Romance de André Timm trafega entre os sonhos e a realidade

Foto: Felipe Ballin

Por Ney Anderson

Depois de seis anos sem lançar um novo livro, o gaúcho André Timm retorna com o romance Modos inacabados de morrer (Oito e meio). Narrado em segunda pessoa, acompanhamos a vida de Santiago, portador da narcolepsia, uma grave doença responsável por fazê-lo dormir onde quer que esteja. O romance é dividido em três partes. Na primeira parte o protagonista está com 13 anos, mora com os pais e estuda no colégio do bairro, onde sofre sucessivas situações de bullying dos colegas de classe, que o faz flertar com o suicídio. Logo nesse início se percebe a angústia de Santiago por tudo o que envolve essa fase da vida, mas intensificada pela doença, fazendo dele uma pessoa limitada e incompreendida por quase todos ao seu redor. Na segunda parte a história dá um salto temporal de 20 anos, com Santiago aos 33 anos, aposentado (e recluso) por conta da condição severa da narcolepsia e utilizando um capacete para conter o risco iminente das quedas. Além de estar fazendo uso de uma grande quantidade de medicamentos e carregando algumas culpas. A única pessoa que realmente se importa com ele é Agnes, sua amiga dos tempos remotos, que desempenha o papel de cuidadora, já que os pais dele já estão mortos. 

Durante esse período só se sabe alguns detalhes do que aconteceu nos vinte anos de lacuna, que formam um painel recortado da vida do protagonista. Sobretudo, porque ele se sente abandonado por Valerie, a filha do diretor do antigo colégio, que vai embora com os pais de repente e sem dar satisfações. A terceira e última parte é justamente quando essa personagem volta, explicando o porquê da sua saída repentina da cidade, por algo que atinge diretamente a história de Santiago. Essa confrontação com um fato horrível do passado ajuda a segurar o desenvolvimento do enredo.

A narrativa em segunda pessoa, mostrando as reações da doença e a vida que o protagonista leva, são interessantes, pois o ângulo de visão da história é bastante peculiar. Ainda que seja o personagem principal narrando, é possível compreendê-lo melhor através desse recurso. E não é uma simples tristeza passageira, por algum fato isolado. 

O romance tem uma questão curiosa. Mesmo nos momentos em que Santiago está dormindo, a narrativa continua “caminhando”, através dos sonhos e pesadelos durante o período de inércia. A forma de narrar tudo isso é extremamente bem feita e de enorme controle técnico. Sobretudo, por se tratar de um romance de 137 páginas com pouquíssimos personagens. É por conta também desse aspecto que o livro se sustenta. A condição patológica do protagonista é evidenciada de uma forma, por vezes, onírica. Porque boa parte do romance se passa no campo dos sonhos de Santiago. Ainda que seja uma condição devastadora, André Timm conseguiu encontrar beleza no caos, como só os prosadores determinados e comprometidos com a literatura são capazes de alcançar.

São muitos os diálogos entrecruzados que auxiliam nesse panorama das “pequenas mortes” ao longo da vida do personagem, tão bem representado no título e na capa minimalista. Os traumas que o jovem sofre não são apenas psicológicos, mas também físicos, que nem ele mesmo entende, pois a consciência quase nunca está em alerta. Mas os perigos estão sempre lá, reais e devastadores. 

Trabalhar um personagem com uma doença tão incomum desperta a curiosidade pelas reações e consequências que ela provoca. Santiago é alguém que não pode sentir emoções de qualquer tipo, sob o risco de dormir imediatamente. Essa situação faz dele alguém totalmente deslocado do mundo. Deslocado de si mesmo. 

Existe coerência no que está sendo dito, principalmente sem forçar a história para um sentimentalismo rasteiro de sessão da tarde. Muito pelo contrário. É um livro dramático, dos melhores, rico em linguagem, que parece ser o principal objetivo de André Timm. A linguagem é um trunfo do romance, pois não são apenas palavras certas, nos lugares certos. E nem mesmo experimentações linguísticas modernosas demais. O que salta aos olhos é a magia literária que vai se desenrolando tranquilamente sem atropelos. E aqui um parêntese. Mesmo que o livro seja recheado de imagens alegóricas, confusas, da mente humana, em cenários quase sempre fechados, que pode servir muito bem ao cinema, por exemplo, a história foi pensada para ser contada em forma de literatura e alcançou o seu objetivo.

A única coisa que destoa em Modos Inacabados de Morrer é a opção pelas notas de rodapé, com várias informações técnicas da doença e outros assuntos, que atrapalham um pouco o andamento da leitura. O livro se sustenta pelo bom enredo e isso já bastaria por si só. Tudo poderia estar diluído no miolo do romance, não no rodapé, por que o recurso quebra o ritmo da narrativa.

Mas as notas de rodapé não comprometem de forma alguma o romance como um todo. Até porque, é nítido o amadurecimento do Timm. Modos inacabados de morrer, inclusive, foi o vencedor da Maratona Literária, promovida pela editora Oito e Meio, que teve como prêmio a publicação do livro. E também finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Se no primeiro trabalho, Insônia, a prosa é fragmentada, com os contos se complementando de alguma forma e utilizando de artifícios externos, tecnológicos, aqui a narrativa pega o leitor pela mão e o conduz levemente pela mente do personagem Santiago, que não deixa de ser um lugar desconhecido, como a vida de todos os personagens do mundo. Os reais e os imaginários.

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