Lua de Mel

Todo casamento precisa de diálogo para sobreviver. Isso é fato. É impossível pensar num matrimônio sem conversa, troca de ideias e sensações sobre o que quer que seja. Imagine então na Lua de Mel. Na literatura não é diferente. Os diálogos são essenciais para caracterizar um personagem, contar alguma história através dessas conversas ou deixar o leitor em dúvida, sem saber quem está falando a verdade, como em Dom Casmurro, de Machado de Assis, que transformou Capitu na figura feminina mais emblemática da literatura brasileira, que, com seus olhos de ressaca, até hoje não sabemos se ela traiu ou não Bentinho. Para criar essa técnica é preciso muita dedicação e atenção, pois todo o romance, conto ou novela, pode simplesmente ser estragado por conta de um diálogo mal construído.

Foi esse o tema que Raimundo de Moraes resolveu escolher para analisar em seu novo artigo para o Eu escritor. Aqui ele cita alguns mestres nessa área, os vários tipos de diálogos e propõe um exercício bem interessante.
Boa leitura!

Por Raimundo de Moraes

Agora que você decidiu ser escritor(a), está ralando nas leituras e escrevendo com um olhar mais crítico, aprofundando as questões que lançamos desde o início desse nosso bate-papo, chegou a hora de alfinetar um pouco as delícias da sua lua de mel literária. Hoje vamos abordar um tema que flui naturalmente para alguns autores e continua sendo um grande martírio até para os mais experientes: a criação dos diálogos dentro das narrativas.

Nas oficinas literárias da vida costuma-se classificar os diálogos em três formas:

– o direto, quando os personagens conversam entre si. Para identificá-lo ou tornar evidente sua marcação, usa-se o travessão ou aspas. Essa segunda opção – aspas – foi muito utilizada no século dezenove, até meados do século vinte. Atualmente, muitos escritores preferem não usar, talvez buscando um texto mais limpo, sem tanto sinais gráficos.

– o diálogo indireto: quando o autor descreve a fala dos personagens sem o uso do travessão/aspas. Esse tipo de diálogo surge quase que diluído dentro do texto sem perder o objetivo principal, que é fazer com que o leitor “ouça” a voz dos personagens.

– indireto livre: geralmente usado na primeira pessoa, quando o narrador também é personagem da história. Aí se misturam os diálogos indiretos dos outros personagens, numa espécie de pequenos rios fluindo para um rio maior (a voz de quem está narrando).

Há quem diga que o monólogo também é um diálogo, pois o personagem estaria conversando consigo mesmo. Bem, é uma questão de ponto de vista.

O inglês Ford Madox Ford – editor, escritor, crítico literário, que escreveu mais de quarenta livros e que infelizmente ainda é pouco traduzido no Brasil – definiu desta maneira a função dos diálogos num texto literário: “Ou se conta diretamente como narrador, ou se coloca na boca dos personagens. É mais fácil, porém mais complicado”. Veja aí a alça da armadilha levantada por Ford: aparentemente pode ser bem simples, mas se não seguir a lógica do enredo e da caracterização dos personagens, o diálogo pode demonstrar a incapacidade do escritor em dar uma voz verossímil às suas criaturas imaginárias. O que poderia servir como um auxílio no desenvolvimento da narrativa acaba se transformando numa risível caricatura.

A opinião do editor e escritor espanhol Ramon Fernandez Palmeral: “Na narrativa moderna os diálogos são curtos, os diálogos são ação. Mais diálogo que descrição. As descrições longas aborrecem e tiram a atenção do leitor”.

Os diálogos num conto, numa novela ou num romance tentam resgatar o coloquial do nosso dia a dia ou a verdadeira expressão de determinado tipo de pessoa ou grupo social. Exatamente igual àquela coisa que chamamos de vida real, o diálogo na ficção também possui as suas entrelinhas – o que não foi dito ou apenas sugerido poderá ser deduzido pelo leitor. É um jogo de muitas sutilezas.

Um diálogo bem construído e que surge no momento certo pode de cara despertar a nossa atenção. Veja a abertura do conto Aquele porco do Morin, de Guy de Maupassant:

 “Vem cá, meu amigo”, eu disse a Labarbe, “você acaba de pronunciar mais uma vez essas quatro palavras, ‘aquele porco do Morin’. Por que, diabos, jamais ouvi falar do Morin sem que o tratassem de porco’?”

Labarbe, hoje deputado, me olhou com olhos de coruja. “Como? Você é de La Rochelle e não sabe a história do Morin?”

Confessei que não sabia a história do Morin. Então Labarbe esfregou as mãos e começou o seu relato.

Perceba que Maupassant já lançou um anzol na curiosidade do leitor logo nas primeiras linhas.

A mesma estratégia foi usada pelo escritor italiano Alberto Moravia, no diálogo que abre o seu romance Desidéria: 

Desidéria: O meu nome é Desidéria. E ouvi uma Voz.

Eu: Uma voz? Que Voz?

Desidéria: Responderei com o trecho de um livro.

Eu: Que livro?

Desidéria: A vida de Joana d’Arc. Ela também ouvia uma Voz. O trecho é o seguinte: “Essa voz chegou perto do meio dia, num dia de verão, na hora do meu pai. Eu havia jejuado na véspera. Raramente a escutava sem ver uma claridade no lugar de onde vinha. Na primeira vez que ouvi a voz, ofereci a minha virgindade para agradar a Deus.”

Eu: Por que Joana d’Arc? O que tem Joana d’Arc a ver com você?

A partir daí, o leitor já fica querendo saber quem é este “ser” que se chama Desidéria. A narrativa segue num ritmo hipnótico, de desvendar, recordar, denunciar as mazelas da burguesia endinheirada e seus comportamentos hipócritas.

Agora, um exemplo do mestre Machado, em Dom Casmurro:

Capitu refletia, refletia, refletia…

De repente, cessando a reflexão, fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.

– Medo?

– Sim, pergunto se você tem medo.

– Medo de quê?

– Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, de andar, de trabalhar…

Não entendi. Se ela me tem dito simplesmente: “Vamos embora!”, pode ser que eu obedecesse ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquela pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o que era.

– Mas… não entendo. De apanhar?

– Sim.

– Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada?

Capitu fez um gesto de impaciência. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer.

Notou como Capitu, atiçando Betinho para uma possível fuga dos dois, mexe com a autoestima dele e o deixa apreensivo?

Como eu já tinha dito antes – mas não custa nada reforçar – além de fornecer mais detalhes sobre o enredo, os diálogos podem revelar informações importantes sobre o caráter dos personagens. E quem sabe até dar algumas pistas sobre o que virá no desenrolar da história.

Os exemplos são muitos e são vários mestres que podem servir de aprendizado e inspiração, como Lima Barreto, Moacyr Scliar, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Raymond Carver, Scott Fitzgerald, Truman Capote etc. Todos eles retratando de maneira bastante convincente a fala, o jeito de ser dos tipos que aparecem nos seus contos e romances.

Uma boa dica também é o cinema (literatura e cinema sempre trocaram figurinhas desde a época dos irmãos Lumière). Preste atenção aos diálogos (mérito para os grandes roteiristas) nos filmes de Hitchcock, James Ivory, Giuseppe Tornatore, Martin Scorsese, Pedro Almodóvar (todos), Woody Allen (a partir de A era do rádio), Cláudio Assis, Guel Arraes.

E pra finalizar este post, um exercício. Tente construir um diálogo para a seguinte cena: um homem de meia idade encontra no estacionamento de um supermercado uma pessoa que foi o grande amor de sua vida na juventude. A pessoa o reconhece? Quais fatos o homem irá citar na conversa? A pessoa será receptiva ou neutra?

Bom trabalho e até à próxima.

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