A banana gorda

“Pedro abriu com a unha a tampinha da parte de trás do rádio minúsculo e trocou a pilha. A música foi devolvida, tão forte quanto os chiados e mais alta do que os barulhos da rua. Ele tinha enfiado os fones nos ouvidos. Estava de pé, num fim de tarde, colhido numa diagonal rasante por um sol cor de brasa que se recusava a ir embora e se negava a refrescar. Um sol quase colado à sua testa e também à testa de todos os outros, que se mantinham em ordem numa fila, à espera do ônibus no ponto final”. Esse é o segundo parágrafo do livro Passageiro do Fim do Dia (Cia das Letras), de Rubens Figueiredo, vencedor de prêmios importantes como o Portugal Telecom e o São Paulo de Literatura. Abri com esse texto para justificar o novo artigo de hoje, do autor Fernando Farias, para o projeto Eu escritor.

Embora essa cena faça pensar que o narrador vai ficar descrevendo suas idas e vindas dentro dos ônibus, é apenas um pano de fundo para outras histórias que compõe o romance. Na verdade o ônibus é apenas um bom pretexto para o desenvolvimento do livro inteiro. É sobre essa “causa e consequência” que trata a análise de Fernando Farias. Para alcançar esse nível o escritor precisa ser disciplinado, ter responsabilidades com a sua ficção. O que não quer dizer, segundo Farias, que o ficcionista estreante tenha hora certinha para escrever, seja limpinho ou tome chá de camomila. “Mas a disciplina exatamente em ler muito. Anotar ideias. Mastigando cada palavra e lendo o que não foi escrito, o que não foi dito, o que está por trás das palavras, as ideias e os pensamentos do autor”, diz.

Vamos para mais uma aula?

Por Fernando Farias

Reprodução internet

 

Uma mulher gorda sai de casa e escorrega numa casca de banana. Cai de bunda no chão.

Nesta primeira história bem simples o autor provoca risos no leitor.

Segunda história. Uma mulher gorda come uma banana, joga a cascas pela janela, sai de casa e escorrega numa casca de banana. Cai de bunda no chão.

Agora há uma causa e uma consequência. O autor não só provoca risos. Mas leva também a uma reflexão. Há uma moral.

Numa terceira variação o autor escolhe mudar o narrador. A mulher gorda abriu a geladeira e me viu aqui, fresquinha no meu canto. Pegou-me, me descascou e comeu minha banana. Depois me jogou pela janela. Quando a vi sair de casa me preparei. Eu sabia que ela pisaria em mim. Vinguei-me. Deslizei e ela caiu mostrando a calcinha de bolinhas. Mulheres gordas usam calcinha de bolinha.

Este exercício permite muitas variáveis. Pode até ser contata por um marciano observando a cena através de um telescópio.  Ou contar o início da revolução das cascas de banana. Pode questionar se é politicamente correto usar uma mulher gorda. Se fosse magra mudaria a história?

Seja como for, o que está atrás da história é a intensão do autor em abordar que você sofre as consequências do que faz contra a natureza. Ou que pode ser vitima do seu desleixo.

Serve para uma campanha pela melhoria da coleta de lixo, serve para mostrar que Deus castiga a quem comete pecados. Serve para grupos ecológicos.

Melhor ainda. Que de uma simples ideia se pode narrar longas histórias. Quando caiu no chão, a mulher começou a sangrar. Traumatismo craniano. Mas antes de morrer passaram na sua mente lembranças de quando fugiu do exercito nazista e foi morar com a família, numa caverna embaixo da montanha de um vulcão, cercada por tribos canibais.

As aventuras da vida da mulher podem ser contadas em 500 páginas, suas viagens pelo mundo, o casamento com um padre em pleno Vaticano ou quando foi atacada por uma manada de elefantes num templo indiano. Por sinal foi lá nos bananais da Índia que aprendeu a comer as bananas jogando as cascas pelas costas. Virou um hábito.

Tudo isso até voltar ao momento em que ela desfalece na calçada ao lado de uma casca de banana. E o livro termina.

Tenho dito que escrever é fácil. Escritores são pessoas comuns, usam papel higiênico como todo mundo. Talvez seja a mais fácil a fazer de todas as artes. Por sinal, nem se aprende na escola. Esqueça este papo de que é preciso ter algum dom divino. Não existe o dom natural na arte de escrever. Não acredite nisso. Mentiram pra você.

Mas tem que praticar. Lendo e escrevendo. Escrevendo e lendo, a vida toda. Cometendo muitas besteiras, é verdade. Imitando outros escritores, é verdade. Achando que é o melhor escritor do mundo, é verdade. Mas quando começa a arrogância de que você é o maior de todos já é um bom sinal. Logo vai encontrar o seu tom, o seu modo de escrever, e às vezes um pouco de humildade.

Não conheci verdadeiros escritores sem muita disciplina. Na verdade nenhum artista assim se torna sem disciplina.

Não digo em ser organizado, limpinho, tudo na horinha certa de escrever, tomando chá de camomila. Mas a disciplina exatamente em ler muito. Anotar ideias. Mastigando cada palavra e lendo o que não foi escrito, o que não foi dito, o que está por trás das palavras, as ideias e os pensamentos do autor.

Não é a história que importa, mas como você escreve a história. O fato de a mulher escorregar na casca de banana é banal. Mas o fato dela ter este hábito e ter jogado a casca pela janela sim, é interessante. Depois que ela morreu e se reencarnou na Índia numa banana bem gordinha.

Isso é arte.

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