Raphael Montes se consagra como novo representante da literatura policial no Brasil

Por Ney Anderson

(Foto: Bel Pedrosa)
(Foto: Bel Pedrosa)

Quando se fala em literatura policial no Brasil talvez o primeiro escritor que venha na mente é o de Rubem Fonseca. Mas também Luiz Alfredo Garcia-Roza, Patrícia Melo, Tony Bellotto, Jô Soares, Mário Prata e alguns outros. Todos eles inspirados de alguma forma por Edgar Allan Poe, Conan Doyle, Agatha Christie, Georges Simenon, Dashiell hammett, Raymond Chandler e James Ellroy. Muitos jovens autores do país têm optado por criar histórias de mistério e suspense, conseguindo vender milhares de livros, como é o caso de André Vianco e Raphael Dracon, nomes já consolidados no mercado.

O mais novo membro desse clã é o carioca Raphael Montes, de apenas 23 anos, que lançou recentemente o romance policial Dias Perfeitos (Cia das Letras). Mesmo sendo uma literatura subjugada entre a crítica especializada e até entre os próprios romancistas, que produzem trabalhos ilegíveis de tão “sérios”, Raphael tem conquistado a admiração dos amigos escritores, leitores, editores e cineastas. Tudo isso por conta de uma trama bastante forte, onde o enredo parece simples e até um pouco clichê: um jovem tem uma paixão súbita por uma garota, mas que não é correspondida. Mas o jovem em questão é Téo, estudante de medicina, que se apaixona por Clarice depois de conhecê-la numa festa. Ela é uma menina livre das amarras sociais do seu tempo, que sonha em terminar um roteiro sobre três amigas que buscam novas experiências viajando por várias cidades. Clarice não corresponde ao amor de Téo, que resolve sequestrá-la e fazer o mesmo percurso do roteiro que ela está escrevendo, que também se chama Dias Perfeitos. Ele acha que ficando próximo dela conquistará seu amor verdadeiro.

Cia das Letras, 280 pgs, R$ 26,90
Cia das Letras, 280 pgs, R$ 26,90

Téo é um psicopata que agride Clarice física e moralmente, fazendo barbaridades com ela, sempre que se acha subestimado. A crueldade presente na obra foi pensada com maestria por Raphael, que soube utilizar muito bem o lado sombrio do protagonista.  A trama é um road movie que se passa por várias partes do Rio de Janeiro. O cenário, inclusive, dá uma força muito grande na obra, pois não foi feito de forma forçada. Muito pelo contrário. As paisagens cariocas têm uma função muito importante, dão um tom de devaneio, combinando com a situação de Clarice, que está quase sempre dopada. O livro mostra o lado psicológico de uma mente perturbada, e é narrado sob o ponto de vista de Téo, que é de uma frieza atroz. Mesmo cometendo atos tão bárbaros ele não se comove, com a certeza de que está fazendo a coisa certa. Raphael Montes acertou em fugir do clichê do assassino/investigador, e mostra que não está fazendo sucesso por acaso. Seu livro se sustenta com uma qualidade impecável, principalmente por conta do convencimento conquistado no romance e ainda pelas reviravoltas que acontecem na história. A verdade é que todo leitor espera pegar um livro e ser fisgado pela trama e também pelos personagens, como é o caso de Dias Perfeitos.

Esse é o segundo livro do autor, o primeiro foi Suicidas (Editora Benvirá), finalista dos Prêmios Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do São Paulo de Literatura em 2013. Dias Perfeitos teve uma tiragem recorde de 10 mil exemplares e vai virar filme em breve. Também será publicado em oito países.

Nessa entrevista exclusiva ao Angústia Criadora, Raphael Montes comenta como foi construir o romance e avalia o cenário atual da literatura policial no Brasil. Ele ainda falou sobre as adaptações dos seus livros e revelou um pouco sobre o próximo romance que está escrevendo.

Texto

ANGÚSTIA CRIADORA – Escrever sob o ponto de vista de um psicopata foi o mais difícil na composição de Dias Perfeitos?

RAPHAEL MONTES –  Escrever sob a ótica de um psicopata foi especialmente interessante. Téo tem uma lógica impecável e justifica suas atitudes com muita racionalidade e calma. A maior dificuldade foi encontrar o tom, entrar efetivamente na lógica dele e costurá-la ao longo do texto. Quando consegui (meses depois), tudo fluiu naturalmente e, para meu espanto, eu já conseguia pensar como ele, seguir suas ações perturbadoras sob um manto de justificativas plausíveis. Uma vez dentro de sua mente, tudo fez muito sentido: era razoável sequestrar a mulher amada para forçá-la a amá-lo.

