Livro de estreia de Geovani Martins faz mergulho na periferia carioca

Foto: Chico Cerchiaro

Por Ney Anderson

Já não é algo novo a força artística das periferias do país, sobretudo aquelas que estão nos morros, como no Rio de Janeiro, por exemplo. Existe uma criatividade pujante em diversas expressões, que se utilizam de uma linguagem urbana (quase sempre violenta) para exteriorizar o que de mais contraditório possa haver nesses locais. Embora quase sempre carregada de preconceitos, as comunidades periféricas do país carregam sempre uma força intrínseca, onde a arte representa muito mais do que simples entretenimento. O sol na cabeça (Cia das Letras), estreia do escritor Geovani Martins, lança o olhar justamente para o que já está no imaginário popular do brasileiro quando o assunto é favela, sobretudo na literatura e no cinema.

São 13 contos, a maioria escrito sob o mesmo viés. Rolézim utiliza uma linguagem cheia de gírias, narrado pela ótica de garotos marginalizados. Espiral é sobre um jovem que, ao ser confundido com bandido em um bairro de classe média alta, usa desse artifício para fazer uma espécie de teste com as pessoas, para saber até onde causa medo no outro por conta da sua condição social. Roleta – russa fala do menino que brinca com a arma do pai vigilante, sonhando em um dia ser respeitado igual os outros jovens do seu entorno. A história do periquito e do macaco retrata as milícias que comandam o morro. Rabisco é sobre as peripécias de um pichador que não consegue abandonar essa prática. No conto A viagem, jovens se divertem antes do réveillon usando drogas e passando alguns apuros. O cego é a história de Matias, deficiente visual, que se envolve com um vendedor de crack, passando a ter uma curiosa amizade com ele. O mistério da vila retrata a rotina de um terreiro de candomblé, onde crianças brincam sob os “olhares” dos santos e o respeito da dona Iara, líder espiritual. Esse é, talvez, o melhor texto, o mais inventivo.

Geovani termina os contos de maneira abrupta e totalmente aberta, como se cada história permanecesse inconclusa ou se elas funcionassem de forma simbiótica com os próprios personagens retratados, sempre à margem, indo de encontro para um provável, rápido, e inevitável fim. É um livro de muitas vozes, com registros linguísticos variados, apostando na oralidade. O livro é rápido e não tem pretensão de reinventar a roda e foi escrito por alguém com a visão de dentro do  morro, com uma pegada pop, mas ainda em construção. A ideia do livro não é nova. Até porque outros escritores caminharam, e caminham, por esses temas de forma mais poderosa. 

Os textos são bem escritos, de fácil leitura, se arrastando em algumas ocasiões. Alguns contos pesam a mão da 

linguagem coloquial, com gírias demasiadas e diversos cacoetes narrativos. Os contos mimetizam o universo da periferia do Rio de Janeiro, quase todas trazendo à toma tramas tristes, de gente humilde entrando na vida bandida, com extrema falta de perspectiva. As histórias, no entanto, não chegam a surpreender. Fica bastante claro que a maior inquietação do autor é pela busca do próprio estilo. O sol na cabeça é muito conectado com a realidade do Rio de Janeiro, que não é necessariamente atual, mas ganhou destaque nos últimos anos por conta da ocupação da polícia através das UPPs e, mais recentemente, a intervenção militar federal. O livro é formado pelo tripé: droga, violência e preconceito social. Mas fala também de sonhos, vidas partidas, caminhos tortos, dentro do contexto da marginalidade, onde garotos são criminosos e para os outros (a comunidade) não resta alternativa a não ser viver (sobreviver) no pior dos cenários. 

“É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviara cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros”.

Esse é um tipo de literatura como arma, uma declaração de amor e ódio de uma realidade cada vez mais opressora, pesada, mas, ironicamente, (e necessariamente) rica, em toda a sua complexidade. É a voz da periferia. Nesse caso, do ponto de vista do traficante, do pichador, do ladrão, do assassino, do garoto que empina pipa, da mãe de santo que reza aos orixás. Enfim, das pessoas que têm que conviver com a violência e o horror, se tornando vítimas e algozes de um futuro incerto.

Geovani Martins não é nenhum gênio literário, muito menos um fenômeno, como está sendo vendido pela editora. Os textos mereciam um desenvolvimento melhor. O autor demonstra, contudo, que tem uma voz impulsiva, própria dos autores de primeira viagem e com muita vontade expressar o pensamento através da ficção. E isso é algo positivo, porque ele parece que ainda tem muita coisa para contar, já que o seu ambiente criativo é muito vasto e com infinitas possibilidades.

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