Romance de Knut Hamsun apresenta uma literatura que surge da miséria

Por Ney Anderson

A literatura não muda o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. A literatura muda as pessoas. Essa frase bastante conhecida, que já se tornou um clichê de tão falada, pode parecer apenas uma expressão de efeito como tantas outras. De fato é, se for citada sem um reflexão maior. Não resta dúvida de que a literatura muda as pessoas, não só para quem ler, mas também para quem escreve. A arte em si é transformadora. No entanto, a busca por uma forma única de expressão é longa, por vezes bastante dolorosa, principalmente para aqueles que querem, de fato, criar uma obra. No campo da literatura parece que tudo é um pouco mais difícil, desde a concepção de um trabalho de ficção, até a publicação do livro propriamente dito. Isso sem falar da busca do escritor por leitores.

Essas dificuldades se tornam mínimas no romance Fome, do norueguês e Prêmio Nobel, Knut Hamsun, onde o maior problema do narrador/personagem é justamente com a própria sobrevivência. A trama é sobre um escritor que vive através da venda de artigos que ele produz para alguns jornais. E aqui o verbo “viver” não é apenas ilustrativo. Com um pequeno lápis gasto ele escreve artigos e crônicas para não morrer de fome, vaga pelas ruas de Cristiania (hoje Oslo, capital da Noruega) do século XIX, com roupas em farrapos e reflete sobre o sentido da vida. Página após página vamos acompanhando a vida miserável do protagonista, que passa os dias perambulando pela cidade à procura de novas ideias para os textos, que irão garantir uma tranquilidade momentânea.

A prosa de Hamsun é de uma elegância sem igual, nos fazendo acompanhar segundo a segundo a luta do escritor, que vai tentando sobreviver de todas as formas, inclusive vendendo partes da própria roupa para comprar comida. O livro é muito bem escrito e sob um pano de fundo real, já que o autor também passou fome antes de se destacar com a literatura.

Knut não força a barra por um sentimentalismo artificial, a empatia que ele consegue extrair do leitor acontece por causa da força dramática da história. A angústia do protagonista transcende o sentindo da ficção e nos mostra sem meia palavras como pode ser complicado viver exclusivamente da arte. O romance é perturbador, escrito com um realismo impressionante, que provoca tensão, tristeza, mas, sobretudo, esperança.

O narrador, que é uma espécie de anti-herói, vai até o fundo do poço e arrasta o leitor junto, numa trama bastante original. O livro foi relançado no Brasil em 2005 pela Geração Editoral, mas ainda é pouco conhecido no país. É o tipo do romance que todos deveriam ler, principalmente os aspirantes a escritor. O livro, inclusive, influenciou John Fante, que por sua vez influenciou Charles Bukowski.

Autor conhecido no Brasil nos anos 40, época em que foram lançados alguns títulos como Um vagabundo toda em surdina, Pan, Frutos da terra, Vitória, entre outros, hoje é um completo desconhecido do grande público. Knut Hamsun foi estivador, lenhador, marinheiro, sapateiro, condutor de bonde, jornalista e cuidador de frangos. Ele viveu boa parte dos seus 92 anos nos Estados Unidos e também na Europa, sofrendo vários tipos de humilhação, como o escritor atormentado do próprio romance, até alcançar a glória com o Nobel em 1920, quando tinha 60 anos de idade.

Knut também teve uma relação de amor e ódio com o nazismo, ora apoiando Hitler, mas também enfurecendo o ditador com suas declarações contra a postura das tropas alemães. A respeito disso, Hamsun foi preso e mandado para uma clínica psiquiátrica, depois para um asilo. Ele chegou a ser julgado e condenado por suas ideias contrárias ao nazismo. No entanto, com a morte de Hitler ele escreveu um artigo bastante positivo em relação ao ditador, o que fez com que as vendas dois livros diminuíssem. Alguns anos depois ele publicou um livro sobre suas posições políticas e foi um best-seller.

Como se pode observar é um livro essencial, para ser lido com bastante atenção, observando o movimento narrativo, tão primorosamente trabalhado no romance de Knut Hansum. Não é exagero dizer que esse texto é para ser lido e relido sempre, pois está, sem dúvida nenhuma, na estante dos grandes romances da literatura universal. É literatura viva, pulsando em todas as linhas.

A tradução de Carlos Drummond de Andrade traz ainda mais frescor ao livro, que não soa datado, muito pelo contrário, parece ter sido escrito hoje, tamanha é a originalidade e autenticidade do romance. O fato da sobrevivência do artista a partir daquilo que ele mais ama ser o tema central da obra, torna o livro atemporal, que poderá ser lido por muitas gerações de leitores. Se fosse para destacar qual a mensagem principal do livro, poderia ser resumida na seguinte observação, de que a literatura (e arte em geral) salva de verdade, em todos os aspectos.

 

 

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