Romance de Wellington de Melo desafia os limites de gênero em narrativa bem armada

 

Por Ney Anderson

Wellington de Melo, autor de cinco livros de poemas, lança seu primeiro romance, Estrangeiro no labirinto (356 páginas, R$ 50, Confraria do Vento) na próxima quarta-feira (18), às 19h, no Centro Cultural dos Correios, no Bairro do Recife. Após trabalho de sete anos, de Melo entrega ao leitor uma obra madura, intrigante, cujo título remete não apenas ao labirinto narrativo polifônico, mas à experimentação, cuja linguagem passa a ser um pouco também estrutura do livro. E isso constrói para o romance uma atmosfera onde o leitor vai naturalmente se deixando vencer por ela.

Um juiz acusado de homofobia ao julgar o assassinato de um famoso arquiteto, mas que esconde um segredo ainda mais sombrio; um matador de aluguel que volta à casa dos pais mortos para acertar as contas com seu passado; uma prostituta viciada em crack que se vê presa em um labirinto de palavras enquanto vozes anônimas tentam explicar a natureza de um livro que supostamente aprisiona seus leitores. Personagens que julgam o destino aleatório, sem entender certa ordem no caos.Física quântica, psicanálise e ocultismo, o livro visita polêmicas e incômodos como a pedofilia, a violência, uso e abuso da grana pública de ongs para interesses privados, sob o discurso conservador que algumas elites tentam ocultar.  Bom, nesse ponto o leitor poderá notar que tudo é mais real que mítico, quando puxar o cordão e começar a ler/andar.

A narrativa é firme e se vê a mão do poeta que é Wellington de Melo, cuidando da linguagem, em pontos precisos.

Estrangeiro no labirinto não é livro de quem escreve preocupado com classificações. Nem de quem lê envolvido pelos rótulos dos gêneros. Em cinco capítulos, o romance se remete à árvore da vida da cabala, e é para ser lido ao azar, ou à sorte das cartas do tarô. A narrativa é construída por diferentes narradores ou “cronistas”, mas mais ainda pelo próprio leitor. Cenas que parecem iguais. Universos paralelos. Uma engrenagem quântica de possibilidades, livro que jura aprisionar seus leitores. E consegue. O livro

Em entrevista  ao Angústia Criadora, Wellington de Melo comentou mais sobre o livro, primeiro de uma trilogia, e fez uma breve análise do aspecto experimental da obra.

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“Arte só faz sentido se estiver imbuída nesse espiríto de descoberta, de recriação da linguagem”

Como foi o processo de escrita de Estrangeiro no labirinto?

WM – Comecei a escrever o livro em 2006 e desde então o projeto passou por diversas reformulações. Havia algumas linhas que estavam claras, como quais seriam os personagens principais e as relações entre eles ou o final que havia pensado para cada um, que não mudou. Houve pausas na escrita, dedicadas exclusivamente à pesquisa, pois há vários conceitos que precisavam ser aprofundados para serem distorcidos na ficção. Mas a estrutura mesma do livro e a linguagem de cada narrador foram sendo modificadas em cada uma das quatro versões do projeto. Isso fez com que o processo fosse, ele mesmo, labiríntico, pois re-escrevia sem parar as cenas, reformulava focos narrativos etc. Cerca de um terço do projeto ficou de fora da versão final. Como a estrutura do livro se vale de combinações binárias das cartas do tarô, tive que ter muita atenção para que cada combinação correspondesse exatamente à cena relacionada. Muitas vezes modifiquei uma cena por conta da combinação ou o contrário. Terminei o primeiro rascunho em julho de 2012, mas ainda continuei a fazer algumas modificações a partir das opiniões de alguns leitores beta.

capa-estrangeiro-no-labirintoComo foi escrever o primeiro romance?

WM – Pedreira! Porque envolve muita disciplina e atenção aos detalhes, sem descuidar do todo. A sensação de finalizar um romance é diferente de um livro de poemas, em que você não sente aquele estalo de “acabei”. Mesmo tendo terminado em julho de 2012 a primeira versão, de qualquer forma continuei mexendo, mas o grosso da história havia sido finalizado. E fica sempre aquela insegurança, que acho que todo escritor deve ter, se todo aquele trabalho valeu a pena. Mas aí, outra vez, é com os leitores.

Estrangeiro no labirinto é um romance experimental?

WM – Acho que a arte só faz sentido se estiver imbuída nesse espiríto de descoberta, de recriação da linguagem. Nesse sentido, o livro é um mergulho meu nessas possibilidades de brincar com o gênero romance, levá-lo ao limite que eu consegui. Dizer que é “experimental” me pareceria forçado ou redundante (como preferirem). A estrutura é muito importante, mas me preocupei bastante com a linguagem, com a voz de cada um dos narradores (são vários), com a leitura linear e com a leitura quântica do livro, já que no final das contas a linearidade do romance é um engodo. Mas Cortázar já fez isso, não é nada de novo. Então a estrutura, embora ocupe um papel importante, não é o essencial. Talvez a procura por essa linguagem recriada seja a viagem desse livro.

O livro faz parte de uma trilogia?

WM – Sim. É o primeiro volume do que venho chamando “Trilogia do Pai”. Mas as histórias não são complementares, o que as une é a presença, em alguma medida, da imagem do pai em cada uma delas. O terceiro livro dessa trilogia, por exemplo, é um livro de poemas, “O caçador de mariposas”. O segundo, que ainda estou escrevendo, se chama “À sombra do pai”.

Por que as numerações das cartas do tarô no livro estão trocadas?

WM – Faz parte da narrativa (ou da meta-narrativa) do livro. A mudança é “explicada” por alguns dos personagens, que teorizam sobre a natureza do livro prisão. Alguns atribuem a mudança a um engodo dos ocultistas, que queriam deixar o verdadeiro significado das cartas longe dos olhos dos que se julgavam iniciados. Outros dizem que essas mudanças não têm qualquer importância. Fica com o leitor acreditar no que quiser. É um livro de ficção, não um tratado sobre tarô, na verdade.

Com informações da assessoria.

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