Romances policiais aquecem o mercado nacional

Por Ney Anderson

Se existe um gênero que parece não sair de moda entre os leitores sem dúvida é o policial. Basta acessar os sites das principais editoras do país para conferir a grande oferta de romances do tipo, escritos por autores de várias partes do mundo. Apenas como exemplo, o escritor de maior sucesso no Brasil em 2014 foi o carioca Raphael Montes, que publicou pela Companhia das Letras o thriller Dias Perfeitos. Romance que em está fase de roteirização para o cinema, e publicado em diversos países (você pode ler a entrevista com o autor clicando aqui). O livro de Montes já vendeu 15 mil exemplares, o que é bastante para o mercado brasileiro. A paixão pelas histórias de crimes é algo difícil de explicar, e parece não dar sinais de chegar ao fim. Basta conferir os canais de TV por assinatura para confirmar isso. São diversas séries de sucesso sobre o tema e outras dezenas que não param de ser lançadas, sempre com altos índices de audiência. E ainda tem os filmes que lotam as salas de cinema. Aliás, muitos romances policiais são adaptados para as telonas todos os anos.

Na literatura o cenário não é diferente. O ano passado deve ter sido o de maior quantidade de títulos lançados no estilo policial, tanto de jovens autores ou de nomes consagrados, que se aventuraram pelo gênero criado por Poe, e continuado com nomes importantes com Conan Doyle, Dashiell Hammett, Patrícia Cornwell, Patrícia Highsmith, P.D James, Sidney Sheldon, Raymond Chandler, Georges Simenon e Agatha Christie. Os três últimos estão tendo a obra relançada pelas editoras Alfaguara, Companhia das Letras e Nova Fronte, respectivamente, desde 2014. Nomes consagrados na literatura do país, que nunca antes havia publicado livros policiais, se aventuram nessa campo. Como é o caso de Salim Miguel, que publicou pela editora UFSC o romance “Nós”, o primeiro de sua vasta obra, aos 91 anos de idade.

É fato que a pouca crítica especializada existente nos jornais ainda torce o nariz para esse segmento literário, com a justificativa de não se tratar de literatura de qualidade, e sim de simples entretenimento. No entanto, muitos autores estão buscando cada vez mais criar enredos de suspense que tenham valor literário, como por exemplo Luiz Alfredo Garcia-Rosa, que lançou recentemente o ótimo Um lugar perigoso, outra aventura com o delegado Espinosa, onde a linguagem, o jogo de palavras e o xadrez narrativo da obra, nos coloca no xeque-mate entre entretenimento e qualidade artística.

Lógico que nem todos conseguem a mesma proeza, mas em boa parte dos casos, o que se percebe é o cuidado do escritor em apresentar não apenas mais um livro policial, com tramas e sub-tramas, assassinatos, etc. Não é difícil entender isso quando se ler A forma da sombra, de Fernando de Abreu Barreto, que teve o cuidado na elaboração do romance, para entregar ao leitor um livro muito bom de ser lido. No último ano vários autores lançaram suas obras policiais, caso de Patrícia Melo, Tony Belloto e Rubem Fonseca, o principal nome do país no gênero. Mas também autores internacionais como Jo Nesbo, Patricia Cornwell, Scott Turow, e o escritor suíço Joel Dicker, que lançou A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, houve uma mesa dedicada ao tema, com o sugestivo título “De frente pro crime”, que trouxe os autores Leonardo Padura, de Cuba, e Sophie Hannah, do Reino Unido, para discutirem a história da literatura policial. Ambos tiveram diferentes visões sobre o romance policial. Até J.K. Rowling, conhecida pela série Harry Potter, resolveu entrar nessa área, sob o pseudônimo Robert Galbraith, e vai lançar o terceiro livro ainda este ano. Aliás, 2015 marca os 85 anos da morte de Arthur Conan Doyle e da publicação de O Falcão Maltês, livro icônico de Dashiell Hammett, com o detetive Sam Spade.

