Lourenço Mutarelli de corpo inteiro

Fotos do autor: Fliplorto/divulgação

Por Ney Anderson

Lourenço Mutarelli é um grande nome da literatura brasileira surgido na virada dos anos 2000. O autor de cinquenta anos começou a trajetória produzindo quadrinhos na década de 1980, onde até hoje é reverenciado pelo traço peculiar dos desenhos e das histórias sombrias, conquistando os principais prêmios da área. Com cinco romances publicado, três deles adaptados para o cinema e teatro, Lourenço está escrevendo outros dois romances com o mesmo estilo que lhe rendeu fama de cult. Suas histórias passeiam entre o escatológico e o sombrio, com personagens angustiados, transitando na linha tênue entre a solidão e a morte. Nessa grande entrevista exclusiva para o Angústia Criadora, durante a Fliporto, ele fala sobre os novos projetos, faz uma análise da carreira e da própria vida, principalmente da infância, período conturbado para o escritor, e de como a arte o libertou da depressão. Mutarelli ainda comenta as adaptações das suas obras para o cinema e conta como foi seu primeiro contato extraterrestre.

Entrevista: 

 

Escrever para mim é a forma que eu tenho de pensar mais profundamente sobre qualquer coisa.

ANGÚSTIA CRIADORA – Sua literatura sempre teve um aspecto mais estranho, sombrio. Algo que não é tão comum entre os escritores brasileiros. Como nasceu esse estilo?

LOURENÇO MUTARELLI – Eu sempre digo que bebo muito na minha infância quando escrevo, mesmo nos quadrinhos que fazia. Isso tem muito a ver com minhas impressões do mundo. Eu tinha uma impressão muito sombria do mundo. Distorcida. Então, acho que minha obra reflete muito isso, as minhas primeiras impressões do mundo, da sociedade, da igreja. Eu sempre via, principalmente quando eu era novo, um aspecto muito sombrio em tudo.

AC – Mas que infância era essa de que você fala tanto ?

LM – Eu era muito solitário e tinha alguma coisa artística em mim, acho que meu olhar, minha observação. Mas isso não era visto de uma forma boa, mesmo pelos meus pais, porque eu era um menino estranho, muito fechado, isolado, estudava em colégio de padre e existia uma repressão muito grande. Era também a época do regime  militar, onde existia repressão em tudo. São coisas que me pressionaram mesmo e que refletem muito no meu trabalho. Nos quadrinhos esse aspecto era mais forte ainda, pois tinha menos humor. Na literatura tem uma ironia em tudo isso. A literatura foi me suavizando. Não tem uma visão tão sombria, mas sempre que escrevo vem muito disso.

AC – O que as pessoas achavam nesse primeiro momento, quando você começou a produzir?

LM – Eu tive dificuldade em começar a publicar meus quadrinhos justamente por isso, porque achavam muito estranho, não tinha a ver com o que era produzido no Brasil e com a linha editorial. Então, como o forte era o humor, eu tentei investir nesse caminho, mas também não me encontrei muito. Quando fiz meu primeiro álbum, Transubstanciação, que eu assumi mesmo o meu estilo, justamente isso começou a me destacar, conseguir algum espaço, uma diferença, um estilo mesmo.

AC – Mesmo com esse aspecto sombrio, você trabalhou um tempo nas oficinas do Maurício de Souza. Como foi aliar a sua personalidade artística com aquele trabalho específico?

LM – Eu já tinha tido outros trabalhos, mas aquele foi o meu primeiro trabalho importante. Só tive subemprego, mesmo depois do Maurício, eu não tinha nenhuma habilidade, não sabia datilografar e outras competências para arrumar um emprego melhor. O Maurício foi uma oportunidade ideal de trabalhar com o que eu sabia, porque trabalhava na parte de cinema, desenhando e depois fui fazer cenários e pintura. Era um trabalho que pagava legal e algo que eu sabia fazer. O universo era totalmente diferente do meu, mas até nisso eu ganhei um espaço, porque teve um episódio que o Cascão foi parar no inferno. Aí eles pediram para eu desenvolver o inferno. Teve outro episódio na gruta do ogro que também fiz. Profissionais incríveis tinham lá, gente muito talentosa. Eu nunca havia lido turma da Mônica, mas era um trabalho. No estúdio do Maurício existia uma gibiteca, foi lá onde eu conheci um quadrinho mais contemporâneo. Me deu vontade de fazer quadrinhos.

AC – Mas o Maurício já conhecia o seu trabalho?

LM  – Na verdade não. Quando eu entrei lá levei um portfólio com vários desenhos, que tinham um pouco da atmosfera deles. Mas o que avaliaram foi a questão técnica. Fiquei lá uns três anos, sempre saia e voltava, porque eu me cansava em trabalhar um universo que não era o meu. Essa época eu estava na faculdade e desenha com um material muito ruim, no Maurício era o melhor material possível. Então foi muito bom para mim.

AC – E depois desse período no Maurício de Souza?

LM – Depois dele fui trabalhar numa farmácia. Eram sempre subempregos mesmo, até começar os quadrinhos, que eu consegui me manter também por causa da minha mulher, que me bancava, pois ela trabalhava e me permitiu que fizesse o meu trabalho.

AC – Você veio dos quadrinhos, que também tem esse aspecto underground, noturno, puxando para histórias de suspense e terror, e em 2002 publicou O cheiro do ralo. Essa mudança, você já falou, foi bem significativa no aspecto do reconhecimento público. Mas você diria que sempre existiu essa veia literária/romancista, mesmo produzindo quadrinhos?

