Sidney Rocha extrapola os limites da linguagem em romance intenso

Foto: João Miguel Pinheiro
Foto: João Miguel Pinheiro

Por Ney Anderson

Logo depois de terminada a leitura de Fernanflor o que resta é uma enorme sensação de incômodo, que se aproxima da náusea. É muito difícil ler outro livro logo após o término deste romance. Isso porque a nova obra de Sidney Rocha trabalha com a linguagem em estado sublime, aquela que flutua, sem barulho ou ruído, onde nada mais importa. No sentido claro de construir a mais singela, e forte, ideia de arte. O que é mesmo a arte? Somos obrigados a pensar sobre isso durante a leitura desse romance, onde um hábil, e sofisticado, narrador, controla tudo e todos, mostrando onde está a verdadeira beleza, e porque não, o sentido da vida. Ainda que de uma forma metafórica. Jeroni Fernanflor é um raro personagem que serve como alegoria perfeita para esses dias sombrios.

O livro não é datado, existindo apenas para servir um determinado momento. Nada disso. Sua construção, no entanto, faz ele se situar em qualquer época ou lugar. Fernanflor existe para mostrar a poesia que pode haver em qualquer coisa, principalmente no ser humano, leia-se a mulher, que sempre é carregado de enigmas. O romance de Sidney não é para qualquer leitor, pois para lê-lo é necessário, sobretudo, maturidade. E silêncio. Bastante silêncio. Aliás, o livro é feito desses silêncios, não tão fáceis de serem compreendidos em sua totalidade. Algo se aproxima da solidão, como a própria vida do personagem Jeroni, que não se deixa ser amado, apesar das várias paixões.

Que tenta decifrar o mistério do mundo através da sua pintura, para tentar reconhecer a si mesmo em meio aos escombros que a vida oferece. Fica claro entender a opção do escritor em parar de publicar depois de concluída a trilogia Gerônimo, onde Fernanflor (Iluminuras) é o primeiro livro. Se para o leitor é difícil ler ou escrever alguma coisa logo após a leitura do romance, deve ser muito mais complicado para o criador desse audacioso projeto literário, que põe o encanto da linguagem em posição de contemplação. Jeroni tenta encontrar a beleza através da pintura, e Sidney Rocha procura decifrar, e entender, esse aspecto do personagem com a sua ferramenta de trabalho que é a linguagem. Sem concessões e amarras vamos sendo tomados por esse personagem inquietante, que extrapola as fronteiras literárias, como bem citou Lourenço Mutarelli no prefácio.

Talvez a maior perturbação que o romance provoque esteja no fato de ser uma obra de arte de altíssimo nível, trabalhada para permanecer por bastante tempo na imaginação das pessoas. Aquele tipo de obra que nos tira do lugar, desconforta, e que não somos capazes de elucidar. É como se Jeroni dissesse: “vejam o mundo pelos meus olhos”. O livro causa grande envolvimento. É impossível parar de ler. Não por conta de reviravoltas mirabolantes, como acontece nos best-sellers, mas por causar algo difícil de explicar, que ultrapassa os limites das páginas. Não se sabe realmente quem é Jeroni Fernanflor. Um personagem de várias faces e mundos, que se adequa tranquilamente em qualquer lugar. Um personagem (ou pessoa?) misterioso. Jeroni é solitário, apesar das várias mulheres que passam pela sua vida, e encontra refúgio apenas nos quadros que pinta. É um artista admirado, mas que ao fechar a porta de casa nada mais resta, apenas o objeto que lhe põe em evidência. Um ventríloquo que existe por conta da própria marionete.

Não é possível ler esse romance com pausas, pois o texto busca a necessidade de imersão ao universo de Fernanflor. Vai ser preciso ler os outros livros da trilogia para a espessa cortina de fumaça se desfazer, e esse personagem ficar um pouco mais claro. Sidney usa um recurso interessante durante a narrativa, os diálogos que se misturam com pensamentos e digressões. Esses diálogos são vozes que emergem de dentro do estado febril criador de Jeroni. Não chega a ser um solilóquio, muito menos monólogo, mas uma maneira original de colocar o personagem na situação de delírio e de confusão mental em alguns momentos. Basta uma mínima falta de atenção para que esse artifício não se complemente com todo o resto.

O livro é também uma enorme crítica aos dias de hoje, sem memória. Onde tudo se resume ao imediato, ao instantâneo que sacia a fome naquele momento e só. É uma crítica, principalmente, ao trabalho dos verdadeiros artistas, que são deixados de lado, ou trocados, por algo mais “palpável” e de beleza artificial. Basta apenas que esse artista morra para que toda sua obra deixe também de existir. O romance marca os cinquenta anos de idade de Sidney Rocha, que está indo para uma outra fase, que nem ele mesmo sabe qual é. A publicação de uma obra desse tipo não acontece por acaso. Não existe explicação lógica. Apenas comprova o enorme amadurecimento do autor e da obra como um todo. É preciso estar bastante preparado para escrever, e também para ler, um livro do porte de Fernanflor. Se não estiver, não se preocupe. Vai ser engolido do mesmo jeito.

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