AC – É o curioso como Téo sente que estava fazendo a coisa certa, mesmo com toda a barbárie praticada contra Clarice. Onde você foi buscar embasamento para o personagem?

RM – Tive a consultoria de um psiquiatra e de outros três médicos que me ajudaram a definir a voz do personagem. Fiz também leituras sobre psicopatia. No fim das contas, consegui deixar a voz bem natural, não travava na hora de escrever. Talvez eu mesmo tenha me treinado para ficar mais frio e calculista ao entrar no texto.

AC – O livro tem algumas referências da literatura, do cinema e da música. Foi importante criar essa base para o desenvolvimento da trama?

RM – A base é essencial, sem dúvida, mas eu não precisei criá-la. Além de escritor, sou um jovem carioca como qualquer outro. Consumo música, cinema, literatura, artes plásticas. Meu trabalho acaba trazendo um pouco desse caldo cultural em que vivo.

 AC – “Há sempre uma loucura no amor. Mas também há sempre alguma razão na loucura”. É isso mesmo?

RM – Escolher a epígrafe do livro foi uma das coisas mais difíceis. Eu adoro epígrafes, mas elas não podem ser bobas, não podem entregar muito, nem fazer referência direta ao livro. Originalmente, a epígrafe era uma letra do Caetano. Depois, passou a ser uma frase da Patricia Highsmith, uma autora que eu admiro muito. Mas, quando li esta frase do Nietzsche, não pude deixar de reconhecer que era a epígrafe ideal para Dias perfeitos. Faz todo sentido, não?

AC- Você é um jovem de 23 anos que já entrou com força total na cena literária do país. Isso te deixa com receio por conta das cobranças por novos projetos?

RM – Por enquanto, não. Sei que cheguei até aqui através de muito trabalho e paciência. Pretendo seguir nesse caminho. Evito me deslumbrar com os acontecimentos, como a adaptação para o cinema e a tradução para outros países. Tudo isso é consequência do trabalho e da paciência. É natural que os leitores cobrem o próximo trabalho. E que comparem um livro com o outro. Busco me isolar disso tudo. Meu compromisso é comigo mesmo: contar histórias que eu gostaria de ler. Com o devido cuidado, sem pressa, ainda tenho muitas para contar.

AC – A literatura policial no Brasil é tratada como subgênero pela crítica e pela academia. Porque isso ainda acontece por aqui, sendo que em outros países a recepção pela literatura policial não tem essa distinção?

RM – Os prêmios e a crítica costumavam ignorar a literatura policial sob o argumento de que não se trata de “alta literatura”. Por isso, muitos autores evita(va)m a alcunha de escritor policial. Felizmente, isso está mudando. O Garcia-Roza e o Tony Belloto, por exemplo, são assumidamente autores policiais. Nos anos 90, o Garcia-Roza venceu os prêmios Nestlé e Jabuti com “O silêncio da chuva”. Eu busco seguir no mesmo passo. “Suicidas”, meu romance de estreia, foi finalista de dois prêmios importantes – o São Paulo de Literatura e o Machado de Assis da Biblioteca Nacional. É possível fazer uma literatura policial que entretenha e, ao mesmo tempo, mereça atenção dos acadêmicos. Vale dizer, uma literatura policial com uma história atraente, uma trama bem arquitetada, sem prejuízo da linguagem ou da densidade do texto.

AC – De qualquer forma, existem autores bastante celebrados nessa área, como Luiz Alfredo Garcia Roza, Patrícia Melo, Rubem Fonseca, entre outros. O mistério e o crime têm muito a ensinar a literatura, dita, séria?

RM – Acredito que não deve haver distinção entre a literatura de crime e a literatura séria. Para mim, não são coisas distintas e também não são necessariamente coisas comuns. É possível haver literatura séria que não seja de crime. É possível haver literatura de crime que não seja séria, que seja apenas entretenimento barato.

AC – Dias Perfeitos e Suicidas, seu primeiro livro, vão virar filme em breve. Você é do tipo que gosta de ver as obras retratadas com fidelidade no cinema?

