Marginais à beira da extinção: a literatura bruta de Ana Paula Maia

 

Por Ney Anderson

Já não é novidade que a prosa de Ana Paula Maia é capaz de tirar qualquer leitor do lugar. Com temas sempre fortes e atuais, ela não brinca quando começa a produzir capítulos do seu universo duro, grotesco e particular. No novo romance, Assim na terra como embaixo da terra (Record), temos novamente a voz potente da escritora carioca.

Depois de usar como cenários locais inóspitos como aterros sanitários, crematórios, abatedouros, entre outros, ela vira a sua lupa para uma penitenciária isolada do mundo, longe da civilização. Ambientado numa colônia penal no meio do mato, o livro retrata a história de alguns homens que foram enviados para a detenção de segurança máxima com o objetivo de serem afastados definitivamente da sociedade. Sem chance alguma de fuga, porque eles têm preso nos calcanhares uma tornozeleira que explodirá se os muros foram ultrapassados, os homens estão à espera do oficial de justiça para transferi-los, já que o presídio será desativado.

Mas para onde vão levá-los, quando ninguém mais os quer? A ideia por traz disso, no entanto, é totalmente diferente. Os homens foram enviados para lá para serem exterminados. São quatro presos: Valdênio, o mais velho, com maior tempo na detenção; Pablo, Jota e o índio Bronco Gil, que está presente no livro anterior da autora, De gados e homens, e aparece aqui na origem da sua história. Além de Melquíades, diretor na penitenciária e o agente, e taxidermista, Taborda.

Todos, de alguma forma, estão na mesma situação. Presos e isolados. Isso gera um desequilíbrio emocional no diretor, aumentando de grau a cada nova página e fazendo dele um psicopata que começa a assassinar os detentos. Ou melhor, caçá-los. Essa tensão é transferida para os internos, que sabem dos perigos por trás dos enormes muros daquela fortaleza.

A figura do javali estampada na capa é muito significativa e simbólica para a compreensão da ficção como um todo. Os homens dentro da detenção são animais selvagens, assassinos por natureza, que começam a ser caçados. Tal qual os javalis, eles são pragas, iguais na essência, passam a ser exterminados pelas leis impostas pelo diretor.

“Retomam o silêncio de antes. Um espectro nauseante os envolve. São todos homens de sangue. Em sua maioria, matando para os outros, como abatedores em um matadouro. Uns compram a morte; outros a vendem como mercadoria”

A história acontece sem pistas de como vai terminar. Mas não termina, na verdade. Ela apenas segue sem um ponto final. São homens rudes, bandidos por natureza, à beira de um colapso, encarcerados no meio do nada, tendo que lidar com as incertezas do lugar inóspito. Alguns tentam escapar, sem sucesso, pois a hierarquia na prisão é feita com bastante truculência.

A narrativa é carregada de tensão, com uma prosa crua, dura, seca. A autora vai na gênese de cada personagem ali dentro, não para tentar justificar o que fizeram, mas para mostrar o que eles, de fato, são. A história dos presos é narrada através de pequenas digressões em flashbacks, com recortes temporais interessantes. Ana utiliza ótimos diálogos curtos, além do perturbador cenário da prisão e do clima de mistério e medo, para mostrar o sistema opressivo para onde foram enviados aqueles homens.

Tudo no Assim na terra tem causa e efeito. A penitenciária, por exemplo, foi construída por cima de uma antiga fazenda de escravos. Corpos são encontrados pelos presos, provando que ali é um espaço de castigo. Do mal. O livro fala de homens condenados, rejeitados pela sociedade e que por isso precisaram sair do convívio com a civilização.

É um thriller com margem para muitas discussões e reflexões. Existe a crítica direta sobre a crise no sistema carcerário brasileiro, que explodiu recentemente. A romancista é singular a cada novo trabalho, sempre trabalhando com temas marginais em suas obras, protagonizados por homens brutos, incomuns.

“O confinamento de homens assemelha-se a um curral de animais. O gado é abatido para se transformar em alimentos; os homens, por sua vez, são abatidos para deixarem de existir”

As obras de Ana Paula, várias publicados no exterior, estão sempre um passo à frente. Parece que por trás dos enredos, como acontece também com esse novo, existem outras tramas escritas subliminarmente. É  Um grande texto ficcional dividido em várias partes, com todas eles caminhando de maneira independente, mas poderoso no conjunto.

Desde o primeiro romance publicado, O habitante das falhas subterrâneas, Ana Paula Maia se mostrou uma voz pulsante nessa geração de autores latino-americanos. Ela vem construindo uma obra consistente em 14 anos de carreira, com mostras que vai sobreviver à melhor das críticas, que é permanecer à passagem do tempo.  

Sexto romance da escritora, Assim na terra como embaixo da terra não é um livro para os que gostam de entretenimento fácil. É um trabalho curto, de apenas 143 páginas, mas bastante denso, que faz refletir sobre a condição humana.

“Javalis velhos são solitários. Vagam quietos apenas em busca da sobrevivência. São animais assustadores e silenciosos. Javali são astutos. Os homens também”

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