Carola Saavedra analisa a ficção em romance metaliterário

Foto: divulgação
Foto: Eduardo Montes-Bradley

Por Ney Anderson

Se for perguntado para os críticos do Brasil qual a marca da geração de ficcionistas surgida na virada dos anos 2000, a maioria vai dizer que é a preocupação com o aspecto urbano, onde personagens estão nas grandes metrópoles buscando autoconhecimento. Em boa parte dos casos, a cidade ocupa um papel de destaque nas histórias, quase como um personagem que vai desenhando toda a trama.  Eu diria ainda que locais apertados e pouco iluminados servem como clima perfeito para os dilemas de uma vida quase sem futuro ou esperança. Isso, no entanto, não é uma crítica negativa pelas opções dos autores. O que acontece é uma enxurrada de livros onde tudo isso já foi exaustivamente explorado, acabando com o encanto do leitor. É possível dizer também que outro aspecto dessa geração é o amor pela metaliteratura, com escritores-personagens, na maioria com bloqueio criativo, protagonizando diversas obras. Se percebe uma clara busca pelos segredos da ficção, de entender como acontece a “mágica” criativa. Lógico que existem mestres nisso. Como o espanhol Enrique Vila-Matas e o chileno Roberto Bolaños.

Essa procura, por vezes, é a responsável por romances que não dizem nada. Nem uma coisa, nem outra. Ficam no meio do caminho da incompreensão. Na ficção qualquer coisa pode ser feita, não tem certo ou errado. Muito menos temas que não podem ser abordados. Essa é a graça. O que existe são livros bons e ruins. Ponto final. Qualquer tema, repito, pode ser escrito. Vai valer,claro, se o resultado final for satisfatório. É nessa linha que se enquadra O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra, publicado pela Companhia das Letras. O romance tem justamente a metaliteratura como mote principal. O Inventário tem um texto incomum, que encanta logo de cara pela proposta ousada. O livro é dividido em duas partes: Caderno de anotações e Ficção. A primeira é uma espécie de rascunho para a história principal, mas de uma forma fragmentada. Nada é totalmente explícito no jogo de palavras proposto.

Talvez a construção dos personagens fique mais aparente nesse primeiro momento. São muitas vozes que comandam as “anotações”, por isso é difícil entender até onde a autora tenta levar a ousada e radical metaliteratura imposta nas páginas do Inventário. Aliás, esse é um título que diz muito da sua poesia, até mesmo pelo uso elegante da linguagem, com as palavras escolhidas com cuidado. Acompanhamos a chilena Nina, uma mulher criada por uma pai ateu, mas que convive (ou conviveu) com o avô fanático religioso. Enquanto o pai ensina a filha a jogar xadrez para ter uma pensamento lógico, o avô sempre fala das passagens bíblicas para ela. Até esse ponto tudo parece não ir para um lugar definido, mas é quando acontece o ponto de virada. Nina entrega para o narrador, que está escrevendo a história principal, dezessete diários contando sua vida nos últimos cinco anos. Ela deixa essa espécie de Inventário do passado com o rapaz enquanto faz uma longa viagem. Um inventário das coisas ausentes. É nesse ponto que a memória assume o controle da narrativa.

São os fragmentos da vida que servem como matriz para todos os acontecimentos seguintes, culminando na história principal, que é sobre a relação conflituosa de um pai, já perto da morte, e o filho, seu único herdeiro. É um livro, portanto, dentro do livro. Mas com a estrutura muito diferente de outras prosas contemporâneas. É um notável romance, não muito fácil de ser lido, já que Carola não entrega tudo de bandeja. A proposta é exatamente fazer o leitor pensar e entender como a ficção se desenrola na prática. Não apenas como puro entretenimento de banca de revista. Aliás, Carola não é uma escritora prolífica, daquelas que falam muito sem dizer nada. Muito pelo contrário, tudo parece ter sido feito no Inventário com pinça e lupa, de quem realmente se preocupa com os mínimos detalhes. Ela entregou um livro interessante na proposta, bom de ser lido, e com questionamentos que ultrapassam a barreira da ficção.

A autora teve seu primeiro romance, Toda terça, publicando em 2007. Depois dele vieram outros dois: Flores Azuis (2008) e Paisagem com dromedário (2010). Já ganhou o  prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti. O inventário das coisas ausentes é o seu quarto trabalho. Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão.

Carola Saavedra, que está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta, concedeu uma entrevista exclusiva para o Angústia Criadora. Ela falou como foi escrever esse novo romance.

ENTREVISTA:

Foto: Tomas Rangel
Foto: Tomas Rangel

ANGÚSTIA CRIADORA – O inventário das coisas ausentes é um livro com estrutura diferente. Primeiro um “caderno de anotações”, depois a “ficção”. No entanto, mesmo a ficção não é tão clara no sentido da história com começo, meio e fim. Esse risco fazia parte da ideia inicial na composição do romance?

CAROLA – Nem toda a ficção segue essa ideia de início, meio e fim, basta pensar em autores como Julio Cortázar, Laurence Sterne, Péter Esterházy, Roberto Bolaño, só para citar alguns dos meus preferidos.

ANGÚSTIA CRIADORA – A metaliteratura no livro é explícita. Muitos autores têm investigado o fazer literário dessa forma, na prática. No seu caso, como foi tratar dessas questões?

CAROLA – Veio naturalmente, me interesso pelo processo criativo, por questões como: como funciona a literatura, o que caracteriza o texto literário, quais são os limites do romance etc. O Inventário representa essa minha busca por respostas.