LM – A minha mulher sempre falava isso. Desde do meu primeiro álbum, que ela disse ler como um livro. Depois ela foi ver os desenhos. Eu não tinha essa noção, mas tinha uma grande influência da literatura, lia muito, e também do cinema. Para mim nos quadrinhos não eram diferente. Mas nunca tive coragem de escrever um livro, por respeitar demais a literatura. Na primeira Balada Literária quando fui convidado por Marcelino Freire, ele falou que eu tinha que ler um conto, para apresentar melhor o meu trabalho. E na literatura eu nunca escrevi texto curto, são sempre romances. Mas nos quadrinhos eu tinha histórias curtas, então eu peguei só o texto de uma história e li. Sendo que o desenho era muito importante. Outro dia eu fiz essa mesma apresentação, li primeiro o texto como um conto, depois apresentei projetando a história com a imagem. São dois universos muito distintos, mas sempre existiu uma base literária, porque o quadrinho tem que ter mesmo. No quadrinho você não é julgado criticamente, acaba sendo um laboratório onde se experimenta muito. A mudança dos quadrinhos para a literatura foi brusca.

AC – Seu universo literário não difere muito dos quadrinhos. Ambos possuem algo escatológico, mas que nunca causaram repulsa nos leitores. Muito pelo contrário, os livros, por exemplo, são devorados com ânsia pelo seu público. Como justifica toda essa admiração pela sua obra?

LM – Não sei. Mas o meu quadrinho sempre teve muita influência do expressionismo alemão, que tem essa relação. Assim como eu amava Kafka. Acho que meu universo tem um paralelo com isso, tem a influência e acaba tendo uma aproximação. A minha visão de mundo também batia com a deles. Aí você acaba entrando num nicho de pessoas que gostam disso. Por isso que deve ter alguma aceitação. Eu não tinha um público grande, mas era um público fiel, o que possibilitava de ir lançando os livros, porque não dava lucro mas também não dava prejuízo. Logo os meus fãs compravam o que saía e pagam o que a editora tinha investido para imprimir. Então para eles (editoras) era bom também.

AC – Quem te descobriu na literatura?

LM – Marçal Aquino, Ferréz, Marcelino Freire. Eles começaram a me divulgar no meio literário. Mas a adaptação do Cheiro do Ralo, claro, me trouxe outro público.

AC – Hoje você acha que tem um público literário grande?

LM – São dois públicos bem distintos. A literatura é difícil de mensurar. Eu tenho um livro que vende muito bem, que é A arte de produzir efeito sem causa, talvez por ter ficado em terceiro lugar no Portugal Telecom, deve ter sido indicado em faculdade. Por isso eu acho que venda tanto. Nada me faltará, por exemplo, é um livro que vendeu muito pouco, passou quase em branco. Talvez ele não tenha sido tão trabalhado, ou quando saiu não tenha tido muito espaço, não sei ao certo. Muita gente não conhece esse livro. O natimorto, por exemplo, reeditado pela Companhia das Letras, levou por volta de quatro a cinco anos para esgotar uma tiragem de cinco mil livros. Mas O cheiro do ralo, o filme, ampliou muito o meu público. Eu nunca imaginei que alguém fosse ver o filme e querer ler o livro depois. Muita gente foi atrás do livro depois de conhecer o filme. Atraiu muita gente querendo saber o que faço fora da história daquele filme. A arte… já foi reimpresso duas vezes e vendeu até hoje por volta de onze mil exemplares. Por isso que eu não sei dimensionar o meu público, a quantidade de leitores que eu tenho. É difícil saber.

AC – Em relação a Arte de produzir efeito sem causa, seu campeão de vendas, tem também a questão do filme baseado nesse romance recentemente.

LM – O filme passou em branco e é uma livre adaptação, é muito diferente do livro. Eu acho que não refletiu em vendas, ajudou porque tinha esgotado e reimprimiram novamente, então foi bom porque trouxe o livro de volta.

O grifo de Abdera nos dedos de Mutarelli
O Grifo de Abdera nos dedos de Mutarelli

AC – Mas você gostou dessa adaptação? Inclusive o título foi modificado para Quando eu era vivo.

LM – Eu gostei que mudou o título, pois é uma adaptação muito distante. Eles perderam coisas que para mim é essencial do livro. Mas é aquela coisa, eu vendi o direito e foi adaptado. O filme é do diretor, com o olhar dele. Mas não me agrada nenhum um pouco. De todas as adaptações para o cinema dos meus livros eu acho essa a mais distante possível de mim. Não me identifico em nada.

AC – Porque não gostou no filme?

LM – Primeiro a Sandy (cantora, que atua no longa) cantando três músicas. Depois a ingenuidade do filme, o final mesmo é totalmente o contrário do livro. No filme é um mundo muito menor, é tudo dentro da família. O Júnior, personagem principal, para mim é fundamental no livro, quando começa a receber coisas pelos correios de um remetente anônimo. No filme não tem isso. Era a mãe dele que compunha uma canção. No livro era uma estudante de arte, no filme é uma estudante de música, justamente para a Sandy poder cantar. É um filme que não me tocou em nada.

AC – Para quem não leu o livro é um filme bom, não sua opinião?

LM – Não consigo dizer. Eu gosto muito do primeiro filme do Marco Dutra, Trabalhar cansa, (diretor de Quando eu era vivo). Se o livro não fosse uma adaptação da minha obra talvez eu tivesse gostado. Eu não sei dizer que é bom, porque esse (A arte de produzir…) é o meu livro preferido. É o único livro que eu já reli três vezes. A primeira vez que eu reli foi quando lancei em Portugal e as entrevistas eram muito específicas sobre o livro. A segunda vez foi quando o romance tinha sido reimpresso e a terceira antes do filme estrear, pois queria me lembrar da história toda. As três leituras foram sempre muito boas, eu gosto muito dele. Embora, por opção, é um livro onde eu suprimi muito de uma coisa mais poética, que eu usei no Cheiro do ralo, e no Natimorto, principalmente, e até um pouquinho no Jesus Kid. Mas nesse livro eu optei por suprimir isso para experimentar. Esse romance é o meu primeiro livro em terceira pessoa. Mas é isso, o filme é muito distante das sementes mais importantes do livro, que não florescem no filme.


AC – O que as pessoas falaram do “Quando eu era vivo”?

LM – Pouquíssima gente viu, foi um filme muito pouco visto. Me choca que algumas pessoas que gostam do livro gostaram do filme. Pessoas mais próximas não gostaram. De qualquer forma, não obtive muito retorno. Eu gosto do Antônio Fagundes no filme, acho ele muito bom. O Marat Descartes (Júnior), que eu adoro, me incomodou bastante por conta da peruca que colocaram nele. Aquilo ficou roubando minha atenção. A verdade é que meu santo não bateu com o filme. Eu vi na pré-estreia e não pretendo ver nunca mais.

AC – Você disse que já releu várias vezes A arte…, mas teve vontade de modificar alguma coisa no romance?

LM – Não. Uma coisa que aconteceu relendo esse livro é que as vez eu começava a reler e não lembrava de tudo. Aí na hora da leitura eu ficava pensando “será que eu fiz tal e tal coisa mais na frente?” E quando eu chegava mais na frente eu tinha feito. Conforme eu ia avançando eu ficava pensando nessas questões.  Eu gosto muito dele. Mesmo quando eu não gosto eu acho importante também, é sempre um caminho, eu faço o livro pela experimentação. Tenho um olhar muito mais crítico com meu quadrinho, porque é um trabalho muito pesado e o desenho é uma coisa evidente. Em alguns casos eu refazia o quadrinho, deixaria muito melhor, talvez. Na literatura minha relação é melhor.

AC – E qual o livro que você menos gosta da sua obra?

LM Miguel e os demônios é o que menos gosto, por ser um livro encomendado para um filme. Eu fiz esse livro para transformarem em roteiro, mas eu queria voltar nele, porque precisava trabalhar um pouco mais. Mas o Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, leu e quis publicar. Quando vejo esse romance penso que poderia ter trabalhado mais nele.

Jesus Kid também vai ser adaptado para o cinema. Ainda sem previsão de lançamento
Jesus Kid também vai ser adaptado para o cinema. Ainda sem previsão de lançamento

AC – Em relação ao romance “Jesus Kid”, qual a importância que ele tem na sua obra?

LM – Eu gosto muito dele. O Jesus Kid foi roteirizado e deve ser filmado a qualquer momento. O ator Sérgio Marone comprou os direitos e está tentando captar recursos. Eu não reli esse livro, mas eu li o roteiro, que é muito fiel. Acho muito divertido. Inclusive, uma parte do Jesus Kid escrevi no Recife. Na época estava ministrando uma oficina literária na cidade durante cinco dias e escrevia bastante no hotel onde fiquei hospedado. O curioso é que no quarto do hotel tinha uma banheira e na hora que fui tomar banho não havia a tampinha que prende a água  (como acontece no livro). Aconteceu só uma vez, mas o recepcionista ficou muito desconfiado, entregou outra tampinha muito contrariado. Essa história acabou entrando no romance. Me divertir escrevendo, lavei muita roupa suja com as pessoas que encomendaram o texto. É um livro que eu gosto muito. Ele é bem humorado e esse romance tinha que ter um final feliz e foi engraçado fazer, pois meus finais são sempre sem esperança.

AC – O Nada me faltará foi o seu trabalho mais ousado, já que é todo montado apenas com diálogo?

LM – Cada livro para mim tem que ser uma experimentação. Nada me faltará é totalmente inspirado na música minimalista. O Philip Glass (compositor americano), não gosta do termo minimalista, ele diz que faz música com estruturas repetidas. Isso me fascinou, eu quis escrever um livro com o mínimo possível. O mais legal desse texto foi o processo de fazer e depois enxugar o máximo para ver com quanto ele se matinha de pé, com o mínimo. Foi uma experiência boa de fazer, radical, apesar de não ser um dos meus livros preferidos.

AC – Vem mais coisas radicais por aí?

LM – Estou escrevendo um que é bem radical. Um livro truncado, de muita pesquisa, e que flui muito bem. As vezes eu digo que escrevo para quem não gosta de ler, porque eu detestava ler os parnasianos, por que as coisas não andavam. O importante para mim sempre foi fazer a história fluir. Mas estou escrevendo um livro agora que o texto é engessado.

AC – Que livro é esse?

LM – É o romance do projeto Amores Expressos, da Companhia das Letras, que eu fiz uma primeira versão. Eles (Cia das Letras) não gostaram, depois mexi e não gostei e resolvi deixar para lá. Abandonei a ideia, deixei esse livro guardado para ser publicado depois. É um romance póstumo, chamado Ninguém gritava na ponte. Um romance ruim, forçado, não está numa boa frequência. Eu escrevo como um escritor e depois eu leu como um leitor. Queria apenas me livrar do texto. É importante, pois o erro te leva para outro caminho. Aí peguei outra ideia e o novo vai se chamar Livro IV e/ou o Filho mais velho de Deus. Estou adorando esse livro, eu escrevo sorrindo. É uma bobagem, uma brincadeira, uma história sobre reptilianos, seres de outros planetas em forma de réptil, e sexo anal. A grosso modo é isso, um cara de Minnesota (EUA), com um amigo próximo que fala ter visto um disco voador. Aliás, um parêntese, meu sonho era ver um disco voador e eu vi no Recife no ano passado (2013). Foi quando estava chegando na boate Iraq, onde me chamaram para um bate-papo. Foi lindo ter visto, era um objeto redondo com uma luz azul muito forte. Então, voltando ao romance, o personagem do livro tem um amigo que diz ter tido uma experiência desse tipo. O meu maior desafio é o seguinte, eu não acredito nos reptilianos, o narrador não acredita e o protagonista também. Mas quero construir uma dúvida em algum momento. Por isso que é um desafio grande. Na história, o amigo do protagonista diz que viu essas coisas extraterrestres e entrega um envelope para ele junto com um número, e fala para ele ligar se algo acontecer e entregar o envelope para o contato.  O protagonista está com a vida bem parada e o amigo some, aí ele liga para o número, entrega o envelope. Nesse momento, oferecem para ele uma nova identidade num esquema de proteção. Não do governo, e sim de um grupo particular. Ele fica fascinado com essa ideia de ter uma nova identidade, aceita e vai para Nova York. O livro é muito em torno das experiências desse cara, vivendo num grupo de pessoas estranhas, fanáticas com essa questão de óvnis, e ele tendo que se adaptar com um novo nome, nessa nova cidade. A história de amor, exigência do projeto do Amores Expressos, surge quando o protagonista começa a ter uma relação de fachada com uma mulher, pois faz parte da proteção, e ele se apaixona por ela, mas logo depois passa a desconfiar que a mulher seja um reptiliano.

filme e peça baseados no livro homônimo
filme e peça baseados no livro homônimo

AC – A linguagem permanece a mesma dos seus livros anteriores?

