Ele, o branco

Por Álvaro Filho*

Não adianta mudar de assunto, disfarçar simulando um infarto ou, pior, vir com aquela manjada desculpa do “nunca aconteceu comigo”. Todo escritor – e aí se inclui também quem de alguma forma ganha a vida tirando texto de tecla – já entrou em pânico ao ficar frente a frente com a disfunção erétil da criatividade, a brochada das palavras, ou no popular mesmo, o branco.

A ciência já descobriu quase de tudo – uma boa fração de coisas que não vão alterar a sua vida, nem a minha – mas mesmo que fosse o contrário, até agora não se viu um cientista sequer deixar de buscar vida inteligente fora da Terra para procurá-la dentro da cabeça de quem normalmente (e literalmente) tira de letra sentar em frente ao computador para escrever. Sempre na boa, sem dramas e constrangimentos.

Para piorar, não só a ciência negligencia o branco, como também outras atividades acostumadas a ter uma explicação para tudo também o fazem. Ou você já viu um padre dedicar um sermão ao assunto? Nunca, nem numa missa assim, digamos, desprestigiada, na segunda pela manhã, no meio de um feriadão. O pastor, idem, embora quem passou por isso tenha a certeza absoluta que é coisa do Diabo.

Os psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e demais terapeutas também ignoram o apagão criativo. Freud encheu uma biblioteca inteira com seu repertório de teses que incluem sonhos eróticos, pedófilos, bebês safadinhos e filho matando o pai para dormir com a mãe, mas não há uma linhazinha que elucide o famigerado branco.

É por isso que o cursor piscando inerte na tela branca é apavorante. Não há remédio prescrito em toda farmacologia, nem nada que possa ser feito, incluindo aí soluções seculares da humanidade, como beber, fumar, dar uma volta no quarteirão, fazer meditação ou apelar para São Longuinho. A criatividade perdida, assim como sua sogra, não aparece na hora que você deseja, mas quando ela quer.

Se o nirvana do fim do branco for alcançado antes do deadline de entrega do texto ao editor, tudo bem, você é experiente, conhece o ofício, sabe que poderia ter feito melhor, mas está pronto. Tchau e bênção. Senão, a única saída é a que aprendi com os verdadeiros mestres e, não se iluda, até eles já se acovardaram diante do limbo intelectual. Nestas horas, com o tic-tac do prazo batendo à porta, humildemente se renda à força do inimigo e, sabiamente, escreva justamente sobre ele, o branco. Comigo funcionou mais uma vez.

*Álvaro Filho é escritor e jornalista

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