O gênero policial sempre foi tido como literatura de massa, pois vários deles estão presentes nas listas de best-sellers, atraindo a atenção principalmente dos jovens leitores, e historicamente, eram vendidos primeiro em bancas de jornal, com papel de baixa qualidade. Talvez venha daí essa implicância que separa a literatura policial e literatura culta.  É muito fácil dizer também que os romances policiais são escritos de forma direta, linear, sem “qualidade” artística. Da mesma forma que é um clichê falar que os romances policiais são puro entretenimento. Mas qual literatura não é? Essa afirmação cai por terra quando se observa os autores que já produzirem livros de mistério. Basta uma simples pesquisa para descobrir que Machado de Assis, considerado o maior escritor de todos os tempos no Brasil, já escreveu histórias policiais. Lima Barreto, João do Rio e Olavo Bilac também. Outros nomes da chamada alta literatura já se aventuram pelas histórias de mistério, como Albert Camus, Borges, Rulfo, Hemingway, Faulkner e Umberto Eco, que ficou marcado pelo O nome da rosa, romance policial histórico. Até Patrícia Galvão, a Pagu, musa do modernismo, se aventurou pela atmosfera policial. A questão então muda de figura quando estamos falando dos grandes nomes da história da literatura mundial.

Raphael Montes é o novo prodígio do romance policial no Brasil

O que acontece em boa parte dos casos é a fórmula simples utilizada por muitos autores, sem a preocupação com a linguagem, objeto central no trabalho ficcional. No entanto, é possível unir a linguagem trabalhada de forma cuidadosa (não estamos falando de rebuscamentos desnecessários), com boas tramas, cenário e diálogos bem construídos. Os livros de Marçal Aquino, por exemplo, são provas disso. Marçal trabalha exatamente tendo cuidado com a linguagem, da mesma forma que Mario Prata e Luís Fernando Veríssimo, com o engraçado personagem Ed Mort.  Esses autores produzem, portanto, uma literatura que pode ser classificada como de massa, mas ainda como “alta literatura”. Aliás, essas classificações estão bastante defasadas. O importante é saber: é bem ou mal escrito? E se o autor preocupa-se com o romance enquanto obra, não apenas passatempo para uma estação e outra do metrô. Muitas vezes o leitor tem a sensação de estar lendo um livro maior, que por acaso envolve mistérios e resoluções de crimes, quase como um grande detalhe no texto policial, como O nome da rosa, de Umberto Eco.

É verdade que existem muitas fórmulas para a construção dos livros de gênero. Principalmente um crime com vários suspeitos, ameaças anônimas e jogos perigosos ou uma trama que envolva complexa rede de intrigas e reviravoltas. Mas é quase impossível escrever longe da sombra dos cânones como Edgard Allan Poe, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, George Simenon, Dashiell Hammett e alguns outros. Justamente porque essas pessoas construíram histórias que atravessaram gerações, por ter algo a mais nos romances. Agatha, por exemplo, é a autora mais vendida e traduzida do mundo, com mais de dois bilhões de exemplares vendidos, de acordo com o Guinness Book. Simenon é outro caso de sucesso atemporal, com vendas semelhantes aos de Christie. Ele, inclusive, é considerado um dos maiores escritores do século passado, não apenas do gênero policial, num período considerado de ouro na literatura de mistério. Por isso que não é difícil encontrar semelhanças entres os autores atuais e os clássicos. Lógico que muitos dos jovens autores bebem dessas fontes, várias vezes até imitando. Mas não é regra geral.

A seguir, confira o comentário de alguns lançamentos do último ano no Brasil.

A verdade sobre o caso Harry Quebert – Joël Dicker – Intrínseca

Esse foi um dos romances policiais mais aclamados de 2014 internacionalmente. Na trama escrita pelo suíço Joël Dicker, Marcus Goldman, um escritor que não consegue escrever o segundo livro, vai buscar ajuda no seu mentor, o também escritor Harry Quebert, que vive numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Depois do estrondoso sucesso do primeiro romance, Marcus está sem ideias e bastante pressionado pelo agente e o editor, que estão em busca do segundo sucesso do escritor. É nesse momento que Dicker faz uma crítica negativa ao mercado editorial americano, e a imprensa, que pode ser também o de qualquer outro país, incluindo o Brasil.

