Daniel Galera compõe retrato sentimental da geração pré-internet

Foto: Dilvugação
Foto: Dilvugação

Por Ney Anderson

Dono de uma prosa marcante na literatura brasileira, Daniel Galera volta com Meia-noite e vinte (Cia das Letras), romance que reflete os anseios de uma geração que fez parte do começo da internet, quando a tecnologia ainda era uma aposta para o futuro. A trama gira em torno de quatro pessoas: a bióloga Aurora, o publicitário Antero e o Jornalista Emiliano, que se reencontram em Porto Alegre quinze anos depois por conta da morte do amigo em comum Andrei Dukelsky, que foi assassinado durante um assalto. Duque, como Andrei era conhecido pelos mais íntimos, tornou-se um escritor de sucesso, após ter participado ativamente do fanzine digital Orangotango, boom nos anos 1990, onde os quatro se tornaram referência na webcultura. 

Emiliano, o mais próximo do escritor, recebe o pedido de um editor no dia do enterro para escrever a biografia de Duque imediatamente, para aproveitar toda a comoção pelo assassinato dele aos 36 anos, de uma forma banal, no auge da fama. O jornalista hesita, mas acaba aceitando, por estar desempregado e sem muitas perspectivas de futuro. Mas principalmente por achar que pode escrever algo digno sobre o amigo, justamente pela proximidade que eles tiveram no passado. Essa tarefa, no entanto, não é nada fácil. Duque se tornou uma pessoa reclusa, misteriosa, e não deixou muitas pistas sobre sua vida. Apenas escreveu os livros que fizeram certo sucesso. É justamente a capacidade criativa do autor que desperta tanta curiosidade entre os leitores e principalmente pelos amigos. Duque é claramente o mais talentoso dos quatro e também um dos principais escritores da geração dele, como fica claro no livro.  

Meia-noite e vinte se passa em janeiro de 2014, em meio a uma onda de calor na cidade, que enfrenta ainda a greve dos motoristas de ônibus. O clima de instabilidade é intensificado por protestos populares. O livro é narrado pelos três amigos de Duque em primeira pessoa, uma novidade na obra do autor. Cada um vai revelando o seu ponto de vista sobre o amigo recém falecido. Algumas dessas lembranças tentam nos apresentar quem realmente era esse artista peculiar: “Ele era o tipo de cara que poderia ter escrito um testamento aos trinta anos e imaginado a própria morte com todo o cuidado, de modo a tomar precauções”. Ou então, “O Andrei escrevia como um cara de cinquenta anos que tinha vivido várias vidas as ao mesmo tempo”.

O livro utiliza muitas dessas digressões, com flasbacks que tentam revelar o embrião, a gênese criativa, do escritor que Duque iria se tornar. Só mesmo ele alcançou o objetivo almejado pelos outros integrantes do zine online, que diz muito sobre os projetos e expectativas que se projetavam nos jovens para o novo milênio. Sobretudo, por conta do famoso bug que travaria os computadores no mundo inteiro na virada para os anos 2000. Cada um dos integrantes do Orangotango seguiu por caminhos diferentes. Menos um, que manteve vivo o projeto de vida. É preciso salientar que os quatro personagens são da mesma idade do Galera, com anseios semelhantes que ele mesmo disse ter nos anos 1990.

Os livros do Daniel Galera são sempre carregados de uma atmosfera pesada, composto por  densos conteúdos, quase sempre transitando entre o monólogo de alguns personagens e os rápidos, e certeiros, diálogos. Em Meia-noite e vinte o conteúdo, para além da história central, poderia ser mais profundo e enigmático para tratar desse tema. Principalmente por conta das sequencias de transformações e acontecimentos políticos e climáticos, que dão o tom do romance. Mas alguma coisa parece estar incompleta, o romance não se realiza totalmente.

Embora bem escrito, o livro se perde bastante na longa história dos outros personagens. Principalmente nas dificuldades que Aurora enfrenta na universidade para apresentar uma tese acadêmica. A biografia que Emiliano está escrevendo sobre Duque, objeto principal de Meia-noite e vinte, não dá conta de toda a complexidade do autor morto. Não se pode compreender, por exemplo, porque esse escritor é considerado um dos melhores de sua geração, como a história propõe. O romance se perde contando a vida dos personagens. É verdade que eles precisam ter história, mas extrapolou em diversos pontos.