ANGÚSTIA CRIADORA – O escritor sempre anota coisas diariamente, pequenos detalhes que podem ser úteis no futuro. No livro ficou bastante evidente a importância desses rascunhos. Quando percebeu que o “caderno de anotações” poderia ter a sua própria dinâmica, se complementando, com o texto principal?

CAROLA – Quando comecei a anotar ideias para o Inventário. O caderno de anotações sempre foi parte do meu modus operandi, é minha forma de me aproximar do texto, da história. E ao começar a trabalhar no inventário pensei, por que não transformar o caderno, ou seja, o processo de construção do romance em parte do próprio romance.

ANGÚSTIA CRIADORA – Mesmo a segunda parte do romance funciona de forma fragmentada, com idas e vindas no tempo. É um livro narrado por múltiplas vozes, sob determinados pontos de vista. Até que ponto a memória dos personagens é fundamental para a lógica do livro?

CAROLA – A memória é a base de toda narrativa, e como ela é falha, tendenciosa, jamais conheceremos a realidade a que ela se refere. Essa é uma das ideias principais do livro.

ANGÚSTIA CRIADORA – O narrador do romance é masculino. Foi difícil encontrar o tom certo para escrever sob o ponto de vista de um homem?

CAROLA – Não. Às vezes um personagem feminino pode ser bem mais difícil, em Flores azuis, por exemplo, a mulher que escreve as cartas é tão diferente de mim que me exigiu um esforço muito maior de alteridade.

ANGÚSTIA CRIADORA – Você se incomoda com a classificação de gênero masculino e feminino na literatura?

CAROLA – Sim, me parece uma bobagem.

ANGÚSTIA CRIADORA – São muitas referências sobre o tempo e a morte, de forma fragmentada, no Inventário. O romance parece ir por um lugar desconhecido, até encontrar o caminho certo. É assim que funciona quando está escrevendo seus livros, ou esse foi mais um aspecto da criação que você tentou investigar?

CAROLA  – Justamente, esse é um dos vários aspectos da criação que eu quis investigar.

ANGÚSTIA CRIADORA – Em determinado ponto do livro o narrador diz que a história nunca acaba. Você acha realmente a ficção nunca acaba, que ela continua existindo mesmo depois do ponto “final”, ainda que de forma metafórica?

CAROLA – Ela continua existindo, e não falo de forma metafórica, ela continua no leitor, em sua memória, em sua forma de olhar para o mundo.

ANGÚSTIA CRIADORA – Em outro ponto do livro dois personagens discutem sobre a importância do livro. Enquanto um diz que os livros fizeram dele o que é hoje, o outro discorda, falando que os livros não têm essa importância toda. E você, concorda com qual personagem?

CAROLA – Eu acho os livros importantíssimos na minha formação, em grande parte, eles fizeram de mim o que sou hoje.

ANGÚSTIA CRIADORA – Seu romance tem uma linguagem bastante eficaz. Nada parece sobrar ou faltar. A linguagem é a sua principal preocupação no momento da escrita?

CAROLA – Num primeiro momento não, nesse início me interessa a história que estou contando, a voz do personagem/narrador. Depois, sim, quando a base já está pronta, começo a trabalhar a linguagem, e isso é o que mais demora.

ANGÚSTIA CRIADORA – Você já falou que o Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar, foi um livro importante para sua formação de escritora. Você entende a literatura como algo mais amplo, o espaço onde tudo pode ser permitido?

CAROLA – Claro, num romance tudo é permitido, desde que tenha qualidade.

ANGÚSTIA CRIADORA – O inventário das coisas ausentes também tem uma estrutura incomum. É uma influência direta de Cortázar? Guardando as devidas proporções, claro.

CAROLA – De Cortázar (talvez), mas também de inúmeros outros livros que li, a lista é imensa.

ANGÚSTIA CRIADORA – Na literatura brasileira, e até mundial, existe uma predisposição para os personagens escritores. Muitas vezes com bloqueio criativo. Essa é uma tendência, para tentar mostrar como funciona a ficção, ou apenas falta de criatividade em muitos casos?

CAROLA – Na literatura não há temas proibidos e não há problema algum em repetir determinado assunto, o que importa é como fazemos essa abordagem, como contamos essas mesmas histórias.

ANGÚSTIA CRIADORA – Você se considera uma escritora fora dessas definições?

CAROLA – Não sei, melhor deixar as definições para os críticos.

ANGÚSTIA CRIADORA – Você está entre as vinte melhores jovens escritoras brasileiras escolhidas pela revista Granta, além de ter recebido prêmios importantes, e ser finalistas de outros, ao longo da carreira. Como consegue lidar com essa responsabilidade?

CAROLA – Não me sinto responsável, o que me move é apenas o desejo de escrever.

ANGÚSTIA CRIADORA – Aliás, essas listas sempre causam polêmica. Concorda com os nomes que estão representados na revista Granta?

CAROLA – Toda lista é injusta, não tem jeito.

ANGÚSTIA CRIADORA – A literatura brasileira surgida no início dos anos 2000 vem fazendo uma ficção com forte apelo urbano, onde os grandes centros assumem um papel de protagonista em boa parte dos casos. Podemos dizer que essa é uma marca dessa geração?

CAROLA – Acho muito difícil falar do que está sendo feito agora, para isso é necessário certo distanciamento. O tempo dirá.

ANGÚSTIA CRIADORA – Você começou a publicar relativamente tarde, em 2007. Acha que existe uma urgência desnecessária por novos autores atualmente, que publicam cada vez mais cedo?

CAROLA – Não há certo ou errado, cada um sabe de si. O que é bom para um autor pode ser ruim para o outro, e vice versa.

ANGÚSTIA CRIADORA – Qual a maior dificuldade do autor nacional hoje?

CAROLA – Escrever.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *