Em Ithaca Road, Paulo Scott apresenta o mundo cada vez mais urgente da geração atual

Por Ney Anderson

Paulo Scott é um desses incansáveis escritores que se esforçam para sempre apresentar algo novo aos leitores. O livro mais recente, Ithaca Road (Cia das Letras, 112 páginas, R$ 32), nasceu por causa do projeto Amores Expressos, da Companhia das Letras, que mandou autores para várias partes do mundo. A exigência era de que as histórias escritas fossem de amor e que o ambiente deveria ser o país no qual o escritor foi enviado. Scott foi para Sidney, na Austrália e nos trouxe uma bela história. Em Ithaca Road a personagem central do livro é Narelle, uma neozelandesa, que volta a Sidney para ajudar o irmão na administração do restaurante Paddington Sour.

Na verdade Narelle ocupa o lugar dele que está com sérios problemas financeiros e judiciais, com o negócio praticamente falido. Essa é a história principal da novela. Mas outros pequenos enxertos foram criados para dar um passado para a personagem. Mesmo assim, nada é muito revelador no livro. Existe o namorado Jörg, jornalista, que está no Brasil cobrindo uma história de crimes por conta da extração de minério de ferro e Anna, uma jovem com autismo, que entra na trama de forma incomum.

A relação entre Narelle e Anna é exatamente a história de amor do livro. Mas de uma forma rápida e direta, como o próprio enredo propõe. A rapidez com que as coisas acontecem entre as duas talvez seja a ideia central da novela. De alguma forma elas pertencem ao mesmo grupo, por isso se deem tão bem. Anna gosta de pintar e fica presa nesse mundo paralelo, do mesmo jeito que Narelle nas diversas formas digitais de comunicação. Essa geração conectada vinte e quatro horas por dia, ligada o tempo inteiro no Facebook, Instagram e tantas outras mídias digitais, como a personagem principal dessa novela, está mudando o conceito de relação. De certa forma é essa geração que Narelle representa. Ela faz de tudo um pouco, mas não se integra totalmente com nada. É até irônico o contraponto que Scott faz . O aplicativo, ou tecnologia cobiçada de hoje, na maioria das vezes se tornam obsoletos em pouquíssimo tempo. E as relações pessoais mostradas no livro têm essa característica.

Estão presentes também dois amigos da protagonista: Justin, um corretor imobiliário, um tanto ganancioso e Trixie, produtora executiva de uma galeria de artes e a melhor amiga de Narelle. E ainda existem os burocratas e advogados, esses últimos sedentos para acabar com a propriedade do irmão de Narelle. Ela ainda precisa lidar com a pressão dos funcionários e fornecedores do restaurante, para não parar com o funcionamento do local. Paulo Scott costuma dizer que o livro é sobre uma Penélope louca do nosso tempo. O título do livro faz esse paralelo. A história também se assemelha bastante com a Penélope da Odisséia, de Homero. Enquanto essa aguarda ansiosamente o retorno de Ulisses que foi para a guerra de Tróia, Narelle está à espera do irmão que nunca aparece. De alguma forma as duas mulheres estão presas em suas ilhas, seja em Ítaca ou Sidney.

A impressão que Scott passa é que não fez um esboço para a história, descobrindo a trama em cada nova página, como o leitor e Narelle, na medida que vai escrevendo. Talvez até para ele o desenrolar dos fatos tenha sido uma surpresa, como se a escrita tenha sido criada sem pensamentos pré-concebidos. Ithaca Road pode até ser definido como um livro que mostra as urgências e decadências dessa geração digital, que não aprendeu a força de uma relação cara a cara. Nesse caso, a metáfora da “ilha” de Ulisses, com essas pequenas ilhas de cada um, como Ítaca, Sidney ou os pequenos mundos das relações digitais, é o mais interessante nessa prosa atualíssima de Paulo Scott.

 

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