A viagem literária de Raphaela Nicácio

 

Por Cícero Belmar*

Sem a pretensão de estar lançando uma obra “definitiva”, mas firmemente comprometida com a sua verdade e seus afetos, a jornalista Raphaela Nicácio inaugura-se na literatura com um livro infantil honesto, bonito, que faz uma homenagem tanto à infância vivida no interior do Estado quanto à tradição de contação de histórias.  Trata-se de “Seu Joaquim e dona Maria – Os famosos contadores de histórias do Vale do São Francisco”,  que será lançado no dia 11 de maio, às 17h, na Biblioteca Pública do Estado. Com 64 páginas, chegará às mãos do leitor com uma referência: foi menção honrosa no Prêmo Elita Ferreira – Literatura Infantil, da Academia Pernambucana de Letras.

O livro é um resgate do passado da própria escritora. Ele conta a história de crianças que se reuniam à noite para ouvir os contadores falarem do Negro D’água, do Galo de Ouro, Lobisomem, Sereia do Rio e o Copa Alta. Esse último, um ser medonho, que reside no alto dos umbuzeiros. Era exatamente isto – ouvir histórias – que a recifense Raphaela fazia quando chegavam as férias escolares.  “Quando as férias chegavam eu contava nos dedos os dias e os minutos para ir à casa de minha avó em Belém do São Francisco”, relata a autora, que terminou virando personagem do livro (com outro nome). Na cidade, que fica às margens do Velho Chico, Raphaela, menina criada em apartamento, vivia a liberdade que só uma cidade do interior permite.

A sua avó, a Maria do título do livro, que nascera na Fazenda Canabrava, residia em Belém do São Francisco. À noite, sem ter opção de lazer, além da televisão, a avó contava as histórias que deixavam Raphaela muito impressionada. Sob as estrelas do céu do Sertão, que a própria autora diz não esquecer, ouvia as histórias que, horas depois, ela anotava num caderninho. Este é, portanto, um livro que Raphaela Nicácio começou a escrever na infância, sem qualquer pretensão. Ela ia anotando as lendas que entravam no universo dos seus sonhos e despertaram na menina o desejo de narrar.

Na fase adulta, encontrou o caderno de anotações que julgava não mais existir e tratou de reescrever as lendas que estavam ali registradas. Portanto, é um resgate, uma memória indireta da infância, que é escrito sem derramamento de emoções, mas com a objetividade e a  simplicidade que esse tipo de literatura pede. Escrever  para crianças e jovens é um desafio, embora muita gente metida a intelectual torça o nariz para essa literatura como se fosse algo menor. É não. É uma literatura trabalhosa, que exige do autor não só a coerência como texto, mas também com uma linguagem que seja acessível, com poucas metáforas, uma poesia que esteja na forma direta, palavras que comuniquem, com a atualidade do leitor. Raphaela chegou bem na estética.

Não é à toa que o livro foi elogiado pela acadêmica da Academia Pernambucana de Letras (APL), Fátima Quintas. “Sua pena acompanha as lendas do Vale do São Francisco, cenário que se quer atávico, puro, ingênuo e ao mesmo tempo, amoroso e encantatório”. A escritora Luzilá Gonçalves também gostou do livro. “Ele fala de coisas bonitas, de crianças que gostam de ouvir histórias”, disse. Outra acadêmica que aprovou a história foi Bartyra Soares:  “São lendas nascidas no imaginário popular que Raphaela, com  maestria, escreveu”.

É um livro honesto porque ela não “glamourisa” o passado. A infância foi feliz e é a infância da escritora que está ali, nas palavras. A literatura exige essa disposição de se mostrar, de se revelar. Caso contrário o relato fica falso. O livro e Raphaela é verdadeiro. Você lê e sabe que no outro lado da linha tem uma pessoa.  É bonito porque, nessa sinceridade, a autora tem compromisso apenas com sua poética e sua afetividade. A própria história do livro em si (o reencontro com esses originais da infância) é bonita. E finalmente ela faz homenagem aos contadores de histórias. Está provado, nesse livro de Raphaela, que contar histórias tem um caráter educativo para quem ouve. Foi assim que a menina que assistia à contação,  resolveu também contar.

Contadores de história daquele Sertão imenso, o Sertão do Velho Chico, tão cheio de lendas e encantos.  Foram os contadores, simbolizados numa única, dona Maria, que iniciaram em Raphaela essa viagem literária, cheia de sonhos e ideias. As lendas do São Francisco fizeram ligações com os pequenos fantasmas da mente de uma menina criativa que ela agora nos devolve, em afetivas lembranças. Espero que muitas crianças estejam interessadas em conhecer. Primeiro porque vale a pena. Segundo, para não deixar aquelas histórias apenas seguirem no leito do rio.

Cícero Belmar é jornalista, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras

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