José Luís Peixoto transforma o luto em arte

Foto:divulgação
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Por Ney Anderson

Talvez a maior dificuldade na hora da criação literária seja transformar em ficção aquilo que aconteceu de verdade. Principalmente pelo fato de que a literatura não é um mero documento. A tarefa deve ser mais árdua ainda quando essa realidade é sobre a ausência de alguém próximo, extraindo algum aprendizado disso. Para os artistas, no entanto, esses episódios servem, em boa parte dos casos, como matéria-prima para as próprias obras. A experiência do luto é pessoal, e cada pessoa supera de maneira diferente. Para um escritor que se debruça, e entende, sobre a própria condição no mundo, esses fatos até ajudam a formar a personalidade artística, que vai ser explorada até o fim da vida.

É o que acontece no livro Morreste-me, do português José Luiz Peixoto, editado lindamente pela Dublinense. Escrito em primeira pessoa, quase como um monólogo, o texto transmite uma sinceridade sem igual, quando o narrador da obra vai rememorando sua perda através de várias lembranças do convívio com o pai. O autor mostra como a morte não é apenas o fim, mas a passagem para outra realidade. A dor pela ausência de alguém é algo complexo demais de ser entendida, mas que Peixoto soube analisar tão bem. É um livro de um fôlego só, onde a memória serve como prestação de contas com o passado.

O que se percebe em Morreste-me é uma espécie de confronto não com a morte, mas com a vida, onde o sofrimento não pertence aos mortos. É assim que pode ser definida essa bela obra do escritor português, a dor que a morte provoca nos vivos. O livro foi publicado há quinze anos, só agora lançado no Brasil. Todo esse tempo comprova o pequeno clássico que o português criou, já que a história é atemporal e tem a força de comover pessoas nos países onde o livro foi publicado. Simplesmente porque o luto vai atingir todos um dia. Esse livro, no entanto, é despido de modismos e lugares comuns. É um trabalho delicado, porém forte, curto (apenas 64 páginas), porém denso.

A força dramática da obra é incrível. É a ficção misturada com a poesia certeira em cada palavra. O autor também é um grande poeta. Até o título, Morreste-me, é carregado desse simbolismo do luto. Ninguém morre sozinho, ainda que metaforicamente. Quem fica continua sob a sombra dos que já se foram, através dos várias elementos e situações que não se apagam, principalmente a memória. “Vi apenas, no negro dos cantos antes iluminados, o negro da tua falta, a dor sem fim que só se pode sentir. Procurei-te nos cantos da noite”. A morte teve papel determinante para José Luís Peixoto, que se tornou escritor justamente depois de escrever esse livro, poucos meses após a perda do pai.

O narrador da obra “conversa” com o pai que não existe mais. Uma conversa consigo mesmo para tentar entender o que não tem resposta. “E o negro de te chorarmos ali, sobre ti, como se houvessem lágrimas que pudessem conter o vazio que ficou dos gestos que não fazes, das palavras que não dizes, do olhar permanente que tinhas e já não podes ter…entraste na morte e já não podes voltar para me proteger…e já não podes voltar para mim, que te espero, que te amo”. É um livro emocionante do começo ao fim. Morreste-me foi traduzido para vários países. Depois da publicação desse primeiro livro, o autor lançou Nenhum Olhar, que lhe rendeu fama após conquistar o Prêmio José Saramago.

Esse trabalho de estreia é uma boa porta de entrada na produção de José Luís Peixoto, que já começou mostrando a que veio. Morreste-me é um desses poucos exemplos do que é literatura de verdade. O livro incomoda, emociona e nos fazer pensar sobre o nosso papel no mundo. É obra de arte que ultrapassa a barreira do tempo, permanecendo sempre atual.

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