RM – Sou do tipo que gosta de bons livros e de bons filmes. Escrevi dois romances e estou satisfeito com eles enquanto livros. São resultado de anos de trabalho. No cinema, não espero ver boas adaptações dos meus livros, mas sim bons filmes. Os filmes têm que se sustentar por si só. Para isso, acredito, será preciso modificar algumas coisas: nem tudo o que funciona nas páginas dá certo na telona. De todo modo, a pedido do produtor e dos leitores, estou envolvido nas adaptações dos meus livros pro cinema.

AC – Como imagina seus romances na tela grande?

RM – Naturalmente, tenho ideias para elenco, cenas que devem sair, personagens que merecem ganhar maior destaque, etc. Mas, enquanto o livro é um produto exclusivamente meu, o filme é um produto do roteirista, do produtor e especialmente do diretor. Não basta que eu imagine para que fique do jeito que eu penso e, cá entre nós, acho que bom que seja assim. Sem dúvida, os demais envolvidos têm muito a acrescentar à história. No fim das contas, todos queremos um bom filme.

AC – Inclusive, foi feito um booktrailer de Dias Perfeitos (no lado da página), onde você aparece como personagem de si mesmo. Essa é uma forma, relativamente, recente de apresentar os livros no Brasil. Como analisa a interação da literatura com a tecnologia?

RM – Não entendo nada de tecnologia, é uma vergonha. Mas sou um sujeito cheio de ideias. Propus o booktrailer para a Companhia das Letras e eles providenciaram uma produtora ótima que fez o vídeo. Fiquei extremamente satisfeito com o resultado. O booktrailer aguça a curiosidade do leitor, mas sem revelar muito.

AC – Você também mantém um contato bastante próximo com os leitores através do Facebook.  Disse também que o escritor precisa sair da redoma de vidro para dialogar melhor com o público dele. De alguma forma isso não pode atrapalhar seu trabalho, no sentido da “interferência” , ou dos desejos dos leitores, por obras que eles gostariam de ler?

RM – Como eu disse, há uma pressão dos leitores para que eu escreva depressa meus próximos trabalhos. Alguns palpitam que eu deveria fazer livros menos violentos. Outros vêm me pedir livros mais violentos. Mas nenhuma dessas interferências me atrapalha, pois eu escrevo o que quero escrever, do jeito que quero escrever. Acredito que se o livro me agrada, vai agradar outras pessoas também. De início, o único leitor que eu tenho que agradar sou eu mesmo.

AC – Geralmente um livro policial trabalha com assassinato e a investigação para encontrar o assassino.  Você mudou completamente essa ordem. Em Dias Perfeitos existe uma investigação, que é pela procura de um dos personagens que sumiu. Mas serve apenas de pano de fundo. O sucesso que o livro está alcançando reside aí, por ter fugido do óbvio?

Suicidas foi o primeiro livro lançado pelo autor
Suicidas foi o primeiro livro lançado pelo autor

RM – Busco sempre fugir do óbvio. E evito me repetir: Suicidas e Dias Perfeitos têm premissas e estilos bastante distintos. Mas não sei explicar o sucesso que meus livros vêm alcançando. Fico feliz que cheguem a mais e mais leitores, claro. Daqui, sigo escrevendo. Meu interesse maior é na psicologia dos personagens. O crime em si importa menos do que suas causas e consequências. Aí, sim, reside o objeto de interesse dos meus textos.

AC – O que mais chamou atenção na trama foi o mistério que ronda todas as páginas. É impossível tentar adivinhar o que vai acontecer. São muitas reviravoltas. Conte como foi desenvolver, página por página, o nível de tensão nessa obra?

RM – Em tempos que a atenção das pessoas é dividida entre a Tv, o Ipad, o rádio, as redes sociais, etc, sinto a necessidade de criar tramas com ganchos fortes, que prendem o leitor do início ao fim, de modo que ele não consiga largar o livro. Escaleto toda a trama, marco os pontos de virada, tomo todo um cuidado com o ritmo da história. Fico feliz que você tenha reparado e gostado do nível de tensão da obra. Dá um baita trabalho criar isso tudo.

AC – Você citou no Programa do Jô que seu novo livro vai se chamar “Jantar no Matadouro”. Pode adiantar como será esse trabalho?