Foto: Jeremy Spierer

Harry Quebert é um escritor também célebre, que teve o romance de estreia alçado ao patamar de clássico, e que desde então se tornou uma personalidade internacional. Diferentemente de Marcus, ele publicou vários romances e tornou-se referência na literatura do país. O que acontece a seguir é a descoberta dos restos mortais de Nola Kellergan, uma menina desaparecida há trinta anos, com os originais do livro de estreia de Quebert no gramado da casa dele. O escritor é preso e tenta provar sua inocência. Então todos ficam sabendo que o autor teve um caso com a garota, menor de idade na época do desaparecimento. Toda a cidade fica chocada com a notícia, mas o único a acreditar em Quebert é justamente Marcus Goldman, que faz sua própria investigação para descobrir a verdade sobre a morte de Nola.

A verdade sobre o caso Harry Quebert é interessante na proposta, mas se perde nas 576 páginas, que poderiam funcionar melhor se fosse a metade. O problema é que boa parte do livro recai para um didatismo raso sobre como escrever um livro, com dicas batidas e sem profundidade. “O primeiro capítulo é o essencial. Se os leitores não gostarem dele, não vão ler o resto do livro”, ou então: “Um texto nunca está bom, mas há um momento que ele está menos ruim do que antes”. E ainda: “Escrever ou lutar boxe é praticamente a mesma coisa. Ficamos em posição de guarda, decidimos nos lançar à batalha, erguemos os punhos e investimos contra o adversário. Um livro é nem parecido com isso. Um livro é uma batalha”. Isso atrapalha bastante o romance.

Além disso, Dicker constrói várias histórias paralelas, mostrando todos os ângulos para o leitor. Voltando trinta anos no tempo em forma de flashback, narrando os acontecimentos que levaram o desaparecimento da garota Nola. Mas são muitas as vezes que essas voltas acontecem, tornando a leitura enfadonha em boa parte dos casos. No final das contas não resta dúvida alguma em quem ler, pois tudo foi entregue de bandeja, não exigindo esforço nenhum da parte do leitor. Outro erro da obra, em não deixar o gosto da dúvida, ou uma pontinha solta na história. Seria muito melhor se o autor optasse por contar apenas a história, que é bastante interessante, e não misturar dicas de escrita criativa, longos flashbacks, e a quantidade absurda de personagem. Ainda assim, é bom observar que Joël Dicker tem fôlego literário e boas ideias, mas que não usou da maneira incorreta nesse romance.

Betibu – Claudia Piñeiro – Verus Editora

Se no romance citado anteriormente o pecado foi a quantidade de dicas clichês sobre a arte de escrever, nesse Betibu, da escritora argentina Claudia Piñeiro, o efeito é justamente o contrário. O romance gira em torno de dois assassinatos. O primeiro da esposa do empresário Pedro Chazarreta, e o segundo do próprio empresário, três anos depois da morte da mulher. Ambos no condomínio de luxo La Maravillosa. Ele que havia sido acusado de matar a esposa inicialmente, foi inocentado por falta de provas. E agora com o empresário morto surgem novas pistas e dúvidas sobre os dois crimes. É a partir disso que o jornal El Tribuno, um dos principais do país, resolve colocar dois repórteres, Jaime Brena e o novato, e a escritora Nurit Iscar, para investigar o caso. Nurit, ou Betty Boop, está em crise criativa, mas aqui os dilemas da personagem são bem construídos, mostrando como é um escritor que não consegue produzir sua ficção. Ela é contratada para se hospedar no La Maravillosa e escrever artigos sobre a rotina do lugar e as coisas que, junto com os companheiros, vai descobrindo sobre os crimes. É uma forma irônica em colocar uma escritora em crise criativa, escrevendo sobre algo que ela não sabe direito o que é. Quase como o próprio processo de escrita da ficção. Isso, contudo, não atrapalha em nada o andamento narrativo.

