiras questões já dão pano para as mangas. Então hoje vamos ficar por aqui, sugerindo que tentem respondê-las sempre que estiverem lendo qualquer texto de ficção de sua preferência.

Mas para não deixar no genérico e manter ganchos para nossas próximas conversas, transcrevemos aqui, como sugestão para o exercício de se identificar tipos de narrador, um trecho de Machado de Assis, também selecionado por Ligia Chiappini. Leiam o trecho tentando responder essas primeiras questões que Friedman coloca. Se acharem muito curto, baixem e leiam – ou releiam – o romance de Machado em

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2118

“Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sofia e o Palha, depois que todos se foram embora. Pode ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado.

Tende paciência; é vir agora outra vez a Santa Tereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gás; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o último, quando o Palha mandou que o criado esperasse um pouco lá dentro. A mulher ia sair, o marido deteve-a, ela estremeceu.”

(Capítulo L de Quincas Borba)

Se estiver a fim de um desfio maior para exercitar sua veia de escritor, tente reescrever o trecho em primeira, depois em terceira pessoa. Perceba que não é uma mera transcrição apenas mudando a pessoa gramatical pela qual o narrador se expressa. Depois releia as três versões e observe a diferença do efeito que causam em você, como leitor, dependendo do foco narrativo (da pessoa gramatical escolhida para dar voz ao narrador).

Boa leitura, bons exercícios, boa semana.

3 thoughts on “Criador ou criatura?

  1. Gerusa,a cada texto desta série tenho a sensação de uma sequência. Não daquela coisa de um após o outro, mas de uma contextualização didática. É uma massa de informações repassada de uma forma muito leve. Esse seu texto, por exemplo, é perfeito. É um docinho na boca. Quero ler mais. Quem não quer?

    P.s. Sim, as ilustrações postadas por Ney são ótimas. Concordo.

  2. Oi, Belmar. Que retorno gratificante. De fato, a intenção é de uma sequência, e que cada tema seja tratado com leveza mesmo. É o objetivo perseguido. Vamos ver até onde consigo alcançá-lo. Abraço

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