Antônio Xerxenesky utiliza o ocultismo no centro do novo romance

Foto: Renato Parada

Por Ney Anderson

Depois de três anos da publicação do elogiado romance F (Rocco), Antônio Xerxenesky retorna com As Perguntas (Cia das Letras), um livro de terror, que tem o ocultismo como base do enredo. A protagonista desse terceiro romance é Alina, uma jovem que trabalha editando vídeos publicitários em uma produtora na Avenida Paulista, em São Paulo, mas que também faz doutorado em história das religiões, tendo como foco dos seus estudos o ocultismo.  É por conta disso que ela é chamada por uma delegada para tentar colaborar em um caso que pode envolver uma seita secreta. Várias pessoas começam a desaparecer e surgir semanas depois com comportamentos estranhos, beirando à loucura. A única pista é um símbolo geométrico desenhado por uma dessas pessoas.

A polícia passa a suspeitar de que uma seita vem causando uma onda de surtos psicóticos em São Paulo. Mesmo sem nunca ter visto o tal símbolo, Alina decide fazer a investigação por conta própria, tentando desvendar o que pode estar por trás dos acontecimentos, se envolvendo numa perigosa seita. A rotina da doutoranda é colocada ao avesso quando ela mergulha totalmente dentro do universo que sempre estudou nos livros.  Alina é alguém que enxerga sombras e vultos desde criança. Ela, no entanto, passou a ser uma pessoa cética por conta do pai, que nunca acreditou em nada que não fosse o real palpável e que as coisas que ela dizia ver eram rebatidas por ele, sempre com alguma explicação lógica, científica. Mas Alina sabia que as coisas que ela via não eram tão simples assim, pois algo obscuro sempre rondou a sua vida.

Dividido entre os capítulos Dia e Noite, e um pequeno prólogo, o romance tem dois tipos de narrativa. No primeiro, acompanhamos a história através de uma voz em terceira pessoa. Já no segundo capítulo, a narrativa muda para a primeira primeira pessoa. É curioso, porque a voz do primeiro capítulo, ainda que em terceira pessoa, é da própria personagem, como ela mesmo afirma. O distanciamento da primeira parte, no entanto, é essencial para o desenho isolado da protagonista, que se diz cética, moldada por visões do que Alina parece ser, mas que na verdade não é totalmente daquela forma. Quando o livro vira para a segunda parte, percebemos todas as angústias, confusões e dúvidas da jovem, que só fazem aumentar quando ela recebe a notícia da morte de alguém próximo.

Essa construção é interessante, por apresentá-la de duas formas distintas, em situações ímpares, mas complementares, e conduzidas pela mesma pessoa. Utilizar capítulos denominados Dia e Noite soam como alegoria da própria condição de Alina tentando entender as coisas que estão acontecendo a sua volta, portanto, tentando conhecer a si mesma. E, acima de tudo, reforçando o lado do terror que a obra propõe. Ao mesmo tempo que o sol vai se pondo o enredo vai ficando mais sinistro. Os sustos não são a tônica do romance, que não se pretende um terror canastrão, mas a subjetividade do sobrenatural que acompanha a jovem está impregnada desde a primeira linha.

A história se passa num único dia e tem muitas referências sobre música, cinema, tecnologia e, lógico, e sobre religião. Além de ser bastante descritivo, inserindo o leitor dentro da história. Alina, é uma personagem em transição, que saiu de Curitiba e foi morar em São Paulo. A capital paulista, inclusive, é a espinha dorsal para a condução da história. E é utilizado de forma magistral. Assim como a protagonista, existem duas cidades. A diurna e a noturna. Totalmente diferentes, mas complementares. É possível “ver” a cidade cinza e pesada, sob a perspectiva de Alina, mas também outra mais atrativa, que ela joga no olhar dos amigos. Alina tem uma relação ambígua com a cidade. Ela ama e odeia ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Em alguns momentos ela parece viver no estereótipo paulista, para logo depois se sentir totalmente deslocada do local.

O livro é um labirinto difícil de sair. Uma armadilha muito bem montada por Xerxenesky com enredo meticuloso, que faz o leitor também se questionar sobre o assunto. Colocar o ocultismo no centro da trama só reforça a opção do autor por uma narrativa mais densa, que trabalha a dubiedade da personagem, de forma que é difícil não se envolver com a história labiríntica. O título “As perguntas” lida com essa ironia da vida, morte, espíritos etc. Ou seja, o romance trabalha com a dúvida mais antiga: existe o outro lado depois da vida? O terror está exatamente na sugestão de algo desconhecido, oculto, trabalhando o aparente ceticismo da protagonista em algo cheio de mistérios.  A história das religiões, sobretudo o ocultismo, é explicada de forma rápida e didática em algumas passagens do romance. Isso não chega a atrapalhar a trama, mas poderia facilmente ficar de fora.

Não resta dúvida que este livro é uma obra de terror, mas que lida com vários tipos de medo. E o pior tipo de medo, nesse caso específico, é não saber se as sombras que perseguem Alina são reais ou fruto da imaginação dela, como o pai dizia. O equilíbrio da trama reside exatamente nisso, no ceticismo confuso da protagonista, que está à procura de respostas. Essa é a grande questão do livro, e o título brinca justamente com essa ideia.

De premissa simples, mas de estrutura bem elaborada, As Perguntas é um livro bastante criativo e talvez o mais ousado de Antônio Xerxenesky, que insere como um representante de peso dentro do terror nacional. Gênero, aliás, que tem crescido nos últimos anos. O livro é provocador e com um final totalmente aberto, que deixa margens para o leitor fazer os próprios questionamentos, que nunca vão acabar.

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