Foto: Alejandra López

A mesma coisa acontece com os dois jornalistas. No meio da investigação existe espaço para críticas, ironias e conselhos sobre o jornalismo, vinda, lógico, de Jaime Brena, o repórter experiente ao novato. “Precisa ler tudo o que puder, tem de ler, para abrir um pouco essa cabeça. Não tenho tempo, às vezes nas férias leio um pouco de não ficção. Encontre, o tempo, encontre, e leia ficção. Se quiser ser um bom jornalista, precisa ler ficção, rapaz, não houve nem há nenhum grande jornalista que não tenha sido um bom leitor. Isso posso lhe assegurar”.  E ainda. “Sabe qual é o seu problema, rapaz?, muita internet e pouca rua. Um jornalista é feito na rua……E saia um pouco do computador, tanto Google está te fazendo mal”. E sobre o próprio método de trabalho. “Ali, ele anota dia a dia o que falou e com quem. Por via das dúvidas, se alguém se queixa, se perguntam de onde tirou alguma informação. Para se proteger”.

Além de várias pitadas de ironia sobre o momento atual do jornalismo. “Hoje já mandou uma nota sobre churrascos. Essa é hoje sua missão como jornalista depois de quarenta e tantos anos de trabalho. Sente desprezo. Não sabe se desprezo por si próprio ou por essa coisa estranha na qual se converteu a profissão. Sua profissão”.  O repórter velho que está jogado em seções sem importância, esperando apenas a aposentadoria. Enquanto jovens, que pouco leem, ou apuram as notícias da forma certa, tomam os lugares de destaque dentro do jornal. Betibu é uma espécie de manual ficcional do jornalismo. Onde ainda são inseridas as matérias, notas e artigos produzidos pelos três personagens sobre a investigação dos assassinatos. E o melhor, todos com estilos diferentes, como um periódico de verdade. .

Claudia Piñeiro soube dosar todos esses elementos de forma realmente interessante. E ainda por cima com boas reviravoltas sobre os assassinatos, e sem cansar o leitor. Betibu não cai no lugar comum das narrativas desse tipo. É portanto um bom romance policial, fiel à sua proposta.

Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam – Marcelo Ferroni – Companhia das Letras

É na tradição dos crimes de quarto fechado que se apoia o romance Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, do escritor Marcelo Ferroni, quando um personagem é morto em determinado cômodo trancado por dentro. Arthur Conan Doyle é um dos principais representantes desse tipo de narrativa. A sinopse do livro traz Humberto Mariconda, um frustrado escritor (mais um), que tem um livro publicado (A porrada na boca risonha e outros contos) sem reconhecimento algum, enquanto outros amigos da mesma geração conseguem certo sucesso. Ele fica procurando nos jornais uma notinha sobre o seu livro, mas nunca encontra nada. Até que conhece Júlia Dasmaceno por acaso, num jantar, e fica atraído por ela. Uma mulher que parece não gostar muito de Humberto, o tratando de maneira superficial. Mas mesmo assim o convida para um final da semana na fazenda Santo Antônio, que pertence à família dela, uma casa de veraneio. O local logo se mostra inapropriado para o escritor, por conta das várias brigas e desentendimentos entre os familiares. Um ambiente de fato hostil.

Foto:Bel Pedrosa

A reunião não é nada amistosa, todos estão ali por conta da própria ganância. O patriarca da família, Ricardo Damasceno, é obcecado pela bela casa, em constante restauração, e sua história secular. Mas nem isso é capaz de conter os ciúmes e invejas dos parentes. O assassinato não acontece rapidamente, Ferroni vai nos mostrando que tipo de família é aquela, obcecada por status e dinheiro, mesmo estando em decadência. São filhos, cunhados e noras que não se entendem.É só depois de várias páginas, quando um temporal está caindo, que uma morte acontece, e todos viram suspeitos.

Marcelo Ferroni soube trabalhar com o suspense, e utilizou de muitas artimanhas para isso. Seu material de trabalho é vasto, de quem realmente entende do que está falando. Principalmente na parte da pesquisa para criar um crime de quarto fechado, já que existem histórias de antepassados e dos escravos que trabalharam no local. Muita gente da família acredita que vários escravos foram emparedados naquele lugar, dando um tom mais sombrio, quase sobrenatural, na trama.  A ideia de levar a história para uma propriedade no meio do mato foi bem sucedida, ainda mais porque a casa tem papel central no desenrolar da trama, uma personagem chave em todo o mistério.

