As Fantasias Eletivas e a tentativa de falar sobre a alma humana

Por Ney Anderson

O escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder lançou no segundo semestre do ano o romance As Fantasias Eletivas (Record), décimo livro da carreira, utilizando da experiência própria como recepcionista de hotel por cinco anos em Balneário Camboriú, litoral de Santa Catarina, onde a história se passa, para criar um livro interessante na proposta, mas que se perdeu na concepção geral, já que a ideia central não foi explorada como deveria ter sido.

As fantasias eletivas narra a história de Renê, um recepcionista de hotel, que começa a ter uma amizade incomum com o travesti argentino Copi, que se prostitui no balneário para sobreviver, e que escreve ficção tendo como referência, ou “inspiração”,  fotos que ela faz com uma câmera Polaroid.  As imagens são das mais variadas, como um pino de alarme pendurado ou uma placa de trânsito, um telefone público, e até mesmo uma ducha higiênica. Através dessas fotos Copi vai escrevendo algo parecido com contos ou narrativas curtas, e são bastante diferentes entre si, como se fosse um artista buscando a voz própria.  “Um pino de alarme de incêndio é a coisa mais solitária que existe: ninguém quer tocá-lo. E quando o tocam é algo tão rápido, tão violento: em poucos segundos alguém o pega e o joga contra o vidro…”.

O livro nasceu do conto “Os recepcionistas”, mas não evoluiu como romance. Copi, por exemplo, é um desses personagens que poderiam realmente crescer no livro, pois o que ele tenta transmitir sobre a literatura e a vida é muito original, com boas sacadas sobre o que é a literatura de fato, e de como tudo pode ser fonte para a ficção:

“Mas voltemos ao instante da fotografia, este instante que é descolado da própria realidade, é uma captura do tempo, um congelamento, o mais próximo que podemos chegar da imortalidade. E sempre voltamos à imagem, cada vez que ouvimos uma palavra, alguém nos conta algo, nossa imaginação fotografa tudo, é a fotografia das palavras. Se apanho ou me maltratam, eu tenho minha foto. Ela me despertou a paixão pela escrita. Foi a fotografia que me mostrou  o que é a literatura….E aquela fotografia me pareceu tão cheia de possibilidades e metáforas, imaginei tantas coisas… E passei a fazer isso, criar histórias a partir das fotografias.”

O livro é dividido em quatro partes, a primeira delas é S de Sangue, mostrando esse primeiro encontro entre Renê e Copi, a segunda parte, A Solidão das Coisas, é justamente os contos escritos a partir das fotografias da travesti, seguido da Poesia Completa de Copi, que se mostra também superficial, e a última parte leva o mesmo título do romance As Fantasias Eletivas, uma carta, que é um tanto confusa, onde a travesti escreve para a mãe sobre todas as vontades e desejos não realizados, e também uma pequena continuação da vida de Renê sem Copi. Resultando, de certa forma, em um livro dentro do livro. Esse última parte, inclusive, seria um desfecho incrível, já que Copi tem uma família que o despreza e por isso, talvez, se prostitui, tendo como fuga a fotografia e a literatura.O travesti, inclusive, é um clara referência ao escritor, ator, dramaturgo e cartunista argentino Raul Damonte Botana, que assinava como Copi, e ficou exilado na França por conta do tipo de obra que produziu, batendo na política e falando dos preconceitos que existem até hoje,  fazendo fama em Paris, morrendo em 1987 por complicações de saúde decorrentes da AIDS.

Na verdade o romance, como o próprio autor falou, é uma tentativa de falar sobre a alma humana. Renê, por exemplo, tem questões interessante abordadas superficialmente, pois ele já passou por algumas situações nebulosas na vida e tentou se matar de forma frustrada. Mas tudo isso é apenas pincelado no texto, não existe desenvolvimento. Na abertura do livro sabemos de um jantar romântico, com Renê tentado esquecer de uma facada que levou. No entanto, continuamos sem saber quem é Maria, a companheira dele no jantar, tampouco o motivo da agressão que Renê sofre. Até o belo cenário de Balneário Camboriú foi descrito de forma rasa, com encerramentos curtos ou curtíssimos, que não funcionaram bem enquanto ideia de figuras fragmentadas, para supor uma captura de imagens fotográficas.

Uma das qualidade do texto é a forma direta na qual a história é contada, sem prolixidade e rebuscamento. Mas as boas reflexões sobre a escrita e a literatura em si poderiam, com já foi dito, render um livraço, em todos os sentidos da palavra, já que o autor sabe conduzir a narrativa, além dos personagens solitários que ele criou, com significativos dramas pessoais, mas que infelizmente não explorou em todas as suas possibilidades.

Talvez um tempo maior de maturação da escrita, sem tanta pressa em publicar, poderia ser o ideal para resultar numa obra literária ímpar, original e forte. O livro parece, sem ofensas, um rascunho de um excelente romance. Faltou mais ambição no texto, pois existe apenas a tentativa que nunca se concretiza. É importante ler outros livros do autor para ter uma dimensão melhor da obra dele, porque esse novo livro não é, de maneira alguma, um Carlos Henrique Schroeder em sua melhor forma.

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