Romance recria os bastidores do jornal Última Hora e os últimos momentos de Getúlio Vargas

Foto: Kenia Ribeiro

Por Ney Anderson

O romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2017, Última Hora (Record), do escritor potiguar José Almeida Júnior, conta a história de Marcos, um jornalista contrário ao Governo Vargas, que atua para um jornal que apoia o Partido Comunista, mas que enfrenta a repulsa da mulher e do filho, por trabalhar praticamente sem receber salário e ter uma vida bastante regrada. O jornalista acredita que a função dele como profissional e cidadão é combater os ideais do presidente Getúlio, que até bem pouco tempo havia liderado a ditadura do Estado Novo, no qual Marcos foi uma das vítimas de tortura. No pequeno Imprensa Popular ele tem total liberdade para escrever o que bem entender. Mas ser comunista convicto não consegue fazer com que ele pague as contas e muito menos ser feliz no âmbito familiar. Essa pressão o faz aceitar o convite de Samuel Wainer para integrar a equipe de colaboradores do jornal recém criado Última Hora, que apoia o Presidente da República. Mas quando ele muda para o Última Hora, a resistência passa a ser do filho.

Até as primeiras cem páginas o romance lida justamente com o dilema de Marcos em deixar o jornal onde tem liberdade de opinião, para mudar radicalmente, corrompendo a própria história apoiando o inimigo. É a partir desse momento que o livro dá uma guinada interessante mostrando as entranhas do jornalismo praticado naquela época, principalmente voltando a lupa para o emblemático jornal carioca. O embate de Samuel Wainer contra Carlos Lacerda, que tem o apoio de vários magnatas da mídia, como Assis Chateaubriand e a família Marinho, é recriado de tal forma que parece que o autor entrevistou essas pessoas para escrever o romance.

O leitor vê tudo sob a ótica de Marcos, que serve como contraponto para o andamento de toda a história. O jornalista, no princípio da nova função, trabalha a contragosto, mas só até o momento que o aspecto financeiro vai melhorando e ele começa a ser importante dentro do jornal, se tornando praticamente o braço direito de Wainer, tendo informações privilegiadas do governo. Mesmo assim ele começa a jogar dos dois lado, equilibrando a “fidelidade” que mantém ao patrão, com as propostas de Carlos Lacerda, que utiliza o jornalista para tentar acabar com o Última Hora, Getúlio Vargas e, consequentemente, Samuel Wainer. 

Para Marcos, o jornalismo é a única profissão digna que existe, pois funciona como um poder paralelo, fato bastante claro no romance. E fazer parte de um jornal feito para a massa, ainda que apoiando um desafeto, é algo que nunca havia experimentado antes. No entanto, ele começa a entrar de cabeça na prática do jornalismo marrom, ajudando a difamar e caluniar pessoas influentes da política para conseguir informações secretas na tentativa de ajudar tanto os interesses de Wainer quanto os de Lacerda, dono do Tribuna da Imprensa. A narrativa é vertiginosa e não para um só instante. Várias situações seguidas conseguem passar a sensação de uma redação realmente movimentada, sob o fogo cruzado diário enfrentado por Wainer quase diariamente dos adversários, por ser apoiado declaradamente pelo presidente, recebendo dinheiro do Banco do Brasil para a manutenção do jornal. O romance retrata esse panorama de forma realmente qualificada, construindo uma figura real de Samuel Wainer, com o tempero que só a ficção consegue dar.

O trabalho jornalístico já serviu de base para filmes e livros de ficção, com a imprensa servindo, em maior medida, de pano de fundo para histórias de complô e terrorismo. Ou até mesmo fechando o foco para histórias mais específicas, como Truman Capote fez no seu clássico A sangue frio. Ou Janet Malcolm, com o Jornalista e o Assassino, para citar dois exemplos que se utilizaram de casos reais para compor tramas ficcionais de fôlego. No cinema, é impossível não lembrar de Os homens do presidente, com Dustin Hoffman e Robert Redford interpretando dois jornalistas (Bob Woodward e Carl Bernstein ) que se tornaram célebres por conta da Caso Watergate, recriado no filme, que culminou na renúncia do presidente Nixon. Mas recentemente o filme Spotlight (vencedor do Oscar) recriou a equipe homônima do jornal americano Boston Globe, responsável por uma série de reportagens sobre pedofilia na igreja católica, causando um escândalo na cúpula do catolicismo. Esses trabalhos têm em comum a rotina das redações e importância do jornalista. É por essa linha narrativa que caminha Última Hora, embora o artifício utilizado aqui pelos personagens seja o da máquina da lama, como bem explorou Umberto Eco em Número Zero, usando o poder do jornal para ações nada ortodoxas. 

Romance foi o vencedor do prêmio Sesc de Literatura 2017 na categoria romance, desbancando 980 livros do país inteiro

O livro de José Almeida mescla personagens reais e inventados, numa época onde as redações eram tomadas não apenas pelos barulhos das máquinas de escrever, mas pela fumaça dos cigarros e as altas doses de uísque. Nelson Rodrigues é um desses personagens reais que fizeram parte do Última Hora. No romance, o jornalista pernambucano é descrito fidedignamente como um dramaturgo em ascensão, um exímio contador de histórias, escrevendo de forma sempre rápida e direta. José Almeida ficcionaliza como Nelson começou a produzir as famosas crônicas de A vida como ela é….que lhe deram fama, mas como obra do acaso, porque ele teve que ser deslocado para outra sessão do jornal. Na medida que publicava crônicas sobre o dia a dia carioca, começou a fazer sucesso e passou a receber colaborações de leitoras assíduas da coluna. O romance mostra a gênese de Nelson, um grande cronista da vida urbana e mulherengo, na melhor acepção da palavra, que se tornou uma das figuras mais importantes para a dramaturgia brasileira. 

Última Hora é um livro de narrativa rápida, com diálogos certeiros, que oferece um bom panorama do Brasil dos anos 1950, com algumas idas e vindas no tempo para mostrar o começo da militância do jornalista Marcos e a entrada dele na profissão. É um romance de um fôlego só, mesmo com a quantidade de personagens e informações é quase impossível parar de ler, que tem o desfecho com o suicídio de Getúlio Vargas. O que agrada mesmo é que o livro não tem o ranço histórico e pedagógico, além de não mostrar o jornalismo com afetação e glamour. Não é difícil encontrar um paralelo entre o que o romance narra com a prática jornalística de hoje, que entrou em outros suportes, mas que continua fazendo o mesmo jogo intricando de xadrez, onde o leitor é apenas uma peça do enorme tabuleiro. 

O que se lê nas 350 páginas é uma história que se apropria de uma época importante para o país, tendo a imprensa no papel principal, povoado com personagens que fazem parte da história do jornalismo brasileiro, mas entregue em forma de ficção das melhores do gênero. A mensagem que fica após a leitura do romance é que não existe imparcialidade no jornalismo e que a liberdade de imprensa é praticamente uma utopia. Última Hora é um romance necessário para fazer um paralelo entre o passado e o presente da imprensa tupiniquim, que está ligada, incontestavelmente ,por um cordão umbilical ideológico e quase nunca imparcial.

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