Temos apenas algumas poucas mostras do processo criativo de Duque, como diz esse trecho: “Ele não gostava de fazer rascunhos ou esquemas. Digitava o texto somente quando já o havia elaborado em detalhes na imaginação. A primeira versão era a definitiva. Esse tinha sido um dos problemas, pois Antero queria fazer diagramas da trama e suas ramificações, criar fichas de personagens, listar conceitos relevantes, reunir jotapegues de referências visuais. Duque ficava calado, maquinando mentalmente”. Pequenas histórias do cotidiano do jovem autor tentam dimensionar o enigma em torno dele. Essas partes são as mais interessantes, mas também ficam no meio do caminho.

Duque escreveu três romances de sucesso: Morro do Osso, As tardes de excesso e Avatares, além do livro independente Duas histórias e uma curta. A investigação que Emiliano faz, no entanto, é tão rasa que beira o risível, principalmente para um jornalista com tanta experiência. O livro não é ruim, mas é apenas bom. Talvez com um pouco mais de cuidado, Daniel Galera pudesse entregar um romance próximo ao maravilhoso Barba ensopada de sangue, seu romance anterior, e um dos melhores publicados nos últimos anos no Brasil.

Meia-noite e vinte é um romance saudosista, escrito por um autor que se aproxima dos 40 anos de idade. E isso tem tudo em comum com a trama em si. Inclusive o Orangotango é uma inspiração direta com o zine Cardosonline, criado por Daniel Galera também nos anos 1990. A ficção nos mostra o deslumbramento que o sucesso do zine causou em todos os integrantes, se tornando parte importante na vida de cada um deles, mesmo com a carreira que eles resolveram seguir, bem diferente dos planos originais.

Se a geração hippie achava que mudaria o mundo com o “paz e amor”, a geração que iniciou a internet conseguiu justamente modificar pensamentos e criar perspectivas, amparada pelos milagres que a tecnologia começava a permitir. Galera tentou explorar esse saudosismo, utilizando um personagem-escritor que esteve próximo de se tornar realmente grande para a literatura nacional. Existem muitas referências ao universo pop da época, da música internacional, de filmes e da própria literatura, como os livros de Hilda Hilst, que marcaram toda uma geração de jovens que buscavam algo mais alternativo, longe do mainstream.

A prosa do autor nesse livro é vertiginosa. Acompanhamos os personagens por um prisma bastante elegante, original, como sempre é. Ele equilibra a trama central com aspectos pessoais de cada personagem, e vai mostrando como cada um chegou onde está. São personagens que têm história, embora em demasia, como já foi falado. É um livro que vai se sustentando nessa contradição entre a vida e a literatura. Sobre a importância que a arte tem para além da morte. Duque morre apenas fisicamente. Talvez tenha sido essa imortalidade que Galera quis decifrar, de uma geração que se achava imortal de verdade. É um romance sincero, que mostra o recorte de uma época, do início da tecnologia, ainda diferente de como estamos habituados hoje. Mas é importante dizer que o livro derrapa em algumas situações primordiais da trama.

No entanto, é interessante acompanhar um autor tão completo como Daniel Galera, que parece ter bastante fôlego narrativo para muitas outras obras. Ele sempre nos passa a sensação de que ainda há muito por contar e só na literatura existe a possibilidade real, da imersão total do pensamento crítico, dentro das várias possibilidades que a ficção permite, sem freios ou amarras. Embora Meia-noite e vinte não seja um dos principais livros da sua obra, traz um frescor interessante para a prosa contemporânea. Um respiro ficcional depois do caudaloso, e inigualável, Barba ensopada de sangue. Esse novo não soa datado na tentativa de falar de uma outra época. O livro pode até ser uma decepção para os leitores mais exigentes de Galera, habituados com obras mais trabalhadas como Cordilheira e Mãos de Cavalo. Mas para quem ainda não entrou no universo literário do autor, Meia-noite e vinte é um começo acessível.

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