O livro é bem estruturado, com ótimos diálogos, essenciais nesse tipo de romance. Mas a história dos antepassados é um pouco enfadonha, quebrando o ritmo em diversas narrativas. O título é uma joia a parte, que dialoga com o espírito do livro.  São muitos os personagens no enredo, e as vozes se misturam na narrativa, dando um clima de thriller e suspense. E existe também um narrador onisciente. Justamente para enganar o leitor de quem é realmente o assassino. Mas o culpado só é revelado no final, como nos bons romances do gênero.

Marcelo Ferroni ganhou em 2010 o prêmio São Paulo de Literatura como autor estreante, pelo livro Método prático de guerrilha. Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, é o segundo romance publicado por ele, que também é editor da Alfaguara. Mesmo com alguns deslizes, ele mostra maturidade como escritor. Se Humberto Mariconda não alcançou muita coisa com A porrada na boca risonha e outros contos, seu criador, Marcelo Ferroni, conseguiu criar um bom romance policial.

Nós – Salim Miguel – Editora UFSC

Foto: divulgação

Salim Miguel tem mais de 30 livros publicados, mas a novela Nós é o primeiro do gênero policial de sua extensa obra. Natural de Santa Catarina, só agora, aos 91 anos, ele resolveu publicar um livro que envolvesse a resolução de assassinato. Podemos dizer que nesse texto está presente aquilo que Poe chamou de nocautear o leitor. Ou seja, em pouco mais de 80 páginas, Salim criou um universo bastante particular, que culmina em desfecho aberto. Os personagens, por exemplo, não têm nome próprio, apenas  são identificados pelos pronomes (Eu, Tu, Ela, Ele). Em brevíssimos capítulos, o escritor vai apresentando esses personagens, todos anônimos, que acabam envolvidos num crime. E os nós são difíceis de serem desfeitos.

Em capítulos breves, o autor apresenta um a um os personagens. O livro pode ser lido rapidamente, sem maiores problemas. As referências literárias são muitas, mas o que chamou atenção foi o tom obscuro, com pegada noir, que agrada o leitor do gênero. Salim sabe trabalhar muito bem o andamento da prosa, com as palavras escritas de maneira correta, e com bons personagens. Até o sentido de tempo na obra é subjetivo, pois nunca se sabe ao certo quando está acontecendo determinado fato. É uma obra de rápida leitura, mas não é rasa, justamente pelos jogos de palavras que o autor impõe. Como ele mesmo diz em determinado momento. “A palavra é o núcleo central de tudo, tem som, tem sabor, tem cheiro, tem cor”, é nela que reside a força dessa novela, e nos deixa no final cheio de dúvidas, como um bom romance policial deve ser.

Um lugar perigoso – Luiz Alfredo Garcia-Roza – Companhia das Letras

Luiz Alfredo Garcia-Roza é um dos principais nomes do gênero no Brasil, com outros dez livros publicados, ele vem conquistando cada vez mais leitores com seus suspenses bem pensados. Garcia-Roza desde o primeiro livro, O silêncio da chuva (prêmios Nestlé e Jabuti de Literatura em 1997), resolveu colocar o delegado Espinosa para elucidar os crimes. Aliás, o escritor carioca ambienta sempre as histórias em Copacabana, e Espinosa é um tipo de detetive culto, que lê muito e mantém hábitos discretos. Ele trabalha na 12ª DP no Bairro Peixoto.

Foto: divulgação

No recente livro, Um lugar perigoso, o professor Vicente se depara com uma lista cheia de nomes de mulheres. Mas ele não sabe quem são aquelas mulheres, embora tenha sido escrito por ele mesmo, conforme reconhece na própria caligrafia. O professor tem problema de memória, por isso foi afastado da universidade na qual dava aulas, sobrevivendo apenas das traduções que realiza em tempo integral. O livro que ele está traduzindo, inclusive, é uma reunião de contos de Edgar Alan Poe. É uma rotina bastante metódica, e que não deixa espaço para muitas coisas além disso. Mas quem são aquelas mulheres? Ele se pergunta.

