Lambendo a cria

Quem escreve sempre tem o desejo de publicar. Isso é fato. No entanto, outra aspiração também é bastante presente na vida do iniciante, mas não só ele. Quem não quer que o texto, produzido com tanta disciplina, seja elogiado e admirado pelas pessoas? Para se chegar ao ponto final, ou próximo dele, o autor precisa ter em mente que é a paciência é outra virtude que ele precisa ter. As leitura do material produzido são importantes, lógico, mas também é necessário que o texto ficcional descanse um pouco. Os proveitos serão ótimos e a literatura ganhará muito mais. É sobre esse aspecto da criação que trata Cícero Belmar no artigo dessa semana para o projeto Eu escritor.

Boa leitura!

Por Cícero Belmar

O sonho dourado de quem escreve é fazer um texto limpinho, criativo, objetivo, sem retoques. Enfim, é produzir um texto final que seja a coisa mais linda desse mundo. Mas, parem as máquinas, fiquem perplexos: ele simplesmente nunca vai existir. É um mito. Por uma simples e única razão. Todas as vezes que um autor vai reler o próprio texto, por mais bacana que esteja, ficará farejando defeitos. E não resistirá à tentação de fazer mudanças.

Onde se viu um texto final ser modificado? Mas é bem assim. Dependendo do nível de exigência do sujeito (ou da insegurança), sempre achará que o texto nunca estará pronto para publicação. Para fazer as alterações, as desculpas serão as mais diversas: não vou me expor,  o que as pessoas vão pensar?,  tenho que retrabalhar umas ideias nesse texto ou… é melhor deixar esse texto amadurecer mais um pouco.

E entre essas desculpas listadas aí, uma até que procede, que é a de deixar o texto amadurecer um pouco. Realmente os textos precisam  “dormir”. Horas, talvez dias, meses. De forma que quando o autor for revê-lo, terá algo para acrescentar ou cortar. Para aperfeiçoar. Dormir não o sono eterno, de modo a nunca ser publicado. Mas o sono dos justos, para ele corresponder àquilo que o autor quer dizer. E resultar num texto pensado, trabalhado, estético.

A pressa é inimiga do texto bacana. E amiga de muitas coisas cafonas que podemos cortar numa segunda leitura. Se não há sangria desatada, então podemos sossegar e refazer o texto tantas vezes quantas forem necessárias. Mesmo um texto retrabalhado, no entanto,  exigirá que, num determinado momento, se ponha o ponto final. Caberá ao autor a prerrogativa de, num determinado ponto, dizer: não vou mais mexer nesse material, mesmo sabendo que se algum dia for reler, as pequenas falhas gritarão na página como bezerros desmamados.

Um texto literário precisa “dormir” porque eu não acredito que gênio algum consiga escrevê-lo de primeira. Se algum escritor já coloca no papel (ou no computador) o texto pronto, merece aparecer no Fantástico. Aquilo que é produzido de imediato, pode mudar completamente de um dia para o outro. Falo do meu caso. No meu livro de contos “Aqueles livros não me iludem mais”, por exemplo, havia contos com 15 laudas que terminaram ficando com seis.

O primeiro texto, aquele que sai num impulso, sempre há de parecer meio ridículo. Ou pelo menos contém coisas ridículas. Mas é fundamental registrar de pronto a ideia. Quer escrever? Então, deixa rolar o sentimento daquele instante. Sem medo de ser ridículo. Anotar sempre para não deixar que essa primeira proposta evapore de tão frágil e incipiente.

Um dia depois de escrito, quem sabe uma semana depois, ou muito tempo depois, quando pegamos esse texto de volta, ele pode conter passagens reaproveitáveis num conto. Pode ser um primeiro capítulo de um livro. E se não servir para nada, ainda assim, volte a deixá-lo guardado. Todos, por mais simplórios que possam parecer, serão úteis no futuro.

Nessa segunda apreciação é que o texto começa a receber diálogos interessantes, frases novas, parágrafos inteiros. Ele deixa de ser rascunho e ganha novo status. Pode, finalmente, ser chamado de texto literário, pois vai ganhando uma linguagem mais poética.

Nessas leituras subsequentes o autor valoriza a palavra. A estética vence o primeiro registro. O que importa agora é a beleza, é a função que a palavra desempenha na frase. Ela terá que ser harmônica, exata, mas também pode ser combinada com o ritmo do texto. Nessas leituras subsequentes, a frase tende a ficar mais clara, mais enxuta e as palavras, como células, podem ganhar mais leveza ou mais força, de acordo com o tipo de narrador.

Mas, chega uma hora que é preciso dar basta. Até as gatas e cadelas, num dado instante, param de lamber a cria. Mesmo que elas estejam imperfeitas.

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