Os ossos como alegoria da vida

Foto: Renato Parada

Por Ney Anderson

Romance é um tipo de livro onde o autor pode se alongar para montar histórias mais profundas, com personagens desenhados na medida exata para conquistar e prender o leitor.  Mas não só isso. A linha que separa romance, conto e novela é muito tênue, de classificação difícil se analisada sob o ponto de vista da trama em si. Por isso que o livro Nossos Ossos, do escritor Marcelino Freire, é definido pelo próprio autor como “prosa longa”, e de fato é isso mesmo. Nossos Ossos têm a mesma oralidade dos contos de Marcelino, mas de uma maneira mais sutil.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo dramaturgo pernambucano Heleno de Gusmão. Espantado com o fim trágico do seu amante, um michê, que é assassinado, ele resolve procurar informações sobre a família do rapaz com a intenção de levar o corpo até a cidade natal dele, Poço do Boi, no interior de Pernambuco. Essa jornada o leva a analisar a própria história, que começou no Recife, até a chegada em São Paulo, para onde decidiu ir com o objetivo de reencontrar o amante, mas também para tentar ganhar a vida como dramaturgo.  De alguma forma, a história do livro parece muito com a do próprio Marcelino, que também saiu do Recife para a megalópole paulista em 1990, para tentar a vida como escritor. Nossos Ossos é uma obra densa, carregada de tensão e sexualidade. O título é perfeito, cada capítulo é “dissecado” e recebe o nome de uma parte do corpo, revelando pouco a pouco os ossos como alegoria da vida, nesse caso, de aventura, ainda que fúnebre.

No livro o ritmo é marcado pelas vírgulas, como numa grande conversa sem pausa, por conta da urgência dos acontecimentos. Marcelino já afirmou em várias entrevistas que nunca iria escrever romances por não ter “fôlego” suficiente para isso. No entanto, muitos escritores começam com o conto para só depois arriscar em algo maior. O que se percebe em Nossos Ossos não é uma fuga para outro gênero e sim a necessidade de levar essa história para um lugar mais amplo, com outras possibilidades e recursos. Nesta prosa as palavras foram construídas com uma precisão perfeita e direta. O ritmo é sempre interessante nos livros de Freire, as rimas sempre fizeram parte da obra dele, não poderia ser diferente agora. Mas a forma rítmica nesse novo trabalho é mais suave, mostrando de forma mais desenvolvida a biografia do dramaturgo Heleno de Gusmão. Desfilam ainda pela trama atores, policiais, travestis e taxistas.

Para o leitor, fã de Marcelino Freire, esse pode ser visto como uma continuação da obra dele. Já para quem nunca leu nada do autor, essa sem dúvida é uma ótima porta de entrada de um criador preocupado com que escreve, sempre oferecendo as melhores, e mais cruéis, narrativas sobre o mundo contemporâneo.   Nossos Ossos tem capa de Lourenço Mutarelli e prefácio de Paulo Lins. É um livro que faz rir e chorar, que nos mostra acima de tudo que a ficção está em todas as esquinas e becos, esperando o olhar certeiro de artistas como Marcelino Freire.

 

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