Curso misterioso de escrita criativa é tema do romance noir de Álvaro Filho

Foto: Líbia Florentino

Por Ney Anderson

Um aspirante a escritor narra a sua participação em um curso de escrita criativa e passa a viver a própria ficção que ele criou. Essa é a sinopse do livro Curso de escrita de romance – nível 2 (Cepe), do jornalista Álvaro Filho, vencedor do quarto prêmio Pernambuco de Literatura, publicado no primeiro semestre deste ano. Mas não se engane, esse livro não é uma espécie de oficina literária e muito menos ensina a escrever livro algum. O título é uma grande ironia, onde Álvaro utilizou dos clichês do tema para conduzir a atmosfera noir do romance.

Dividido em dez capítulos, logo no início o narrador fala: “se os senhores jurados têm em mãos este livro é porque me tornei um escritor e, felizmente, estou vivo. Ou não, não sei muito bem, talvez seja o contrário. Não sou o que se pode chamar de um narrador confiável. Não por um desvio de caráter, que fique claro, mas justamente porque a aventura que me transformou, ou não, num escritor, me levou a desconfiar dos outros, da realidade e, principalmente, de mim”.

A trama começa quando um jornalista com aspirações literárias fica sabendo através de um amigo escritor no leito de morte sobre a existência de um misterioso curso de escrita, para pouquíssimos felizardos. No curso, qualquer um consegue se tornar escritor, por conta da metodologia única e pessoal. Para entrar nessa espécie de clube secreto, o candidato a romancista envia uma sinopse, um esboço do livro que pretende escrever, para apreciação.

O texto enviado pelo jornalista é sobre um homem simples, que leva uma rotina pacata, até o dia em que recebe em casa uma grande quantidade de dinheiro, com um bilhete informando que em breve ele mataria alguém que não conhecia. E o dinheiro era parte desse pagamento. Mesmo sem nunca ter feito algo do tipo, o personagem, no entanto, vai passando por situações que o levam a cometer o assassinato.

O texto é aceito e o aspirante a escritor começa a participar do curso, que é realizado no andar superior de onde funciona um açougue. Lá, conhece outras pessoas com o mesmo objetivo. Assim como ele, que é conhecido sob o pseudônimo de Futuro Escritor, outros personagens fazem parte do enredo. O Rapaz Franzino e Calvo, a Jovem e Bela Mulher, a Mulher Fatal, o Vilão e o Instrutor.

Mas a trama na qual o Futuro Escritor está debruçado começa a acontecer de verdade com ele, depois que o Instrutor, ao ler o texto, dizer para ele mergulhar na história. Dar mas vida ao texto. É o que acontece. No meio da história o aspirante a romancista recebe uma grande quantia em dinheiro, que vai obrigá-lo a matar alguém, assim como o personagem da sua própria história.

De alguma forma, Curso de Escrita vai de encontro com aquilo que se condicionou chamar de inspiração. Não necessariamente o Futuro Escritor recebeu uma dica de Deus para escrever o livro. Ele precisa escrever porque a sua segurança está em risco. A ideia foi justamente brincar com prazo para a entrega do trabalho, talvez a musa inspiradora mais determinada que existe. É curioso, porque ao mesmo tempo que acompanhamos o desenrolar da história, também estamos vendo como ela está sendo desenvolvida, mas sem didatismo.

Não existe referência onde a trama está sendo ambientada. O que não é um problema. Muito pelo contrário. O autor prefere concentrar forças no que está sendo contado, sem dizer o local onde está acontecendo. A pegada noir, no entanto, sugere um ambiente urbano.

O livro é cheio de elementos surpresa, com uma narrativa vertiginosa, onde o leitor não tem muito tempo para pensar. O livro todo trafega num misto de realidade e ficção, com o recurso da metaliteratura desde o início. É uma obra aberta. Nada é muito lógico, sugerindo um estado, por vezes, de puro delírio. Curiosamente, esse livro lembra um pouco a atmosfera onírica da novela Os extremos do arco-íris, de Raimundo Carrero.

Muitos são os clichês de como escrever um romance, como sugere o Instrutor. “Contar uma história é ser um rio. Um rio parado é um rio morto, assim como uma história parada é uma história morta”. O narrador conversa o tempo todo com o leitor, ou melhor, com as pessoas do júri que estão lendo o livro naquele momento. O romance trafega nesse misto de verdade, ficção e delírio, com plot twist (viradas) acontecendo o tempo todo.

Álvaro Filho começou a escrever o livro a partir do prazo da inscrição do Prêmio Pernambuco e foi desenvolvido num período de pouco mais de vinte dias, sendo concluído na véspera das entregas dos originais. Essa urgência é perceptível na trama desenvolvida pelo autor pernambucano, mas não quer dizer de forma alguma que o livro tenha uma escrita deficiente. Muito pelo contrário. Esse fato foi utilizado de base para a ficção proposta por Álvaro, pois na trama, Curso de escrita de romance – nível 2 também está sendo destinado para concorrer a um prêmio literário.

Ainda que curto, 117 páginas, o romance é denso e os mistérios nunca são solucionados totalmente. Não sabemos se o que acabou de ser contado foi verdade ou invenção do narrador, como um bom escritor sabe fazer.  O texto de Álvaro Filho, como já visto em outros trabalhos, é elegante. Tanto no jornalismo, quanto na literatura, esse jornalista-escritor, ou escritor-jornalista, é peça fundamental na prosa contemporânea brasileira.

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