LM – No livro anterior eu já tinha retomado um pouco da poesia no meu trabalho, nesse novo tem muita brincadeira com a língua, apesar de muito humor e bastante pesquisa sobre esses assuntos de óvnis e de répteis. Ele tem muita poesia também. Algumas pessoas estão lendo e não estão achando a leitura fácil. A minha mulher me disse que é um livro que só eu vou gostar e sorrir, mas é um livro que me basta, estou fazendo para mim mesmo. Já estou quase na metade. Deve sair em 2016.

AC – Como avalia esse projeto do Amores Expressos e a cidade de Nova York, lugar para onde foi enviado?

LM – Primeiro eu achei uma ideia maravilhosa, em ter que ficar um mês em outra cidade, sem necessariamente falar a língua local e também não conhecer o lugar. Eu falo apenas umas doze palavras em inglês, mas eu me virei lá. Quando me convidaram, falei que queria ir para Beja, uma cidadezinha no Alentejo, em Portugal, que eu passei dez dias e amei. Aí eles me mandaram para Nova York, que é um lugar onde não tinha a menor vontade de conhecer. Isso foi ruim para mim. Tudo que eles têm de mais legal não me interessa, tenho desprezo por aquela cultura da aparência, pelo o que se vende e se acha bacana. Fui para lá e tive o meu primeiro bloqueio criativo e voltei a beber depois de quinze anos. Aí em tive que voltar para Nova York um ano depois para tentar resolver o meu livro. Nessa segunda vez foi mais atraente, pois ir para lá bebendo deixou a cidade bem mais interessante e divertida. Mesmo assim ela não me ganhou, não mudou a impressão que eu tinha, pelo contrário, reforçou demais tudo o que pensava sobre ela. É um lugar que a gente já conhece, somos bombardeados todos os dias de informação sobre aquele país.

Filme baseado no primeiro livro do autor, com Selton Mello no papel principal
Filme baseado no primeiro livro do autor, com Selton Mello no papel principal

AC – A experiência literária, no entanto, foi válida?

LM – Extremamente válida. Eu queria escrever um outro livro sobre essa experiência. A editora tentava fazer com que a gente não ficasse em hotel, para vivermos melhor o cotidiano. Fiquei no apartamento de um russo que iria passar um mês fora. Eu nunca tinha tido problema com a solidão e lá fiquei afetado pela solidão, que não era minha. O russo se chama Ilía, tenho até um projeto de livro que se chama A solidão de Ilía. Lá tinha os desenhos das filhas dele na parede, e muitas outras coisas que remetiam a solidão. Então aquilo começou a me afetar. Eu tenho muita vontade de escrever sobre isso. A experiência foi muito rica, principalmente para nós escritores, que todas as coisas servem de repertório e bagagem. Acho que o romance Livro IX e/ou o Filho mais velho de Deus vai ser um bom livro.

AC – E o livro que vai lançar agora em 2015? Do que se trata?

LM – Esse próximo livro, O grifo de abdera, que é o nome de uma moeda grega, partiu de uma encomenda do cineasta Fernando Sanches, que queria filmar Miguel e os Demônios, mas estava um pouco enrolado o contrato com a editora, e me pediu para escrever o que eu quisesse para ele filmar. Então eu fiz um livro com três estruturas: um conta a história do verdadeiro Mutarelli, o outro conta o que deve ser filmado, que é uma história de amor, e o último é uma história em quadrinhos encartada de oitenta páginas, falando sobre um dos personagens, que no processo meio doentio produz um quadrinho totalmente sem sentido. O romance vai juntar essas três coisas. É um livro onde eu retomei um pouco da poesia e revisitei a minha obra e o lado bom da minha infância, da vivência do bairro onde moro. O personagem principal do romance recebe uma moeda grega de 411 anos antes de Cristo como pagamento de algo que ele não sabe o que é. Aí ele vai tentar descobrir esse mistério e as coisas mudam muito a partir desse fato. O quadrinho incluso foi um processo totalmente experimental, eu iria extrair o texto e jogar os desenhos fora,mas gostei tanto do processo que resolvi encartar como sendo de um dos personagens.

AC – Você disse certa vez que não se achava um escritor de verdade. Ainda continua com essa mesma opinião depois de vários livros publicados?

LM – Não, minha opinião mudou. Hoje eu me considero um escritor. Mesmo. Eu escrevia meus livros muito rápido, agora levo muito mais tempo. Gosto de ficar trabalhando mais, ajustando.

AC – Porque você falava que não era um escritor? Qual era a sua ideia sobre o ofício?

LM – Eu não entendia muito o que era ser escritor, eu mitificava um pouco esse ofício. Como hoje a maioria dos meus amigos são escritores, isso foi se desmistificando. A minha própria maneira de viver é como um escritor mesmo. Coleciono coisas. Tudo acaba virando matéria prima, vou colecionando e pensando em juntar para fazer um mosaico ficcional.  Tem a ver até com a forma que se vê o mundo, eu vejo o mundo como um escritor.

AC – Aliás, você disse a mesma coisa em relação à atuação nos filmes que participou. Também não se considera um ator, no sentido clássico de se entregar ao um papel? Como avalia esse lado na sua carreira?

