Luís Capucho: entre o rótulo de maldito e a arte sem amarras

Por Ney Anderson

O escritor, cantor e compositor Luís Capucho é pouco conhecido entre os leitores e admiradores da MPB, talvez pelo caminho incomum que decidiu seguir tanto na literatura quanto nas músicas que compõe. Taxado de “artista maldito” por conta do viés pouco ortodoxo do trabalho que produz, Capucho parece não se incomodar com nenhum tipo de rótulo, muito pelo contrário. Com músicas gravadas por artistas como Cássia Eller, Pedro Luís, Daúde e Clara Sandroni, o capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, caminha na direção contrária na produção literária e musical do Brasil. Esse detalhe é tão verdadeiro que até o cantor Ney Matogrosso, conhecido pela sensualidade e liberdade artística em mais de quarenta anos de carreira, desistiu, por enquanto, de gravar uma música de Capucho por conter a palavra “masturbação” na letra. O receio, segundo Ney, é por não saber se o público iria aceitar normalmente uma música com essa expressão.

Arte

A crítica  costuma chamar os livros do autor de “Trilogia Suja”, por conta do erotismo elevado

Com a carreira de músico interrompida pelas sequelas de um coma, em 1996, Luís Capucho ingressa na literatura lançando, em 1999, seu primeiro e elogiado romance Cinema Orly. Ousando tocar em tabus, o livro trata com delicadeza e amor a rotina, especialmente sexual e gay, de um cinema pornô do centro do Rio de Janeiro. Carregada de referências autobiográficas e explorando aspectos da cultura e sexualidade homossexuais, a obra literária de Capucho é composta ainda por Rato (2007) e Mamãe me Adora (2012). O segundo conta a história de Dona Creuza e o filho, um garoto apelidado de Rato, mesmo título do romance, que não esconde o desejo pelos homens que circulam na pensão onde moram. A descrição do ambiente e os personagens bizarros compõem a atmosfera do livro. Mamãe me Adora é totalmente diferente dos dois primeiros. Aqui a opção de Capucho foi por um relato de viagem a Aparecida do Norte.  Juntos, os três romances constituem um belo antídoto contra a culpa e um poderoso texto que vai muito além do engessamento heteronormativo que hoje insiste em se impor, mesmo sobre movimentos de direitos LGBTs.

 Recuperando-se das sequelas do coma, em 2003 Capucho já consegue adaptar sua voz cavernosa e seu modo de tocar violão a uma nova maneira de fazer música. Assim, nesse mesmo ano, lança seu primeiro CD: Lua Singela. Com canções inéditas e versões de músicas já conhecidas na voz de outros intérpretes, o disco é composto principalmente de parcerias com velhos companheiros de geração e tem produção de Paulo Baiano. Também produzido por Paulo Baiano, Cinema Íris, de 2012, traz principalmente melodias e letras compostas por Capucho, aprofundando os recursos de sua nova musicalidade e também na carga emocional de sua obra.  Atualmente prepara o novo show, Poema Maldito, com estreia agendada para o dia 8 de setembro, em Minas Gerais.

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