Vai um miniconto?

No último artigo do projeto Eu escritor, Cícero Belmar fala sobre os textos curtos, que também merecem atenção especial do autor. A complexidade da “história” é a mesma, mas que requer um trabalho ainda maior para mostrar tudo, ou quase tudo, em poucas linhas. A reflexão não é função apenas dos grandes romances e jogos narrativos. O microconto mundialmente conhecido, do mexicano Augusto Monterroso, em apenas uma linha traz várias possibilidades de compreensão:  “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá“. Simples e potente, como esse último texto de Cícero Belmar.

O Eu escritor encerrou um ciclo de mais de seis meses. Toda semana os colunistas Gerusa Leal, Fernando Farias, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar, publicaram textos interessantes sobre como criar literatura. Não foram receitas de bolo. Não. Desde o início a proposta foi de uma grande conversa sobre o tema, com dicas sobre livros, ensinamentos de autores consagrados e alguns exercícios. A intenção foi tirar esse caráter exclusivo que a literatura transmite, não deixando espaço, na maioria das vezes, para os aspirantes. O quarteto do Angústia Criadora provou que é possível criar histórias com enredos interessantes e personagens inesquecíveis. Basta observar ao redor. A literatura está por aí, em todos os lugares e cantos. A musa inspiradora não precisa apontar o dedo para você.

Literatura se faz com muita observação, leitura e suor. Saia de casa, pegue um ônibus, olhe os trejeitos dos passageiros. De onde eles vieram? Quais os problemas de cada um? E a cobradora. Será que ela queria mesmo estar ali? Não precisa perguntar. Apenas invente a resposta. Você vai ver como é prazeroso criar um mundo paralelo.

Tenham uma boa leitura!

 

Por Cícero Belmar

 

Oh, meu senhor, perdoai-me! Eu já falei mal dos minicontos. Por puro preconceito e limitação. Mas, sempre defendi a teoria de que não podemos falar de algo que nunca experimentamos. Então, passei a ler com mais cuidado os curtinhos. Reparem bem no que deu, tomei gosto pelos danados. Me viciei. Fiquei tão entusiasmado que faço até minicrônicas também.

Estou sempre tentando produzir os textos curtinhos que, ao contrário do que se possa pensar, nunca são escritos rapidamente. Pelo contrário. Em geral dão um trabalho danado e às vezes tanto ou mais do que um conto tradicional.

A principal qualidade de um miniconto (ou de uma minicrônica) é a extrema importância que se dá à palavra. Até mais que nos contos grandes. Cada palavra é fundamental. São pouco caracteres para transmitir uma emoção e, portanto, é necessário que sejam muito bem escolhidos. Eu faço uma diferenciação entre miniconto e microconto. Esses últimos são menores ainda (até 100 caracteres). Numa única frase o autor precisa dizer tudo, com um poder extraordinário de síntese.

Um microconto é tanto mais legal quanto se oferecer possibilidades de leitura, além do sentido denotativo. Um amigo meu, Alexandre Figueirôa, escreve bem os microcontos. Um deles, que reproduzo agora, é o seguinte: “Ela não aprende. Terça de manhã na praia com dois jovens surfistas”.  Nessas doze palavras e 55 caracteres, há uma trama, um personagem, um presente e um passado. Mas pode-se ler uma nova tentativa de ser feliz, um suspense. Algo acontecerá, já que ela (a personagem) “não aprende”.

A frase “Ela não aprende” é quase o microcontro todo. Retirem-na do texto e ele ficará um relato comum. Portanto, não é à toa que foi colocado na abertura. Vejam que o narrador não está dando um sermão na personagem. É como se ele estivesse lamentando, sentindo o sentimento do personagem. A personagem, que não sabemos quem é, não aprendera e continuava na companhia de surfistas na praia, apesar das experiências ruins por que passara.

Escrever microcontos, definitivamente, é difícil. Mas, há pessoas que elaboram frases e pensam que elas são microcontos. Ou então, escrevem uma piada. Mas eles não podem ser confundidos com piadas ou com frases engraçadas e inteligentes. Piada é atribuição de humorista, mesmo as amargas. E as frases são dos grandes frasistas.

Já em relação aos minicontos (que podem chegar a 15, 20 linhas), eu me garanto. Estou meio viciado em escrevê-los. É tanto que eu me pego teorizando. Mas não caio na bobagem de achar que os textinhos curtos, que permitem uma leitura mais rápida, vão terminar substituindo os mais longos nesses tempos em que as pessoas andam cada vez mais lépidas e fagueiras.

O miniconto tem uma complexidade semelhante à dos contos maiores. Pois ele é ficção. Por ser mais curto, o leitor poderá até terminar a leitura mais rapidamente. Mas o pensamento exigirá o seu próprio tempo de degustação. Assim como nos contos mais tradicionais, de páginas inteiras, esses menores também pressupõem um narrador, uma trama, um personagem. O que acontece com os minicontos é que o autor só abre mão do detalhismo dos contos mais longos. E opta pelo efeito da palavra.

O mesmo ocorre com a minicrônica. Ela é uma mistura da ficção com a realidade, um comentário sobre um fato cotidiano, igual à crônica longa. A diferença é o tamanho do texto. Se nos contos e nas crônicas maiores os detalhes levam o leitor à identificação, os minicontos e as minicrônicas laçam pela intensidade da palavra. Pela tensão da frase. Pela emoção precisa e sobretudo pela capacidade poética.

Quem quiser escrever um bom miniconto ou uma boa minicrônica pode até ser um poeta frustrado porque não consegue dizer coisas bonitas na métrica dos poemas. (Os poetas de verdade também são bons autores dos mini e microcontos). Mas eu me pergunto, o que é um bom miniconto ou uma boa minicrônica? É um texto de palavra pensada, que permite ao leitor várias interpretações de acordo com o seu próprio ponto de vista.

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