LM – Eu só trabalho agora com a Anna muylaert. Filmei com ela no começo do ano, um papel bem grande, e até o final do ano faço outro papel, dessa vez pequeno. Ela me dá muita liberdade. Eu falo sempre que eu acabei entrando no mundo do cinema como um policial infiltrado. Estava escrevendo a minha peça de teatro quando me convidaram para participar de um curta como ator, eu achei que poderia ser mais uma experiência para o escritor. Trabalhei em vários curtas, mas não trabalho mais, só com a Ana. Não sou um ator, sou um canastrão.

Cena do filme Natimorto, onde Lourenço contracenou com mais de seiscentas baratas
Cena do filme Natimorto, onde Lourenço contracenou com mais de seiscentas baratas

AC – A impressão é que você se entrega muito quando está atuando.

LM – Em tudo o que faço me entrego totalmente, mergulho no papel. Mas não tenho técnica, propriocepção. O que estou fazendo eu não vejo corporalmente como está sendo na hora. Com a Anna muylaert eu gosto de fazer porque ela não quer ouvir uma palavra do roteiro, por já entender a história toda. Então ela diz para a gente falar o que acha que o personagem deve dizer. Isso me fascina muito. As vezes existem cenas muito difíceis que eu não gosto de pensar, apenas na hora da ação mesmo eu vejo como o personagem vai resolver. Aí é muito emocionante, adrenalina pura, o coração dispara. Minha primeira participação grande em longa-metragem foi no Cheiro do Ralo, já tinha feito uma ponta em Nina, também de Heitor Dália, mas não entrou.

AC – O Natimorto é bem significativo na sua trajetória, por ser  sua maior atuação em longa? Você gostou do resultado?

LM – Eu recebi muitas críticas negativas de amigos meus. Isso me fez perder um pouco do prazer, que até então era divertido. Eles falaram que eu estou péssimo no filme, que não deveria ter feito. Me magoou muito, porque me entreguei completamente. Preciso de uns dez anos para rever o Natimorto para saber se fui tão mal assim. Eu gosto bastante do papel que fiz no É proibido fumar,da  Anna muylaert, uma cena que eu faço com a Pitty. Gosto muito também de uma participação no curta Pugile, de Danilo Solferini, que eu faço um palhaço satânico e um mendigo que vai assaltar crianças.

Transubstanciação é o quadrinho mais aclamado do autor
Transubstanciação é o quadrinho mais aclamado do autor

ACO cinema, inclusive, foi importante para as pessoas conhecerem seu trabalho como romancista. Você diria que literatura, cinema e teatro (no qual você também atuou) quase sempre partem do mesmo princípio, que são as histórias propriamente ditas?

LM – Tudo isso tem muito em comum, mas um exemplo que eu dou é uma cena do Natimorto que tive que contracenar com seiscentas baratas em cima de mim. A concentração é tão forte quando estou atuando ou escrevendo que se tornam coisas em comum. Naquele momento do Natimorto eu consegui fazer uma cena linda, ainda que repugnante. É isso, a arte é quase um ilusionismo, de querer contar uma história, fazer alguém ver alguma coisa que você quer dividir.

AC – Você não gostou do Quando eu era vivo. Como avalia a adaptação das suas outras obras para o cinema. Na sua visão, os diretores conseguiram captar bem o universo dos romances?

LM – Eu adoro o Cheiro do Ralo. Quando eu vi o primeiro corte do Natimorto com a equipe na cabine, também gostei, apesar de ser bem problemático no começo. O que desagrada no filme é justamente a crítica que sofri sobre minha atuação. Não do filme em si ou do olhar do diretor.

AC – Suas atuações no cinema e no teatro, de alguma forma, são importantes para a produção dos seus livros? O que consegue extrair dessas experiências?

LM – Eu tenho muita vontade de escrever sobre um personagem ator. Mesmo não sendo ator eu vivi os bastidores dos filmes, das peças, é um universo muito fascinante. Quando escrevi A arte de produzir efeito sem causa, por exemplo, eu criei os gráficos do personagem Júnior, que não iria fazer, apenas idealizar. Eu comecei a tentar entendê-lo. Dormi alguns noites no sofá pequeno para saber como era para ele dormir no sofá pequeno. O de Nova York, quando tive o bloqueio criativo, eu andei pelas ruas tentando atuar como o personagem, entender a cidade como o personagem. Então uma coisa meio física veio do cinema para a minha literatura. No Grifo de abdera o protagonista tem  relação muito forte com uma caixa d’água, que é muito importante desde minha infância. Muitas vezes quando eu parava para tomar um café, eu ia lá dar uma olhada nela. Talvez por ter atuado, as vezes meu corpo me leva até  caixa d’água para fumar um cigarro e olhar para ela. Quando eu volto trago alguma coisa para o livro, mesmo sem querer.

AC – Deve ser uma loucura escrever um livro e depois ser o personagem daquela mesmo história. Como se sentiu?

LM No Cheiro do Ralo o segurança do livro era tão diferente no filme. Então levei como uma brincadeira. No Natimorto eu vivi realmente um personagem meu, só que o objetivo era me aproximar do personagem do diretor, que não era o meu, tinha diferença no olhar dele. A ideia era chegar no que o diretor queria. Foi fascinante. Eu estava tão mergulhado que não vivenciei como o escritor deveria ter observado. O autor do livro no filme é uma espécie de mascote, como se eu tivesse dando um aval.

A Companhia das Letras fez a compilação da trilogia do detetive Diomedes, esgotada há alguns anos
A Companhia das Letras fez a compilação da trilogia do detetive Diomedes, esgotada há alguns anos

AC – Qual a adaptação literária que gostou bastante?

LM – Uma adaptação que gosto muito é Naked Lunch (traduzido no Brasil como Mistérios e Paixões), dirigido por David Cronenberg. Esse filme é uma mistura do romance O almoço nu, de William Burroughs, com a vida do autor. Eu adorei a série Berlin Alexanderplatz, dirigida por Rainer Werner Fassbinder. Eu gosto também da adaptação da Insustentável leveza do ser, que achei mais legal o filme do que o livro. Tem filme que gosto tanto que não vou ler o livro, como o Laranja Mecânica. Por isso que achei que ninguém iria ler o Cheiro do Ralo, porque as vezes o filme é tão fascinante que se basta.

