Uma tarde com Gilvan Lemos

Por Ney Anderson No dia 19 de abril, de 2010, eu trabalhava no Aeroporto Internacional do Recife. Precisei resolver alguns assuntos no centro do Recife, especificamente na Rua da Concórdia. Saí de lá por volta das duas da tarde. Fui andando até a Camboa do Carmo, passei pela Rua das Flores, onde camelôs vendem jogos para internet e livros usados. Numa dessas bancas encontrei um exemplar usado do romance Morcego Cego, de Gilvan Lemos, editado pela Record. Atravessei para o outro lado da Avenida Dantas Barreto na intenção de esperar o ônibus para voltar ao trabalho. No ponto de espera existia um pequeno sebo, onde se destacava outro livro de Gilvan, dessa vez Neblinas e Serenos(Bagaço). Comprei no mesmo momento. Só podia ser um sinal. Pois sempre fui um admirador do autor. Sabia que Gilvan Lemos frequentava a Nossa Livraria, na Rua do Riachuelo, todos os dias. Só não sabia o horário. Resolvi, então, tentar encontra-lo pela primeira vez. Fui até lá na esperança de autografar os livros, e quem sabe conversar com o escritor. Infelizmente Gilvan não estava no local. A vendedora da livraria havia falado que geralmente ele chegava por volta da cinco e meia da tarde. Ela ainda me informou que Gilvan morava na Rua Sete de Setembro, área boêmia, que ia de encontro com a figura reclusa e tímida do escritor. Mas não sabia qual era o edifício. Errei na primeira tentativa. Fui de prédio em prédio perguntando se existia um morador com o nome de Gilvan Lemos. Já estava quase desistindo de encontrar o autor. Acertei depois de bons minutos de procura. Pedi para o porteiro ligar para o interfone do morador, dizendo que um leitor estava querendo autografar alguns exemplares dos livros dele. Gilvan prontamente pediu para me deixar subir. Fui acompanhado do porteiro, que no elevador falou que nem parecia que “Seu Gilvan” estava com mais de oitenta anos, por que, nas palavras do homem “ele era muito mais esperto do que eu”. Chegamos alguns segundos depois ao décimo segundo andar. Gilvan veio nos atender com uma camisa clara, desabotoada até a barriga, de bermuda, que mais parecia um pijama, e sandálias. Ficou surpreso com a minha inesperada visita. Perguntou no ato: “você é meu leitor? Tão jovem desse jeito e gosta dos meus livros?”, com a minha afirmação ele apenas fez uma expressão de incredulidade. Entrei no apartamento com uma sensação de alegria. Gilvan, sempre sorrindo, disse que poucos minutos antes um rapaz apareceu na porta cobrando uma dívida que ele não sabia do que se tratava. O que houve realmente foi um mal entendido, a pessoa que estava devendo ao tal rapaz era outro Gilvan. Sentamos no sofá da sala, ele acendeu um cigarro, o primeiro de vários que ainda iria fumar. Tirei os livros da bolsa, onde também estava Emissários do Diabo, sua obra prima, que eu estava lendo. Ele se mostrou surpreso, comentou que era raro ver um rapaz da minha idade interessado em literatura. Pude prestar atenção em alguns detalhes no autor, como os cabelos brancos, a pele marcada pela idade, os olhos atentos e o silêncio, de quem só fala realmente o importante. Conversamos muito sobre livros, escritores e os amigos em comum, onde o principal deles era Raimundo Carrero. Ele, inclusive, contou uma história engraçada sobre Carrero. Certa vez Gilvan foi chamado para ser o jurado de um prêmio do governo de Pernambuco. Carrero morava próximo de Gilvan nessa época, no centro do Recife. Um dia antes de sair o vencedor, Gilvan encontrou com ele por acaso e perguntou se estava concorrendo ao tal prêmio, Carrero disse que nem estava sabendo do prêmio. No final do dia a comissão julgadora sentou-se para decidir quem seria o primeiro lugar, na verdade só um ou dois livros interessaram ao júri. Gilvan já tinha seu escolhido. O livro escrito com pseudônimo era o romance Maça Agreste, que tirou em primeiro lugar. Um orgulho saudável de Carrero, que sempre gostou de realmente ganhar por merecimento e não por ajuda de amigos. Mas Gilvan quando leu a obra não teve dúvida, pois conhecia o estilo literário do amigo. Mesmo assim, desconfiando, ele deu o primeiro lugar “porque o livro realmente era bom e mereceu ser o vitorioso”. Gilvan me levou até seu escritório, onde a vista daquela parte da Boa Vista era sensacional. Sentou-se na poltrona que ficava por trás de uma robusta mesa de trabalho. O computador ficava em outra mesa, menor, e estava servindo apenas para ler e-mails, já que ele não escrevia ficção desde 2003, conforme relatou. “As ideias não aparecem, eu forço, forço e nada”. O homem que já havia escrito vinte e cinco livros de ficção estava sofrendo com o temido bloqueio criativo. O escritório estava rodeado por livros, cerca de quatro mil, com edições antigas e raras dos seus romances e de outros autores, recortes de jornais com matérias a seu respeito. Placas, certificados de homenagem e vários prêmios recebidos numa fase áurea. Ele também me mostrou os originais de todas as suas obras. A maioria datilografada e cheias de rabiscos e anotações. Fiquei emocionado por estar vivendo tudo aquilo, sendo conduzido pelo próprio artista na sua intimidade. Depois entendi que esse tipo de “invasão” só era possível com Gilvan, pois ele tinha um coração enorme. Deu para ter uma exata noção tempo naquele espaço com Gilvan. Um escritor bastante querido e amado no passado, que estava esquecido pelas grandes editoras e pelo público. Atualmente ele era praticamente um anônimo. Fiquei admirado das coisas que Gilvan falou para um recém conhecido como eu, daquela maneira tão íntima e sincera. Disse que não entendia os novos escritores, por estarem escrevendo coisas sem sentido, desconexas. “Esses continhos de meia página que o Dalton Trevisan está escrevendo não me causa interesse. Gostava dos contos de antes, com cinco, seis páginas”. Falando da própria história, Gilvan disse não culpar só os editores pelo esquecimento de sua obra, mas ele próprio, que não soube aproveitar o bom momento no começo da carreira. O primeiro livro dele ficou empatado em segundo lugar com Osman Lins, que já era bastante conhecido no país. Gilvan disse que por várias vezes Osman o aconselhou a sair do Recife e ir para São Paulo ou Rio de Janeiro. Talvez hoje pela força da sua literatura, pelos personagens marcantes, se tivesse escutado o amigo, seria um nome aclamado na literatura Brasileira, um escritor disputadíssimo e dos mais vendidos e estudados. A nossa conversa prossegui por mais de duas horas no escritório, enquanto ligavam para o meu celular, da empresa em que trabalhava. Eu ainda era estudante de jornalismo. Fui presenteado por ele com alguns livros de sua autoria. Falei que era um escritor iniciante e pedi alguns conselhos, o primeiro que Gilvan Lemos me deu foi o de ser obstinado, que para ser escritor não adiantaria escrever só nos finais de semana, “escritores de finais de semana não são escritores”. Precisava criar uma rotina diária, escrever todos os dias, sempre, nos melhores e nos piores momentos da vida. Depois, quando percebesse que realmente o que estava escrevendo era realmente literatura, saísse do Recife, que tentasse a vida em São Paulo ou Rio de Janeiro, como ele mesmo deveria ter feito no passado. “Lá é muito mais fácil para um escritor viver de literatura”. Posteriormente enviei alguns contos para ele, que sempre me respondia com comentários verdadeiros. Já estava aproximando das cinco horas da tarde, ainda fomos até a janela da sala. Gilvan fez questão de mostrar o Recife lá do alto, uma linda vista, com todos os contrastes possíveis daquela parte do centro. Mostrou a foto dos pais e outra, muito antiga, de um time de futebol do qual fazia parte em São Bento do Uma. “Eu sou o único vivo nessa foto”. Dei um abraço no mestre e agradeci pela ótima conversa que tivemos. Desci no elevador com a sensação de ter vivido um grande e único momento. Outros encontros aconteceram, fiz entrevistas com ele para este site e para meu projeto de conclusão de curso. Mas aquele primeiro momento permanece até hoje na minha memória. Ali me tornei mais fã ainda daquele senhor de cabelos brancos e fala pausada, que usava a literatura para ser a porta voz do seu pensamento. A literatura, aliás, foi realmente a coisa mais importante que ele teve. A companheira fiel, que o acompanhou em todos os momentos. Encontrei diversas vezes com ele pelas ruas da Sete de Setembro, em frente da Nossa Livraria, e por diversos lugares do centro da cidade. Sempre eu fazia questão de pará-lo. Nessas ocasiões ele esquecia quem eu era, aí eu falava dos encontros e ele se lembrava. Gilvan vinha se queixando da perda de memória, principalmente de fatos recentes. Mas sempre quando nos encontrávamos era uma alegria, ao menos para mim, que o tinha, e tenho, como um dos meus heróis da literatura. É estranho passar atualmente pela Boa Vista sabendo que Gilvan não existe mais. Ele se foi de uma forma silenciosa, como a própria vida, deixando um enorme legado literário. Curiosamente nunca pedi para tirar fotos com ele, logo eu que gosto tanto de fotos. Coisa que fiz na exibição do lindo documentário Lemos, Gilvan, dirigido por Cida Pedrosa e Mariane Bigio, na chuvosa noite do dia 5 de junho, na Livraria Cultura. O auditório estava lotado para ver o tímido escritor, que ainda conversou com a plateia. No final fiz o pedido para tirar fotos com ele, que mais uma vez não lembrava quem eu era. Dessa vez não falei dos encontros, das entrevistas etc. Apenas tirei a foto e fiquei por algum tempo observando Gilvan no palco do auditório, conversando com algumas pessoas. Aquele meu ato, no entanto, tinha um motivo de ser, dessas coisas que a gente não sabe direito porque acontecem. Em pé, na saída do auditório, apenas olhava para o escritor. Ele estava realmente feliz pelo fato de tantas pessoas terem saído de casa para vê-lo. Aquele momento contrastava com o artista recluso, que tinha faltado a própria posse na Academia Pernambucana de Letras em 2012. De alguma forma, aquela noite de homenagem para um dos principais escritores do país, foi também uma despedida em grande estilo. Gilvan agora vive nos livros maravilhosos que escreveu, nos sonhos que tornou realidade.

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