Adriana Falcão revive em livro a história de amor e tragédia dos pais

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

A escritora Adriana Falcão veio a Pernambuco para lançar seu novo livro, Queria ver você feliz (Intrínseca), e também por ser homenageada da décima edição da Fliporto, em Olinda. Ela já publicou uma série de livros voltados para o público juvenil e também adulto, caso de A Máquina, de 2006, que virou filme nas mãos de João Falcão, seu ex-marido. O trabalho de Adriana é bastante pautado no humor, tanto que ela foi uma das roteiristas do sitcom A Grande Família, que teve o último capítulo exibido em setembro, e Louco por Elas, entre outros. Mas ao se debruçar sobre as cartas trocadas pelos pais em muitos anos da vida, ela percebeu que a história dos dois, mesmo que marcado por uma grande tragédia, foi de amor incondicional.  Nessa rápida entrevista que Adriana Falcão concedeu ao Angústia Criadora, ela falou sobre como foi escrever a partir de algo tão íntimo e doloroso para a toda família.

 

Minha mãe era a pessoa mais engraçada que eu já conheci na minha vida.

ANGÚSTIA CRIADORA – Escrever sobre algo tão íntimo te preocupou de alguma maneira?

ADRIANA FALCÃO – Me preocupou sim. Eu tinha medo que alguém entendesse isso como se eu estivesse expondo a história dos meus pais. Em momento nenhum eu tive a intenção de expor a história deles, mas de mostrar para as pessoas que a gente pode tirar muitos ensinamentos também da dor e da tristeza. Mas eu tive medo de ser mal interpretada.

AC – Você decidiu colocar as cartas dos seus pais ao invés de escrever uma história corrida. Essa forma de contar a história tinha sido decidida desde o começo?

ADRIANA FALCÃO – Foi decidida desde o começo. As próprias cartas elas contam muito da história. Tem o narrador, que é amor, que ajuda a contar a história, mas as cartas contam muito da história.

AC – Já estava na sua cabeça escrever esse livro ou aconteceu por acaso?

ADRIANA FALCÃO – Eu lia essas cartas desde criança e eu tive essa ideia durante uma noite com minhas irmãs e a gente leu as cartas e chegamos na conclusão que tudo aquilo daria um livro. Eu resolvi o livro nessa noite.

AC – A vida de Caio Franco e Maria Augusta, seus pais, foi marcada por uma grande tragédia, mas também existiu muito amor entre os dois. Qual era sua reação na medida que ia relendo as cartas que eles trocaram?

ADRIANA FALCÃO – Eu ficava sempre emocionada e eu descobria um lado do amor que eu não tinha visto antes. O tempo todo me surpreendia relendo as cartas.

AC – A história em si é muito emocionante, mas também muito engraçada, já que sua mãe tinha um humor implícito através das cartas que ela mandava para seu pai. Você sabia desse lado dela, ou só foi descobrir isso claramente quando estava lendo tudo e escrevendo o livro?

Caio e Maria Augusta, pais de Adriana
Caio e Maria Augusta, pais de Adriana

ADRIANA FALCÃO – Minha mãe era a pessoa mais engraçada que eu já conheci na minha vida. Ninguém era mais engraçada do que ela.

AC – O amor é o narrador do livro. Quando decidiu escolher esse narrador para contar a história dos seus pais?

ADRIANA FALCÃO – Eu achei uma boa ideia do amor como narrador, até para me distanciar da narrativa, eu não queria que fosse a filha contando a história, o sentimento ou o orgulho dessa filha. Eu queria que fosse alguém distante de mim e esse amor narrador deu muito certo para mim durante o processo de escrita. Eu já tinha essa ideia desde o início.

AC – O que suas irmãs acharam do livro?

ADRIANA FALCÃO – Minhas irmãs amam o livro e isso é o mais importante para mim. Então o meu trabalho foi bem feito. Elas só viram depois do livro concluído.

AC – Os restos mortais dos seus pais estão enterrados no Cemitério de Santo Amaro, no Recife. Sua ligação com essa cidade é eterna?

ADRIANA FALCÃO – Eterna. Eu tenho sempre a sensação que os meus pais estão no céu de Boa Viagem. Toda vez que passo por lá eu falo com eles, que eu acredito estarem lá. A gente morava em Boa Viagem e  existe esse de dizer que quando morremos vamos para o céu. Pronto, eu acho que meus pais estão lá, até por gostarem muito do mar.

Entre outros sucesso, a autora escreveu A máquina, adaptada para o cinema
Entre outros sucesso, a autora escreveu A máquina, adaptado para o cinema

AC- Tem muito do Recife nas histórias que você escreve?

ADRIANA FALCÃO – Muito. Eu morei no Recife dos 11 aos 32 anos, eu me formei no Recife. Então a cidade é muito importante para minha formação como pessoa.

AC – Logo depois da morte da sua mãe, treze anos depois do seu pai, você saiu do Recife e foi tentar a vida no Rio de Janeiro com seu marido na época (João Falcão, diretor de cinema), e com filhas ainda crianças. Como foi esse período da sua vida?