AC – Você foi um jovem com alguns problemas de relacionamento, utilizou medicamentos muito fortes, várias drogas e teve uma depressão profunda. Fazer quadrinhos foi uma forma de exorcizar todos os demônios e continua até hoje através dos livros?

LM – Por outro lado era uma prisão, pois eu tinha que trabalhar, no mínimo, doze horas por dia. Era uma forma de não viver. Passei um período, antes do Cheiro do Ralo, que não saía de casa. Fui mudando. Eu tinha uma vida muito solitária, éramos eu, minha mulher, meu filho e dois amigos. O filme o Cheiro do Ralo me trouxe para um mundo muito maior. Hoje tenho incontáveis amigos que eu vejo com frequência. Eu vivo mais, não consigo ficar dez horas preso desenhando. Minha mão não aguenta. Então a literatura é muito mais fascinante para mim. É importante dizer que  meu trabalho me salvou. Claro que eu me tratei, tomei remédio por 28 anos, fiz análise, mas o meu trabalho foi o que mais me ajudou a melhorar como pessoa, e a tirar as nuvens negras sobre mim. Algumas pessoas ainda me veem como uma pessoa reclusa, tímida. Não sou mais assim, tenho uma vida e adoro poder vivenciar tudo isso.

AC – Mas ainda hoje exorciza alguma coisa com a literatura?

LM – Sem dúvida. Ainda tem questões que eu limpo e volta a ser acumulada uma coisa escura, que tenho que colocar para fora através da arte.

AC – Em outras entrevistas você falou que boa parte dos quadrinhos que produziu foi com inspirações autobiográficas. Você ainda continua bebendo dessa mesma fonte pessoal para escrever suas obras?

LM – Sempre confundiram muito meu estado mental com autobiografia. Existe uma autobiografia sensorial. Muito do que está nos livros e nos quadrinhos tem a ver com o que vivia, mas não sobre o que vivia de fato. O meu quadrinho preferido Caixa de Areia, que vai ser relançado no próximo ano (2015), é uma falsa autobiografia. Eu usei minha casa como cenário e minha família como personagens, mas quase nada ali é verdadeiro, só os ruídos externos que atrapalham o personagem são reais. Eu fiz histórias autobiográficas para a cybercomics, que reuni depois no quadrinho Mundo Pet. São as únicas histórias com algo de autobiografia. Agora, eu misturo uma ou outra vivência minha com o personagem, e não dá para saber o que verdade ou ficção. Eu bebo das minhas vivências. Escrever para mim é a forma que eu tenho de pensar mais profundamente sobre qualquer coisa. Algo que me vem a ideia, se eu quero aprofundar escrevo.

AC – É até um clichê a pergunta, mas cada escritor tem um processo criativo diferente. Como você parte de uma ideia até a concepção do livro propriamente dito?

LM – No livro de Nova York eu tive que entregar uma sinopse de cinco páginas, com começo, meio, fim e discrição dos personagens. Eu matei o livro nessas cinco páginas, porque não gosto de escrever dessa forma, é muito burocrático para mim. Gosto de ir descobrindo a história, não tenho essa coisa de saber o final do livro. O Marçal Aquino fala que a história vai sendo contada, é a mesma coisa comigo. Claro que preciso fazer escolhas. Adoro esse processo, para mim é isso o que motiva a escrever. Agora, cada livro é uma experimentação. O Livro IV e/ou o Filho mais velho de Deus, por exemplo, nasceu quando eu estava sozinho em casa, a noite, zapeando por esses canais do tipo Discovery, e estava passando um documentário sobre sereias. Ele é tão bem construído, o documentário, que levanta a possibilidade de realmente existirem sereias. Foi aí que nasceu o livro, quando eu resolvi escolher uma coisa que eu achava ridícula e tentar criar uma credibilidade. Esse era o desafio, falar de algo do qual eu não acredito, mas tentar ver como podia tornar isso por um minuto algo possível de ser verdade.

AC – Você tem uma teoria interessante que é sobre seu ambiente de trabalho ter que ser opressivo para fazer da arte um ponto de fuga para a mente. Isso se revela diretamente nos personagens, que sempre surgem em situações desconfortáveis, em acontecimentos urbanos estranhos, e muitas vezes estão na encruzilhada entre solidão e morte. Explique melhor como é essa teoria.

LM – Eu trabalho numa jaula, decorada como uma masmorra, só tem coisas sombrias lá. É muito importante esse trânsito. Eu sou muito divertido na minha casa, eu gosto de um ambiente bom na minha residência, mas para o trabalho eu preciso de um lugar pesado. O fato de ter uma jaula, que é um quarto de empregada, sem janela, com grade, me faz entrar lá e mudar minha maneira de ser. A gente vive no mundo que faz tudo para nos distanciar de nós mesmos. São contas para pagar, transporte e muitas outras coisas. Na jaula eu me desligo completamente do mundo, vou ouvir música e me ambientar naquele universo que tem a minha cara. Só que esse ano teve uma infestação de cupim e eu tive que sair de lá. Estou trabalhando na sala, está sendo péssimo para mim. Uma peça, que é um santuário pagão, levei para a sala com medo dos cupins acabarem com ele, e minha mulher não gostou daquilo na sala, ela diz que o objeto não pertence ao ambiente.  Mas é muito importante para mim, pois tem uns bonecos que me ajudaram bastante, porque eu era uma criança muito sozinha e ficava brincando com os bonecos de Forte Apache, inventando histórias. Eu retomo um pouco disso no Grifo de Abdera. Esse santuário me dá uma energia, da mesma forma quando alguém para na frente na imagem de um santo e sente uma força vindo de lá, esse bonequinho é uma espécie de santo para mim. Então meu trabalho vai muito por essa linha, de profanar o sagrado e por outro lado sacralizar o profano, essa coisa misturada do que acredito ser importante para minha vida.

Nada me faltará foi uma grande experimentação do autor, um romance apenas com diálogos
Nada me faltará foi uma grande experimentação do autor, um romance apenas com diálogos

AC – Consegue escrever em qualquer lugar ou apenas na jaula ou próximo dela?

LM – Eu acabei de chegar de viagem e não consegui escrever nada, levei trabalho mas não saiu nada. O Livro IV e/ou o Filho mais velho de Deus, por algum motivo, preciso que seja em casa mesmo, tenho um monte de pesquisa para fazer na internet, e muitos livros para consultar. Eu me sinto mais concentrado lá.

AC – As situações que aparecem nos seus romances são perfeitamente verossímeis, mas tem toda uma pegada de absurdo e surreal. Por que preferiu seguir por esse caminho desde o começo?

LM – Por me fascinar mesmo. Quando você está desestabilizado psiquicamente tudo é mais sombrio e possível. Você vê coisas que se estivesse bem não veria, pensa coisas que não pensaria. Desde de uma paranoia conspiratória, suicídio, desconfiar de pessoas muito próximas, até achar que a realidade é uma ilusão. Meus personagens estão sempre nesse limite, a três passos de uma crise irreversível que eles vão viver, onde vou acompanhá-los por um tempo nisso.


AC – Lógico que não apenas os aspectos pessoais são importantes para compor uma história. Existe também a influência externa, de outros autores. Quais escritores fazem parte do seu universo literário?

LM – Eu não sei. Tem vários momentos com vários autores. Descobri há três anos o Kurt Vonnegut, quem me indicou foi o Antônio Prata, por achar que tem muito a ver com minha literatura, e tem mesmo, embora eu nunca tenha lido, e apesar de ser algo diferente, ele trabalha o humor e o registro, a repetição das palavras. No “Livro IV….” tem uma homenagem ao Vonnegut, o personagem sempre fala dele. Kafka foi outro escritor, quando eu li era a mesma sensação do mundo que eu tinha. Nunca mais reli Kafka. Foi incrível ler Os demônios do Dostoiévski também. Teve uma época que fiquei totalmente contaminado por William Burroughs, era uma influência psíquica, hoje não mais. Tento não me influenciar, não seguir ninguém. Admiro, mas estão apenas nos meus altares.

AC – Mas você deve ler bastante coisa.

LM – Tem fases que sim. Esse ano eu li pouquíssimo. Não consigo, por exemplo, ler no calor, não suporto o calor e não me concentro. Mas quando começo a ler não paro. Eu li recentemente Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin, e amei. Fui para Portugal e comprei esse livro com uma tradução muito mais poética. Acabei de ler Bom dia, Camaradas do Ondjaki, gostei muito. É sobre a infância, mas uma infância bem diferente da minha, é tão calorosa, compartilhada. É bonito ver como ele, Ondjaki, conseguiu encapsular isso até os dias de hoje. Meu filho está escrevendo o segundo livro, ele não publicou ainda, mas lê muito e acabou de terminar Misto Quente, do Charles Bukowski, e estou lendo para conversar sobre o livro com ele. Quando estou escrevendo muito eu não consigo ler, porque eu começo a analisar o livro não como um leitor comum, eu adoro me perder como um leitor, não ficar analisando como o cara escreveu. Eu sou muito exigente com os livros que leio, nas primeiras dez páginas o livro tem que me conquistar ou então eu largo. Leio poucos contemporâneos, mas acompanho o trabalho do Marçal Aquino, Marcelino Freire, amo o romance Nossos Ossos, adoro a música que o Marcelino sabe utilizar nos livros dele, principalmente o romance que falei, me emocionou bastante.

AC – Em 2011 você voltou ao universo próximo dos quadrinhos publicando a história ilustrada Quando Meu Pai se encontrou com um ET fazia um dia quente. Pretende publicar outras coisas do gênero?

LMEsse quadrinho foi uma chantagem, me ofereceram um dinheiro absurdo par fazer. Eu gosto do resultado, não gostei do processo. Achei que não era a hora de ter voltado mas fiz, foi um trabalho. Esse outro quadrinho que vem encartado no próximo livro é algo muito mais visceral e interessante, além de estar no contexto do romance.

AC – Você já disse que não gostava de internet, muito menos de redes sociais. No entanto, tem um perfil no Facebook. Qual o motivo da mudança de opinião?

LM Eu sempre tive distância da internet, embora sempre utilizei para comprar muito livro. Não só livro como também máquina de lavar, geladeira etc. Eu detestava e-mail, achava um saco, o Orkut também. Quando comecei a dar aulas, eram muitos e-mails de alunos e eu tinha que responder. Só respondo meu e-mail apenas coisas de trabalho e alunos. O Facebook eu não tinha, mas um cara usava meu nome, minha foto e postava umas coisas lá como se fosse eu. Isso começou a incomodar, eu denunciei e o cara saiu. Depois de um mês surgiu outro fake. Foi quando resolvi  entrar na rede social. Gostei muito no começo e agora já não tenho tanto prazer, porque tem muita gente chata pedindo para que eu leia livros. Só te convidam e pedem, essa é a parte chata. O Grifo de Abdera é uma parceria minha com o Mauro Tule Cornelli, um alter-ego meu, criado para o livro. Ele tem uma página no Facebook, foi por isso que entrei na rede social também. É um anagrama de Lourenço Mutarelli. Tudo o que ele posta eu amo, tem a ver com meus livros. Ele é mais chato do que eu, mais careta. Ele é o verdadeiro Mutarelli, eu que viajo e dou entrevista, sou um tiozinho que aparece em outros livros, porque ele pagou uma pinga para eu sair numa foto que ele não queria aparecer. Só que esse cara (eu) fica viajando e falando besteira e isso o incomoda. O Livro IV… é dedicado ao Google, Google Tradutor, Google Street View, Wikipédia, por ser feito disso, a minha relação com a internet mudou completamente. Eu só não tenho paciência de ficar perdendo tempo. Tenho hora para entrar no Facebook, sou muito focado. Não é uma coisa que me pega ou vicia. Eu sou um cara compulsivo e poderia ficar horas lá dentro da rede social.

AC – Você demora quanto tempo escrevendo um livro. Isso varia de um para o outro?

LM O Cheiro do Ralo foram cinco dias. Eu levei mais dez dias trabalhando nele. O Natimorto eu comecei e só retomei um ano depois, aí quando peguei acabei em quinze dias. Jesus Kid escrevi em quinze dias. Miguel e os Demônios em um mês. A arte…. eu levei um ano por conta da pesquisa. O Grifo de Abdera três meses. Agora, o Livro IV… comecei em julho e vai ser preciso mais um ano trabalhando nele. Tenho gostado de um ano para trabalhar os livros novos. Hoje me levanto por volta das oito horas, trabalho até meio-dia, depois paro para almoçar e fico escrevendo até duas da tarde. Se o envolvimento for grande leva mais tempo o processo. No dia seguinte eu leio o que escrevi e faço ajustes.

AC – Você revisa os livros?

LM – Não reviso e nem conheço muito coisa da estrutura gramatical da nossa língua. Escrevo muito de ouvido e depois o livro vai para o revisor. O Cheiro do Ralo, a primeira edição, não tinha revisor na editora, saiu da maneira que escrevi. Sei que tem muitos erros. Mas não quero estudar porque meu texto flui dessa forma. O importante para mim é contar a história. A língua é viva. Eu escrevo a língua que falo, acho isso importante. Mas, claro, tudo vai passar por uma revisão e tem que coisas que vou brigar para não tirar, por conta da sonoridade, da melodia do texto. As vezes trocam uma palavra e a música do romance é cortada.

AC – Já está dando para viver exclusivamente de literatura?

LMNão vivo e não conheço ninguém que viva só de literatura. Eu me sustento com as oficinas de quadrinho que ministro. Tem mês que não tem nada e tenho que correr atrás para conseguir alguma coisa. Esse ano de 2014 foi um dos piores financeiramente por causa da Copa do Mundo, depois as eleições. Praticamente três meses sem trabalho nenhum. Quando não tem oficina eu tenho que arrumar ilustração, porque a literatura não me sustenta. Ganhamos apenas 10% do preço de capa, os livros são caríssimos, por volta dos R$ 40, e só ganhamos R$ 4. Ainda por cima se vende muito pouco no Brasil.

AC – Existe alguma previsão de tradução de seus livros?

LM A arte de produzir efeito sem causa iria sair na Argentina, por conta da crise não saiu, mas já está traduzido. O Cheiro do Ralo vai ser publicado na França próximo ano. O intercâmbio é muito importante. Quando você viaja, vai dar uma palestra, e tem o livro traduzido todo mundo quer, agora quando não tem o livro as pessoas não tem como acessar o trabalho. Complica demais.

AC – Você acha válida que uma pessoa descubra um determinado livro e leia todos os outros do autor?

LMEu faço isso. Adoro descobrir um autor que já morreu, aí eu quero ler a obra inteira quase como um livro só. Isso para mim é demais. É como a gente faz com músicos, teatro, diretores de cinema. Se for sair um filme novo do Paul Thomas Anderson eu vou assistir. Seguir algum artista é normal. O único cara que destruiu a imagem que eu tinha dele, pode parecer até careta da minha parte, foi o Wood Allen, por conta do abuso sexual com a filha adotiva. Aquilo corrompeu a imagem que eu tinha. Muitos filmes do Wood Allen eu gosto muito, embora sejam datados, são legais apenas naquele momento. Mas eu perdi totalmente o respeito e admiração por ele. Se o cara é louco e faz uma coisa improvável acho até legal, mas algo desse tipo do Wood, ou então uma atitude racista de alguém que eu admirava, azeda a relação na hora.

AC – Muitos artistas começam a carreira tentando buscar algo maior no futuro, uma conquista artística. Você pensa nessas coisas, está buscando algo maior artisticamente no futuro? Pensa sobre isso?

LM – Não penso nisso. No Grifo de Abdera o Mauro Tule fala um pouco que todo o livro é mais ou menos o mesmo livro. Só quem em giros diferentes. O meu primeiro quadrinho o Transubstanciação foi o meu melhor quadrinho durante muito tempo. Nunca atingi em outro quadrinho o que alcancei nele, mas isso não me incomoda de jeito nenhum. Eu tenho uma busca de alguma coisa. Escrevo porque quero e preciso, mas não tenho a ambição de fazer a grande obra da minha vida. Vou escrever enquanto tiver prazer nisso.

AC – Do que você não gosta?

LM – Eu não gosto quando muda o tratamento comigo. As vezes as pessoas me tratam mal sem saber que sou eu, quando sabem mudam o tratamento na hora, vem me bajular. Eu detesto isso. Se não gostou de mim não precisa bajulação. Não acho que sou melhor do que ninguém. Assim como tenho amigos escritores, também tenho amigos foram desse universo. Mas até quando estou com meus pares não conversamos sobre literatura. Já o pessoal dos quadrinhos só falam esse assunto do trabalho deles. Eu nunca fiz parte do grupo.

AC – Como acha que sua obra merece ser definida?   

LM – Eu não sei como dizer, mas a minha obra tem uma entrega profunda e uma investigação sobre as minhas sombras. Não sei me definir. Nunca tive muita pretensão, sigo essas coisas que aparecem. Não me importa em ter uma obra vasta, eu vou fazendo. Talvez esteja muito colado na minha obra para poder defini-la. Só sei que estou muito em paz com a minha obra, eu não me orgulho e nem me envergonho dela. Existe uma entrega profunda em cada trabalho. A minha obra representa muito do meu mundo interior. As pessoas me respeitam até demais, tenho um status tipo cult entre os leitores. Tem aqueles fãs mais antigos que na hora que eu fui para Companhia das Letras falaram que estava me vendendo. Mas continuo fazendo a mesma coisa da época dos fanzines, sem concessão nenhuma. Falo sobre muitas coisas que acho interessantes, divertidas e que muitas pessoas não falam. O que mais me orgulha é ser mais radical do que quando comecei. Eu tenho uma alma meio Punk.

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