Mário Rodrigues e a perversidade de um narrador sem nome

 

Foto: Helder Herik -Divulgação

Por Ney Anderson

O escritor Mário Rodrigues deve ter seguido à risca o que falou certa vez o romancista argentino Júlio Córtazar, quando disse que “o conto deve vencer por nocaute”, com a função de “derrubar” o leitor em poucos minutos. É bem por aí que caminha Receita para se fazer um monstro (Record), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016. Nessa reunião de contos curtos, é quase impossível que o leitor saia da leitura da mesma forma que entrou, pois são vários nocautes ao longo das 221 páginas.

Embora seja um livro de contos, com textos que podem ser lidos isoladamente, existe uma conexão entre todos eles. Principalmente por causa do narrador-personagem, que faz parte de todas as histórias. O livro começa com o protagonista ainda criança cometendo pequenas crueldades, até atingir o ápice da perversidade. São textos curtos, sem vírgulas, com desfechos rápidos, impactantes e carregados de uma incrível crueldade. É uma linguagem dura, seca e sem pausa. A violência não poupa nada, nem ninguém. Mas o protagonista faz questão de justificar as atrocidades que comete. Se é que é possível justificar alguma coisa.

É importante destacar o poder de síntese que Mário conseguiu realizar. Isso se dá muito por conta da proposta do livro, que leva o leitor pela mente doentia do narrador sem nome por toda a obra. Embora alguns contos partam de alguns costumes nordestinos, o autor foi bastante astuto não deixando os textos carregados de “sotaque”, o que poderia limitar bastante o livro. Nesse caso, o que acontece é justamente o contrário. Ele se utiliza de elementos locais, do lugar onde vive, e transforma em algo maior, universal. Tanto que venceu um concurso disputadíssimo em nível nacional, com 708 concorrentes.

O narrador de Receita para se fazer um monstro é alguém excessivamente ruim, que até uma fotografia da própria família reunida faz questão de queimar para não lembrar do momento feliz, que um dia ele possa ter tido. “E hoje acabo com a única lembrança física que tenho deles”. O livro é dividido por temas: Folias, Personas, bichos, fêmeas, natureza, Métier e DNA, ambientando nos anos 1980. É dessa forma que o “monstro” do título vai crescendo, através dos sofrimentos que o protagonista realiza com tanta brutalidade, e ao mesmo tempo, maestria.

O autor pernambucano criou um ser dúbio, genuinamente ruim, que não se considera assassino, mesmo tendo deixado isso bastante claro. Ele se define como alguém normal, que dorme como um bebê. Existe até um certo humor negro, uma ironia implícita pelo prazer de causar o mal. Como no conto A causa secreta, de Machado de Assis, o narrador de Receita para se fazer um monstro sente prazer com a desgraça dos outros. Da mesma forma que o personagem de Machado age silenciosamente, causando dor e morte, o desejo perverso do protagonista é sempre latente. Existe felicidade no protagonista com o sofrimento dos outros. Mesmo assim, ele mesmo tenta compreender a sua natureza, de como surgiu toda essa crueldade. Mas acaba chegando na conclusão de que é um “homem perfeito – exceto pela ausência de conteúdo”.

Mário Rodrigues tem um estilo próprio, ainda que dialogue com grandes outros autores, principalmente os que radicalizaram na forma curta e seca dos contos, caso de Graciliano Ramos, e com aqueles que encerram as histórias de maneira impactante, como Rubem Fonseca.

O livro é curto na forma e intenso no conteúdo, que nos revela um ficcionista maduro, que já sabe por onde deve seguir. Receita para se fazer um monstro é um destes livros que precisamos ter sempre na cabeceira. É, acima de tudo, humano, demasiado humano. Ainda que o personagem principal não admire tanto assim esse tipo de raça, ou qualquer outra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *