A literatura que brota da dor

Fotos: divulgação

Por Ney Anderson

Muitos escritores reclamam que não conseguem vender os livros que publicam, por muitas questões, quase sempre citam o baixo índice de leitura no país. No entanto, a boa distribuição dos exemplares é papel importante. Os autores publicados por grandes editoras saem na frente nesse mercado bastante competitivo, eles dispõem de um arsenal de divulgação, que inclui entrevistas em vários veículos de comunicação, palestras, sessão de leituras em escolas e mais uma série de eventos que possibilitam que o livro chegue, em maior escala, no país inteiro. E os autores independentes? Aqueles que lançam seus livros por conta própria? Para esses restam apelar que os amigos e parentes comprem seu trabalho artístico. Até entre os mais próximos não é tarefa fácil conseguir vender alguma coisa, principalmente livros.

Mesmo todas essas dificuldades não desanimam quem tem na literatura não só o prazer em criar novos mundos, mas quem depende dela para sobreviver. É o caso de Paulo Cavalcante, de Campina Grande, na Paraíba. Desde 2004, quando lançou o primeiro livro O Martírio dos Viventes, em edição paga por ele mesmo, que retrata a seca que assolou o Nordeste em 1971, resolveu rodar o Brasil em eventos literários, como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e a Fliporto, em Pernambuco. Já na sexta edição, o autor diz já vendeu mais de 10 mil exemplares. Ele contabiliza mais de 32 viagens e esse número está aumentando a cada novo ano. ”A seca foi o que me impulsionou a escrever. Quero divulgar a realidade do sertão”, diz.

Professor de história há 22 anos, leciona todos os dias quando não está viajando. Para não passar despercebido decidiu que iria também usar uma persona artística. Nesse caso a inspiração veio da própria região onde mora e se apropriou do gibão, cuia e das sandálias de couro, as mesmas utilizadas pelos cangaceiros. E não é só isso, ele fica o tempo inteiro sobre tamancos de madeiras, onde servem também para guardar alguns alimentos como banana, rapadura, castanhas e caju. Paulo, de 52 anos, que também é formado em administração, diz não se cansar nunca com a luta que enfrenta para divulgar sua obra, que aumentou recentemente com a publicação de Como se Fosse um Paraíso, outro livro sobre a seca. A trajetória de vida se mistura também com a luta pelo progresso através dos estudos, uma forma, segundo ele, de ajudar o lugar onde vive. “Tudo o que eu faço é como uma janela para todos conhecerem o espaço sofrido do sertão. Não só o colorido”. Se depender desse cangaceiro das letras, dias melhores virão para a sua literatura e para o sertão nordestino.

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