Em Tangolomango, Raimundo Carrero nos apresenta uma personagem inesquecível

Tangolomango

Por Ney Anderson

A primeira coisa que um livro tem que ter é uma boa história. Sem ela dificilmente o leitor vai chegar até o final da obra. Agora, uma boa história com um personagem cativante é algo que ajuda muito na construção narrativa do texto ficcional. Uma personagem forte, em muitos casos, é mais importante do quê a trama em si. Tia Guilhermina é uma dessas personagens que, de tão reais, não parece ficção. Ela está no romance Tangolomango: ritual das paixões deste mundo (Editora Record, 128 páginas, R$ 29,90), novo livro do escritor pernambucano Raimundo Carrero.

Nesse livro, ambos são fortes: personagem e história. Guilhermina já apareceu em outros romances do autor, mas esteve em maior evidência no ótimo O amor não tem bons sentimentos. Ela que desde cedo mantém uma relação de amor, carinho e desejo sexual pelo sobrinho Matheus, filho de Dolores e irmão de Biba, ambas estupradas e assassinadas por ele, volta para o ritual das paixões, como informa o subtítulo do romance.

Matheus pode até ser a principal paixão que ela guarda em segredo, mas também existem os pensamentos da mudança do interior para o Recife, a lembrança de toda uma vida e a reverência pelo carnaval pernambucano, que no livro é bastante forte, tanto que a licença poética aqui foi transferir o tradicional Galo da Madrugada do sábado para um domingo. Uma forma ímpar de tentar misturar um pouco as coisas, com os delírios da personagem, e até mesmo para ir de encontro com os pensamentos dela, que diz:

“o domingo é sempre um dia sisudo, austero, talvez por causa do sol, todo domingo é dia de sol, de muito sol”.

Pronto, está resolvido o problema.

Tia Guilhermina mescla esse passeio pelo carnaval com digressões perfeitas, que não cansam de maneira alguma o leitor, é até bom que isso aconteça, pois a personagem, antes um fragmento nos romances anteriores, vai aparecendo por inteiro, mas aos poucos, e chega ao ápice no strip tease, na marquise do cinema Trianon, outra grande artimanha de Carrero, misturando esse momento de aplausos e assovios (em uma das principais avenidas do Recife), com a própria vida que, em determinado momento, está em alta, mas depois vai caindo, naturalmente. Um parêntese, Raimundo Carrero é um autor bastante visual, é impossível ler seus livros e não imaginar cenas de um filme, como no capítulo Bundinhas e bundões tremelicando, que narra o episódio do Trianon, veja:

“Com muito esforço, apoiando a mão direita no cimento, fica de pé, volta-se para um lado, volta-se para outro, sempre se equilibrando, e levanta os braços, feito quem rege uma gigante orquestra, toalha de linho branco na mão direita… Ela, então, se lembra do pacote embaixo do braço. Senta-se, abre-o e ouve os aplausos se tornarem mais fortes; sem entender, fica ajoelhada e começa a trocar de roupa…De pé, tira o sutiã, dessufocando os seios, balançando-se…Os seios de tia Guilhermina são maravilhoso”.

Cinema puro.

Tangolomango, que faz parte de um tríptico, iniciado com Seria uma sombria noite secreta, de 2011 e que terminará em Lamalagata (já em fase de escrita), é mais uma ode ao Recife nas vozes da família literária de Carrero. Mas a força está exatamente na paixão que alimenta Guilhermina e que, no final das contas, é sua perdição. É verdade que essa paixão misturada ao carnaval, apenas reforça o caráter solitário dela e o ressentimento com algumas pessoas da família, como o próprio pai que disse certa vez: “você nasceu para ser puta”. Os parágrafos são curtos e cadenciados, como a respiração da própria personagem, que passeia por cenários e cenas que servem de tapete para o desfile sublime dela em direção ao fim.

No capítulo Os sujos se levantam do chão, ela se mistura com as pessoas, metaforicamente, como se ela própria estivesse entrando em ruínas ou em declínio, e na verdade está. Os diálogos são rápidos e curtos e pode soar como uma alternativa fraca para algum crítico desatento, mas que serve de complemento para liberar a extensão interior que ela (Guilhermina) carrega. Não caberiam muitas “conversas” para explicar alguma coisa, isso estragaria a construção dessa personagem que fala com os sentimentos expostos nos gestos e lembranças.

Tudo que o autor faz tem causa e efeito (muita gente não vê isso, justamente por ainda utilizar fórmulas prontas e ultrapassadas, para analisar qualquer coisa), até o casarão da Torre, onde tia Guilhermina mora, parece um personagem vivo, com olhos bem atentos nas idas e vindas dela pelo mundo exterior e interior.

É preciso festejar não só a recuperação de Raimundo Carrero (que sofreu um AVC em 2010 e que escreveu esse livro com apenas um dedo), mas o pleno domínio de seu ofício, mostrado nesse trabalho mais recente. Não existem mais dúvidas em relação ao autor, um dos mais premiados e importantes do país, vencedor do São Paulo de Literatura e do Jabuti, que sempre se preocupou em fazer uma literatura extremamente técnica para chegar ao leitor com a maior simplicidade do mundo, e ele pode se orgulhar disso, por criar nesse romance mais uma personagem que ficará como uma das maiores da literatura brasileira, e ainda mais por fazer literatura para leitores e não para acadêmicos.

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One thought on “Em Tangolomango, Raimundo Carrero nos apresenta uma personagem inesquecível

  1. Carrero é realmente um escritor que retrata bem a alma do povão, sobretudo, o nosso povo nordestino, as nossas crenças, o Carnaval, o cidadão comum etc. Acredito que isso se deve a sua experiência como jornalista e de homem que conhece a realidade interiorana e ao mesmo tempo da Capital para onde veio ainda jovem. Como sou contemporãneo dele, o Tangolomango – na cena em que Guilhermina faz o strip-teaser na marquise do Cine Trianon – me remete aos saudosos Carnavais do Recife (o Corso) onde vez por outra, aparecia de repente, uma mulher embriagada, em plena Av. Conde da Boa Vista ou em qualquer praça pública, a tirar a roupa para delírio da galera.

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