RM – O título é provisório. Já mudei para “O Jantar” e outras variantes. Será um romance mais curto, acredito. Tem um humor negro aguçado e será narrado da visão de 4 personagens diferentes. Está sendo um desafio escrever, mas estou satisfeito com o resultado. Mais uma vez, acredito ser bem diferente dos meus trabalhos anteriores. Infelizmente, não posso adiantar nada sobre a trama.

AC – Você é advogado, ainda pensa em voltar para a profissão, ou a literatura já ocupou todo o espaço disponível?

RM – A literatura e o cinema ocuparam todo o espaço disponível. Tenho vários projetos em andamento: filme, peça de teatro, livro em parceira, quadrinhos, além do meu próximo romance. Deixei o Direito de lado, por enquanto.

AC – Você utiliza no livro o cenário do Rio de Janeiro de forma muito bem trabalhada, sem ser piegas e forçado. Esses elementos visuais vão ajudar também na hora de filmar a história, por conta da quantidade de elementos para serem trabalhados?

RM – Obrigado pelo elogio. Não fico me esforçando para jogar brasilidades no texto. Quando escrevo, acredito que, por ser uma história passada no Brasil, os elementos de nossa identidade acabarão entrando naturalmente, sem que eu perceba; o que é ótimo. Talvez, por isso, não soe piegas ou forçado. É possível que esses elementos ajudem, sim, o diretor a situar bem a história do filme.

AC – Você montou o livro com vários personagens secundários, mas eles não atrapalham a trama central, estão ali para reforçar. Esses personagens já tinham sido pensados no primeiro momento?

RM – Como disse, eu escaleto toda a trama, crio perfis dos personagens e só escrevo a primeira linha quando sinto que conheço a voz e a personalidade de todos os personagens, inclusive os secundários. Conforme o texto avança, é natural que algumas modificações aconteçam. Por exemplo, na ideia original, o pai do Breno aparecia na história e era um delegado de polícia violento, miliciano. Ao escrever, vi que não funcionava e excluí o personagem. Já o Gustavo, pai de Clarice, foi um personagem que nasceu da necessidade do texto, não estava previsto.

AC – Uma tiragem média de um livro no Brasil é de 3 mil exemplares, mesmo os romances de gênero. Dias Perfeitos teve uma primeira tiragem de 10 mil. O que a editora viu para optar por essa quantidade?

RM – Não posso afirmar com toda certeza, mas acredito que a editora tenha visto que o leitor brasileiro está cada dia mais interessado nos livros nacionais. A possibilidade de encontrar seu autor favorito numa noite de autógrafos, de bater papo com ele, de ler livros que se passam em lugares do universo brasileiro têm seduzido os leitores e mostrado as delícias de ler um romance nacional. Além disso, a qualidade dos livros brasileiros de gênero têm aumentado, sem dever nada aos livros estrangeiros.

AC – Existem muitas pessoas como  Téo na sociedade? Como é possível identificá-los, já que você estudou sobre isso para escrever o romance?

RM – Existem muitas pessoas como Téo na sociedade. O interessante – e amedrontador – está na dificuldade de identificar esses sujeitos. Pode ser seu vizinho, seu médico, seu psicanalista, seu padeiro, seu taxista. Pode ser seu escritor favorito.

AC – Dias Perfeitos vai ser traduzido para vários países. Você acompanha esse mercado internacional? Como acha que será a recepção do romance em lugares tão distintos?

RM – Nos Estados Unidos e na Europa, a literatura policial é muito popular. Há eventos voltados para o gênero (Semana Negra, p. ex.), associações de autores, workshops e prêmios exclusivos (Edgar Allan Poe Awards, Ellery Queen Awards etc). Acredito que o livro será bem recebido nesses países, pois é uma literatura apreciada e respeitada pelos leitores, pela imprensa e pelos acadêmicos. Além disso, é um gênero que costuma vender bem. Espero que tudo dê certo.

AC – Acredita que sua literatura tem força suficiente para ser lida daqui a 20 ou 30 anos sem perder a validade?

RM – Veremos. Para mim, não faz sentido escrever pensando na validade ou na força do livro. Escrevo o que me parece pertinente. De todo modo, daqui a 20 ou 30 anos, espero estar vivo, ativo, escrevendo algo como o vigésimo segundo romance. Nessa época, será ótimo que alguns leitores ainda estejam descobrindo Suicidas e Dias Perfeitos.

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