Em Corpo Sepulcro, Mike Sullivan reflete sobre a decadência humana

Foto: divulgação
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Por Ney Anderson

Imagine uma pessoa apenas com a memória funcionando. Alguém que não fala, nem se move e não vê. No entanto, com todos os sentimentos, emoções e histórias intactos. O corpo em forma de prisão e castigo. É sob essa premissa que Corpo Sepulcro (Confraria do Vento), romance do escritor Mike Sullivan, é feito. Logo no começo somos apresentados ao personagem-narrador sem nome, que está em Londres por conta de uma bolsa de estudos para aperfeiçoamento do inglês. Algumas semanas antes de encerrar sua estadia que durou três anos no país, ele recebe uma ligação da mãe pedindo o retorno dele o mais rápido possível, porque não estava conseguindo cuidar do marido, vítima de um AVC. O rapaz volta e encontra uma casa quase vazia, cheia de silêncios e amarguras.

O personagem atravessa todas as páginas do romance amparado, ou amaldiçoado, pelas histórias trágicas nas quais tem envolvimento direto. Primeiro, com a irmã morta afogada por uma negligência dele próprio quando criança, depois o acidente vascular cerebral do pai, que nunca se perdoou por fazer a vontade do filho ocasionando na tragédia, onde o corpo de Dominique nunca foi encontrado. Essas coisas preenchem, da pior forma possível, seus dias solitários. E o melhor, dentro do Rio de Janeiro que não é nada maravilhoso nessa história.  O protagonista, no entanto, é um sedutor. Algumas mulheres, e homens, surgem para compor sua fragmentada vida amorosa.

Para conter o enorme vazio ele busca a saída justamente no sexo, da maneira mais depravada possível, e no abuso do álcool (principalmente vinho) e outros tipos de droga. Os movimentos do protagonista nas noites que perambula procurando algum divertimento têm algo de sujo, criminoso. Como se o ser humano servisse apenas para esse propósito. Quando ele percebe, por exemplo, um envolvimento emocional maior, verdadeiro, começa a se sentir incomodado, sem saber ao certo o porquê. Ele se depara com essa situação quando conhece Jasmine no dia enterro do pai. Ela é dona de uma pequena editora, e trabalhou com o pai do rapaz numa revista. A proximidade com a moça o ajuda profissionalmente, na tradução de alguns livros.

É justamente nesse ponto que uma virada acontece, pendendo um pouco para a metaficção, quando entra em cena o livro Orlando, de Virginia Woolf, que o protagonista recebe para traduzir, representando uma estranha identificação do personagem de Woolf com ele mesmo. Mas o romance de Sullivan é muito maior, não vai pelo caminho da ficção dentro da ficção. Ao mesmo tempo que recebe o romance da autora inglesa, sintomas de uma doença começam a aparecer nele. Uma doença neurodegenerativa pouco a pouco vai inutilizando seu corpo. O passado, portanto a memória, serve de substância necessária para o corpo continuar por um tempo exercendo sua missão. Sem o corpo não existiria nada. Por isso a ótima ideia do título.

A forma que Corpo Sepulcro foi escrito é muito interessante, bom de ler. Existe um trabalho de linguagem admirável, sem forçar a barra para mostra uma erudição desnecessária. O charme no texto reside nas palavras certas, bem escolhidas, como nesse trecho: “Quando só o que restava eram as cinzas, arrastei-me de volta à varanda tentando me equilibrar sobre meus passos trôpegos, mas parei ao avistar mamãe. A terrível imagem de mamãe, empunhando numa mão o cigarro e na outra um café fumegante, dando a entender que me observava há um longo tempo. Foi o que bastou para me trazer de volta à razão a sentença irrevogável de que jamais em toda a minha vida eu me libertaria do passado e das acusações. Mamãe, feito membro amputado, jamais se desvencilharia por completo do meu corpo. Nem mamãe, nem os cheiros”.

A impressão que Corpo Sepulcro passa é de que não é ficção apenas, mas a vida real transformada em arte até o limite. A mensagem do livro é sutil, quase invisível. Tudo acontece em outro tempo, não o nosso, nem do protagonista, mas um tempo próprio, ficcional. É um desses romances que tira o leitor do lugar, causa estranhamento e ao mesmo tempo identificação. O personagem central da obra é uma pessoa de verdade, preso em armadilhas emocionais. Por isso merece atenção, pois é feito de silêncios perturbadores. A morte está presente em cada linha desse livro enigmático, que é parte de um projeto maior com outras duas obras a serem lançadas nos próximos anos, denominados de trilogia da solidão.

Mike Sullivan não escreveu um romance para entreter, mas para usar a literatura como uma grande reflexão humana. Tudo acontece de forma impensada, na busca por prazeres inéditos e urgentes, narrado poeticamente num misto de encanto e brutalidade, deixando o leitor asfixiado em vários momentos. É um livro para gente grande, sem concessões. Existe um lirismo na obra, uma maneira de contar a história de forma muito própria. Sem amarras, o texto flui com tranquilidade, no entanto, com o peso da reflexão e dos questionamentos. É um livro duro e ao mesmo tempo emocionante. É impossível não se envolver com o narrador, que nos leva tão bem para conhecer sua triste história.

Através do seu protagonista, Mike Sullivan exibe um conhecimento incrível do ser humano, mostrando um homem encarcerado no próprio corpo, servindo apenas de máquina gasta, onde resta somente os sinais invisíveis da memória. Um personagem atormentado pelos mortos, conduzindo-o para um abismo misterioso. São quarenta e cinco capítulos, alguns curtos e curtíssimos, que já começa com a pergunta síntese da obra inteira: “O que há para além de uma sepultura corpórea?”. Só por isso já dá para ter noção das outras 218 páginas. São palavras sem medo, de um Escritor (com “E” maiúsculo) que realmente sabe o que diz.

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