A feira, romance de Adriana Armony, é alegoria satírica sobre o meio literário

Foto: Sofia Armony Sampaio

Por Ney Anderson

Já não é novidade que a literatura brasileira contemporânea se retroalimenta de assuntos muito focados no fazer literário e na forma como os escritores vivem e produzem os seus textos. Quase sempre a representação dessa figura é de alguém sofredor, que geralmente tem o famoso branco no momento crucial da sua atividade, logo quando isso não poderia acontecer. Porque está (ou estaria) em jogo a sua evolução enquanto ficcionista. O romance A feira (7 Letras), de Adriana Armony, fala desse tema não apenas pela ótica do escritor, mas de todos os personagens necessários para a realização de uma feira literária, objeto central da trama.

O livro é dividido em cinco partes, e um pós-escrito, com vários capítulos curtos, ambientado num local fictício chamado Cidaded’elrei, dentro de um espaço com ares medievais, e conduzidos por uma voz onisciente, que as vezes sai de cena para deixar a narrativa nas ações e pensamentos dos próprios personagens. E eles são muitos, criados com pseudônimos simbólicos. Tem a Editora, o Escritor Talentoso, o Diretor da Associação, a Promessa da Literatura, o Aspirante, a Curadora, a Dona da Feira, o Jornalista, o Empresário, o Best-Seller, entre outros. Tudo isso dá o tom grandiloquente do evento, mas utilizando o ambiente como algo totalmente alegórico e irônico sobre os diversos personagens que atuam no romance, com as histórias de cada um deles se entrecruzando e formando um emaranhado de situações.

A história é um grande mise en scène, onde o que menos importa é o livro, mas a roupa que os “poderosos” vão vestir, os contatos que o evento irá proporcionar ou o que será servido na festa de abertura. Numa das cenas mais engraçadas, durante uma reunião para a definição da grande de programação, os presentes aguardam ansiosos pela boa comida que será servida dentro de instante, deixando, lógico, a literatura em segundo plano.

Tudo é muito exagerado no enredo, propositalmente, por conta da alegoria proposta por Adriana Armony. Fala do escritor que escreveu um livro que ninguém se interessou ou a dona do evento, que está mais preocupada em qual sapato usar e o escritor que ao invés de escrever fica zapeando no Facebook na busca por curtidas. A feira, inclusive, é desenhada como um extraordinário e grandioso evento, maior do que qualquer outro, que pode definir o rumo da cadeia do livro para os próximos meses e até anos.

“Outras mesas tinham o sucesso garantido, como a dedicada à literatura de entretenimento, que atrairia o séquito da autora da tetralogia Um, Dois, Três e Já e do escritor Best-Seller; a mesa com o cantor que tinha se transformado em romancista, a atriz erótica que passara a escrever autoajuda e a modelo de 26 anos que escreve sua autobiografia; o bate-papo entre o escritor consagrado, que completava 50 anos de prêmios e vendas para o governo e o prestigiado mas ainda jovem escritor Português; e a mesa sobre o Grande Evento Mundial, com um romancista, um jornalista e um antropólogo, intitulada  oportunamente A seleção”

Curioso que até a capa brinca com uma sutil ironia através da imagem ilustrativa, um pouco confusa, se assemelhando com uma feira de bairro, onde os produtos principais são as verduras, frutas e legumes à disposição dos clientes. Um sarcasmo que não foge tanto assim da realidade. Todos eles estão ali para vender o seu trabalho, onde o livro, muito mais do que uma criação artística, é considerado uma mera mercadoria, seja pelo público e, principalmente, pelos organizadores.

As histórias vão sendo entrecruzadas, com todos passando pela abertura da feira (uma festa à fantasia, para reforçar o tom caricato), depois para o evento propriamente e as tradicionais mesas de bate-papo, cafés filosóficos, painéis, até chegar ao momento da entrega do importante prêmio que será feito junto com alta soma em dinheiro para o vencedor, elevando o nome do felizardo para o status midiático que todos almejam. A surpresa geral é quando o romance A rifa, de um escritor desconhecido chamado Alby Bloom, ganha o concurso, despertando a curiosidade pela identidade do autor.

Um dos melhores personagens é o jornalista escalado para cobrir a feira, recebendo a ordem do chefe para fazer o texto no tom do new journalism. Mas ele acaba descambando para uma pegada investigativa quando decide descobrir o real nome do autor premiado. O jornalista é o único que parece carregar alguma sobriedade. O olhar dele é muito pautado pela crítica ao mundo dos grupos literários, cheio de egos inflados, inveja, disputas por poder e formas pouco ortodoxas de conquistar posições privilegiadas.

“Flores de estufa. Pessoas que florescem em ambientes artificiais, controlados, mas que murcham no mundo real. Uma metáfora perfeita do mundo literário, e, talvez, da própria literatura. Este sim era um ponto de partida. Olhando em volta, constatou que não conhecia quase ninguém. Apesar do ofício, o Jornalista era de uma timidez constrangedora. Em geral, sentia-se mais à vontade em frente ao computador, dissecando os textos com a coragem que nunca tivera de colocar à prova ao vivo e a cores”. 

A impressão na história é que tudo não passa de um pesadelo e alguém vai despertar do delírio, sobretudo um escritor fracassado. A feira apresenta um olhar interessante e ousado sobre o meio literário. É de fato uma alegoria delirante e caricata em torno desse universo, com toda a sua miséria e esplendor. Sem dúvida, um belo trabalho de ficção.

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