ADRIANA FALCÃO – Já estava tudo tão doído com a perda da minha mãe, eu já não tinha o meu pai e perder a minha mãe da forma que foi, que eu estava tão confusa. quando o João (Falcão) me fez essa proposta de mudança eu achei até bom, porque ia mexer um pouco com aquela coisa que estava difícil para mim.

AC – Muitos anos depois você e o João se separaram. Se levantar do baque foi muito difícil?

ADRIANA FALCÃO – Depois de tanto tempo de casamento, com um amor tão grande, acredito que muito de eu ter escrito o Queria ver você feliz, é porque eu precisa reinventar uma Adriana.  Eu fui buscar essa Adriana no passado e foi mais um dos motivos que me fez escrever esse livro. A separação não foi exatamente um baque, apenas a vida é assim mesmo, vai mudando e se transformando. Essa foi mais uma transformação na minha vida, um desvio que a vida colocou no meu caminho. Tudo foi muito difícil, mas a gente supera.

AC – Você escreve para a TV, cinema, teatro, e também literatura adulta e juvenil, e ainda publica crônicas nos jornais com regularidade. Qual o segredo para transitar tão bem em todas essas áreas?

ADRIANA FALCÃO – Trabalhar de manhã, tarde, noite e fim de semana. O segredo é esse. Se não fosse isso eu não conseguiria.

AC – Se pensarmos bem, todas essas áreas têm a palavra como matéria prima. Quando exatamente você começou a se interessar por ela?

ADRIANA FALCÃO – Eu comecei a me apaixonar pela palavra quando eu era criança e ouvi Chico Buarque pela primeira vez. Depois, aos 16 anos, descobri Fernando Pessoa. Aí eu tive certeza que o meu grande amor era a palavra. Costumo dizer que eu já nasci que esse “defeito”.

AC – Para não ficar obsoleta ou ultrapassada você deve ler bastante coisa ao mesmo tempo, assistir muitos filmes e séries de TV. Qual a sua rotina para ter sempre algo novo e original para apresentar?

ADRIANA FALCÃO – Eu tento dentro do possível, pois tenho trabalhado muito e tenho minhas filhas que eu me dedico muito a elas. Mas eu tento ler tudo o que está aparecendo, assistir coisas novas etc. Muitas vezes também indo para uma praia e ficando um tempo absorvendo o que a natureza tem a dar para a gente. 

AC – Você foi roteirista da Grande Família por 12 anos, tempo em que durou o seriado. Tem como explicar o enorme sucesso da série?

ADRIANA FALCÃO – Deve ter sido a junção de tantos talentos. Você ver aquele elenco, Marco Nanini, Marieta Severo, Pedro Cardoso, Lúcio Mauro Filho, Evandro Mesquita, Andrea Beltrão, Guta Stresser, além dos roteiristas muito talentosos, o diretor a mesma coisa. Mas o segredo desse sucesso pode ter sido o amor que todos tinham pela séria, e como era feito tudo aquilo. Mas dava um trabalhão juntar todas aquelas peças, pois é muito coisa para unir, desde os protagonistas que tinham que ter as histórias, os ganchos de bloco, ou alguém que estava desprivilegiado em algum capítulo e tínhamos que levantar aquele personagem. Foi um grande quebra-cabeça, na verdade.

Adriana Falcão foi roteirista da Grande Família por doze anos
Adriana Falcão foi roteirista da Grande Família por doze anos

AC – Deve ter sido uma loucura colocar toda semana um capítulo novo da série no ar. Qual foi o seu papel na série? trabalhou?

ADRIANA FALCÃO – No começo eu era só colaboradora. No último ano eu fui redatora final também. Além de escrever, pois são vários colaboradores e roteiristas, eu era responsável pelo texto final. Minha responsabilidade e meu trabalho cresceram bastante,  mas valeu a pena.

AC – Que sabor tem ser homenageada na Fliporto?

ADRIANA FALCÃO – Tem um sabor especialíssimo. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo por estar ao lado de Raimundo Carrero e Ariano Suassuna (também homenageados do evento).

AC – Você já leu os livros do Raimundo Carrero?

ADRIANA FALCÃO – Muito. Eu sou uma grande fã do Carrero. Ele é um dos grandes escritores nacionais. Não tenho dúvida que todas as obras dele poderiam virar série na TV.

AC – Está trabalhando em algum novo projeto?

ADRIANA FALCÃO – Estou uma escrevendo uma peça, alguns roteiros e dois seriados para a Globo. Livro por enquanto não. Mas estou cheia de trabalho, numa correria sem fim.

AC – Qual a importância da literatura para a humanidade?

 ADRIANA FALCÃO – A literatura nos deixa o legado para o futuro, além de ser uma das coisas mais divertidas do mundo, porque é um filme que a gente lê e dirige na nossa cabeça e fazemos o filme que quisermos. Para mim é a melhor coisa de todas. A literatura, junto com a música, são as artes mais completas que existem.

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