Raimundo Carrero se transforma em personagem de si mesmo

Foto: divulgação/Fliporto
Foto: divulgação/Fliporto

Por Ney Anderson

O Senhor agora vai mudar de corpo. Esse é o título do novo livro do escritor Raimundo Carrero, lançado pela Editora Record. Não é um livro comum. Nenhum livro de Carrero é comum, na verdade. Mas a diferença é que o autor se colocou completamente na obra, mesmo que de forma ficcional, fato inédito na trajetória dele. Em mais de quarenta anos de carreira, nunca o escritor pernambucano havia se exposto tanto numa obra dessa forma. O desafio foi vencido com grande êxito. O autor de Sombra Severa e O amor não tem bons sentimentos soube colocar muito bem no papel suas angustias, a vida errante da juventude e o sonho de ser escritor.

A ideia do livro surgiu logo após Carrero receber alta do hospital no qual estava internado por conta de um AVC sofrido duas semanas antes, em 19 de outubro de 2010. O romance se chamaria Às Vésperas do Sol, contando o aparecimento e a superação da doença, que ele tenta até hoje diminuir as sequelas. Mas a frase da cuidadora do autor mudou completamente o significado do livro, que é todo dividido tendo o corpo como base. Aliás, essas subdivisões e o próprio título, são perfeitos para mostrar a mudança radical que Carrero sofreu. O corpo, realmente, foi o mais afetado nisso tudo. Os capítulos são divididos tendo-o sob perspectiva: “O corpo e o crime”; “O corpo e a arte”; “O corpo e os miseráveis”; “O corpo e a política”; O corpo e o Cristo”, e por aí vai.

No livro, vemos um o alter-ego de Carrero narrando os aspectos mais significativos da juventude e as diversas fases da vida até a tentativa de superação da doença. Não à toa, o autor ficou bastante ansioso pela publicação do romance. Se evidenciar da maneira como ele fez, expondo-se totalmente, não é para qualquer um. Personagens da vida real que fizeram parte da vida do escritor estão presentes na trama, e são importantes porque mostram a evolução do homem, antes solto no mundo, se transfigurando em uma personalidade importante, mas com as marcas do passado. Esse passado que sempre está presente na consistente obra construída em mais de quarenta anos de carreira.

Raimundo Carrero nunca teve medo de revelar seus segredos literários, a composição das obras, através das concorridas oficinas de criação. Desmembrar os próprios livros é uma forma de generosidade sem igual, coisa praticamente impossível de ser feita por diversos outros romancistas. O senhor agora vai mudar de corpo, de certa forma, é um ponto de virada na vida do escritor pernambucano, representando muito no sentido humano, artístico, pois carrega consigo o profundo da alma, da misteriosa alma que nunca se esgota completamente para o criador. Se Tangolomango, romance escrito logo após o AVC, representou a superação física e intelectual de Carrero, esse novo livro atravessa a barreira da literatura, tornando-se algo palpável, não apenas metafórico da ficção, levando ao limite a inquietude do espírito que se transpõe para o papel em forma arte.

Ao final da leitura já não sabemos em qual mundo estamos, se o das ideias, ou mesmo o de carne e osso, verdadeiro, feito com sangue e dor. A cura através da arte não é mais uma hipótese, esse terreno fértil das muitas possibilidades, mas tangível, como só os grandes criadores conseguem alcançar. A literatura, dessa maneira, vai mudando cada um de nós, como uma varinha mágica, abrindo cortinas e lançando possibilidades até para quem não acredita em milagres. O senhor agora vai mudar de corpo é um livro da superação física, intelectual e da alma de um escritor que sempre busca a perfeição, e também a libertação das angústias e medos. Para isso, lógico, Carrero evocou personagens que ajudam na condução da trama: o homem gordo, o homem alto, mulher grávida, homem magro, o velho o e o anão. Além dele mesmo, que se coloca como O Escritor.

Ninguém sai da mesma forma que entrou após a leitura desse romance, como afirmou uma das editoras de Carrero nas redes sociais, pelo simples fato de nem todo mundo conseguir fazer essa investigação da própria vida, o acerto de contas com o passado, as escolhas e as incertezas como ele fez. A editora acertou em cheio na afirmação. A obra de arte literária deve instigar e fazer pensar, mudar de alguma forma o leitor, que buscar encontrar algum sentido no mundo através da literatura.

Ficar nu em praça pública, feito Tia Guilhermina, personagem principal de Tangolomango, não é para todos. Se desnudar não deve ter sido nada fácil, mas comprova que Carrero é mesmo um personagem de si mesmo. Um grande personagem da nossa literatura. A prosa no livro é fluída e sincera, sem exageros ou proselitismo. É realmente um livro para ser lido de uma única vez, por conta da forma empolgante do romance, é difícil deixá-lo de lado. O senhor agora vai mudar de corpo não é uma biografia, mas uma ficção que se apropria da realidade. Tanto é verdade, que um dos fatos interessantes da vida do escritor não foi inserida na obra, o tempo que ele passou internado numa clínica psiquiátrica. A realidade é difusa, e Carrero soube muito bem utilizar de alguns fatos verdadeiros e transfigurá-los. Sem contar que ele investiga não só a vida, mas de certa maneira, a própria obra, e também o lado religioso da sua existência. “A única decisão verdadeiramente correta e definitiva era a de construir uma obra literária, plena e absoluta, na qual os miseráveis tivessem voz, sem discurso eloquente de comício eleitoral”. E também. “ Lembra-se, num zás, de Ivan Karamázov, o poderoso personagem de Dostoiévski, dizendo com uma voz que não se ouvia, mas que se apresentava sincera e inesgotável: se você me provar por a mais b que Jesus Cristo não é a verdade, ainda assim fico com Cristo”. Cristo, inclusive, é o personagem do próximo romance de Carrero.

O Senhor agora vai mudar de corpo não pretende ser emotivo ou de ensinamentos sobre a recuperação do AVC. Não é isso. A obra é um acerto de contas com a vida, ou talvez a vida passada a limpo entre linhas e palavras. A vida que se transforma em arte, fazendo do criador um imortal. Raimundo Carrero pode se orgulhar de ser um desses desbravadores da alma humana e do mundo, capaz de se desnudar por inteiro da forma como se desnudou. É a vida transformada em arte, a arte que modifica a vida. Mérito que apenas os grandes escritores conseguem alcançar.

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