O problema dele é uma doença chamada Síndrome de Karsakoff, que faz o paciente perder parte da memória, e em muitos casos, como acontece com o professor, misturar memórias antigas com recentes, causando uma grande confusão nele. Ele nunca sabe se as coisas aconteceram mesmo ou são frutos de sua imaginação, mas começa a acreditar de fato que fez alguma coisa com todas aquelas mulheres. Principalmente por causa de uma imagem recorrente que fica aparecendo em seus devaneios, de uma mulher nua, sem rosto e morta.

Garcia-Roza se utiliza muito bem da psicologia do personagem, sendo o autor profissional da área e também formado em filosofia, apresentando de forma ímpar toda a perturbação do professor Vicente. É por conta dessa confusão mental que o professor pede ajuda do delegado Espinosa, para ele tentar descobrir o paradeiro das mulheres listadas, e se existe um crime de verdade. Nessa décima primeira aventura do delegado Espinosa acontece algo curioso. Não existe um corpo, crime ou pistas para a solução, mas o autor consegue levar a curiosidade até a última página, justamente por ter se utilizado da suposição de um assassinato. Não é à toa que o autor tenha sido o responsável por dar fôlego ao gênero e ainda prova que tem muitas cartas na manga. E o título é bastante preciso: um lugar perigoso, o da mente humana.

A forma da sombra  –  Fernando de Abreu Barreto – Editora Caligo

Dos livros que chegaram ao Angústia Criadora, a surpresa mesmo ficou por conta do romance A forma da sombra, estreia do autor Fernando de Abreu Barreto, que já se mostra uma voz consistente na ficção de suspense brasileiro. Imagine uma pessoa que não tem amigos e não é chegado aos colegas de trabalho. Pode parecer com muitas das pessoas que nos rodeiam, aquelas que são mais reclusas e de pouca conversa, chamadas popularmente de antissociais. É exatamente assim o personagem principal desse livro. Um homem que é condutor no metrô do Rio de Janeiro, e quase não fala com ninguém. Apenas o essencial. Ele é uma figura estranha, com hábitos poucos usuais, que prefere ficar nos túneis conduzindo o metrô, inclusive nos dias de folga. Esse homem, que nunca tem o nome revelado, mora num pequeno apartamento alugado, com as janelas todas pintadas de preto.

Foto: divulgação

Mas ele não é apenas antissocial, e sim um assassino, facilmente classificado como psicopata, pois não carrega culpa alguma nos crimes que comete. Na verdade ele “sobrevive” das mortes, matando as vítimas com mordidas. Lógico que ele poderia ser entendido como um vampiro, mas nem ele mesmo sabe o que é. Ele, que é o narrador da história, vai tentando se compreender, e o leitor tem o privilégio de “entrar” na cabeça de um criminoso. É possível entender a psicologia do assassino, através dos atos covardes mas, para ele, de pura sobrevivência. Em meio a tudo isso surge a figura do detetive, que passa investigar a morte do supervisor da Companhia Metroviária do Rio de Janeiro, desconfiando sempre do protagonista, por conta da sua forma peculiar de ser. Começa então um jogo de gato e rato, carregado de tensão.

Fernando de Abreu Barreto acertou em fugir do clichê da cidade maravilhosa para ambientar a trama. Ele poderia cair na armadilha pelos cenários do Rio de Janeiro tão usados para tudo. Ao invés disso resolveu mostrar uma cidade por outro ângulo, bastante sombria até, para combinar com o personagem. É curioso como a história é “visual”, onde percebemos a forma da sombra, tão bem elaborada nesse ótimo romance. É verdade que a trama nos passe uma sensação de déjà vu em alguns momentos, mas a qualidade do texto é inegável, de claro valor artístico enquanto obra literária. É um livro que vai agradar não apenas os leitores de suspense e policial, mas todos que gostam de boa literatura.

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