Jantar Secreto faz de Raphael Montes um expoente da literatura policial no Brasil

 

Foto do autor: Victor Prataviera

Por Ney Anderson

A maior qualidade de Raphael Montes é saber entreter. Prova disso é o seu mais recente romance, Jantar Secreto (Cia das Letras), quarto livro do autor, e sem dúvida o melhor trabalho dele, que é difícil parar de ler. Quatro amigos do interior do Paraná se mudam para estudar no Rio de Janeiro, dividindo um apartamento em Copacabana. Dante, Leitão, Miguel e Hugo escolheram cursos universitários diferentes e se sustentam na metrópole carioca através de empregos variados para manter o sonho que cada um resolveu seguir. Todos eles têm em mente a vontade de crescer, ser “alguém” na vida, muito diferente da realidade enfrentada em Pingo D’água.

Dante, estudante de administração, trabalha numa livraria. Ele dá um tom de deslumbramento no começo da história, com a ideia do futuro promissor. Já Leitão, um rapaz, evangélico e hacker, por isso a opção pela ciência da computação, pensa, além de alegrar a mãe, superar as próprias limitações. Ele tem uma personalidade, por vezes, dócil, mas difícil de lidar em algumas ocasiões. Sobretudo porque é uma pessoa obesa e cheia de conflitos por conta disso. Miguel é o mais centrado de todos. Metódico, não passa um dia sem pensar no “futuro” que pode conquistar com o próprio esforço. Já Hugo, aspirante a chef, é o mais ambicioso, para o bem ou para mal.

São amigos com objetivos muito parecidos, mas diferentes na essência, que começam a sofrer por conta da crise econômica que atinge o país. O livro faz um recorte temporal, com todos eles eufóricos chegando na “cidade maravilhosa” cheios de perspectivas. Logo em seguida, depois de alguns anos, já no tempo atual, os amigos estão com dificuldades financeiras e frustrados. É nesse momento de desilusão que surge a ideia de promover jantares secretos no apartamento, mas com um cardápio de ingrediente pouco convencional: carne humana.

A intenção é fazer apenas um jantar para quitar as dívidas que eles acumularam, já que o preço cobrado por pessoa possibilitaria juntar uma boa quantidade de dinheiro numa única noite. Mas outra emergência aparece, fazendo com que eles precisem continuar com os jantares. Essa alternativa, claro, gera uma série de discussões éticas entre os amigos, por que essa não é a maneira mais ortodoxa de ganhar dinheiro.

O conflito é superado quando a vantagem financeira ultrapassa as expectativas. No entanto, é justamente quando começa a entrar muito dinheiro que os conflitos entre os amigos aparecem de forma acentuada no momento que um dos jantares vaza no Instagram. Quando eles tentam sair já é tarde demais, pois estão envolvidos até o pescoço. Um atravessador misterioso entra na história, tornando os encontros semanais mais sofisticados, com a presença de pessoas da alta sociedade carioca.

O suspense maior reside exatamente em saber quem é essa pessoa oculta e quando os quatro amigos passar a ser assassinados.Existe ainda uma investigação policial paralela à trama principal. A polícia, inclusive, é parte fundamental na história. O romance é pesado e brutal mas não é difícil sorrir em várias partes. Ainda que seja um sorriso sarcástico, nervoso.

As descrições dos jantares são sensacionais. A maneira como é feita a comida, de onde vem a carne e os elementos surpresa em cada página ajudam a prender a atenção de tal forma, que é praticamente impossível largar o livro. Existe também a discussão, ainda que rasa, sobre o vegetarianismo. Embora extenso, Jantar Secreto não é enfadonho. O ritmo é de cinema. O livro é narrado com distanciamento do fato, com Dante preso. Essa técnica é utilizada de forma ímpar pelo o autor, que entrecruza os dois tempos de maneira que não é confusa. O narrador, inclusive, conversa com o leitor em diversos momentos.

Qual carne é a melhor? Da mulher ou do homem? Do preto ou do branco? Do gordo ou do magro? Do velho ou do novo? A do índio e a do asiático têm gosto parecido? Atum cru. Salmão cru. Camarão cru. Gente crua

Mesmo que existam momentos exagerados, inverossímeis, é tranquilamente aceitável, justamente porque tudo pode ser feito na literatura. A realidade é só um pano de fundo para a concepção ficcional proposta por Montes em Jantar Secreto, com discussões de temas atuais, através da forma sempre original de contar uma história policial do autor. Raphael Montes convence sobre o sucesso do jantar com carne humana, ou carne de gaivota, porque é totalmente justificável dentro da trama. É aceitável, ainda que bizarro, pessoas pagando altas quantias pela experiência, digamos, exótica.

O texto é pop, atual, com referências a aplicativos de transporte particular, jogos de vídeo game, internet e bastante diálogo. Existe um capítulo inteiro em forma de conversa no WhatsApp entre os amigos quando eles vão roubar o primeiro corpo para o jantar inaugural. Linguagem que os autores dessa geração estão sabendo utilizar muito bem dentro das suas ficções. O romance é ágil e com o típico humor negro do autor. Uma marca registrada de Raphael Montes, o expoente da nova geração de autores policiais do país.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *