Contos de Alê Motta lidam com a violência através do minimalismo brutal

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Quando se fala nas formas e fórmulas da escrita de ficção, muita gente torce o nariz. Uma boa parte dos autores ainda quer passar a ideia de que escrever é algo para poucos. Ou, pior, que existe sim uma musa chamada inspiração. O fazer literário, para essas pessoas, está ligado intrinsecamente com o divino, sendo alguns poucos os escolhidos para esta vocação. Se isso for realmente verdade, a escrita de Alê Motta está a um passo dos pequenos milagres. Porque ela conseguiu aliar sofisticação, concisão e, o mais importante, no pouquíssimo espaço dos contos curtos de Interrompidos (Editora Reformatório), sua estreia na literatura.

As histórias já aparecem no momento final, atingindo o objetivo do clímax direto, sem a necessidade do desenvolvimento maior. Como no conto “O presente”. Ninguém sabe que este é o meu último ano como Papai Noel. Eu também quero o meu presente. Um resultado diferente no exame”. Da mesma forma que o escritor guatemalteco Augusto Monterroso fez no seu famoso “Dinossauro”, os contos da autora deixa supor através das infinitas possibilidades o que aconteceu antes dos momentos finais. Esse não-escrito sugerido em tão poucas linhas é muito forte na prosa da Alê. É justamente a partir desse mínimo que a escrita alcança o máximo. A preocupação pelo último suspiro. Literalmente.

Meu chefe” narra a vingança macabra contra um chefe que zomba do subordinado durante uma reunião. “Convite” fala de outra vingança, por conta de uma traição, ambientado numa sessão do filme Guerra Civil. Já “Minha Festa” é sobre um aniversário que termina de forma trágica.

Um ou outro conto destoa da proposta do projeto, talvez para dar um ar mais leve, para logo em seguida continuar a verve violenta que ronda todas as histórias. Interrompidos é formado por várias vozes, com algumas fotografias em preto e branco entre os textos, feitas pela própria autora, retratando paisagens e cenas do cotidiano, reforçando a atmosfera lúgubre do livro. Os contos são intercalados com narrativas em primeira e terceira pessoa e variam também nos temas, como em “Disparate”, onde a promoção de um cargo está sendo disputada por quatro pessoas: um negro, uma mulher, um gay e pelo narrador, que se acha superior a todos eles.

Minha amiga gosta de ler obituários. Todos os dias. Logo de manhã. Termina a leitura sorrindo. Ela é muito eficiente. Gosta de ler o resultado do seu trabalho”.

No geral, Interrompidos é um livro trágico e bastante violento, que utiliza do humor negro em algumas situações. E parece ter muito de observação, da experimentação por algo novo. Os textos mais interessantes são os que retratam os casos de violência crua, principalmente os que estão conectados com a brutalidade real que acompanhamos todos os dias. Um exemplo disso é o conto “Copacabana”, sobre o relato de assalto terminado em morte. “Ninguém o socorreu. O vídeo no YouTube viralizou antes mesmo do enterro”.

São 41 contos, distribuídos em 121 páginas, que já vêm com a chancela dos escritores Marcelino Freire, Adriana Lisboa e João Anzanello Carrascoza, que fazem a apresentação do livro. Alê Motta exibe um interessante domínio técnico-narrativo em todos os textos. Entre outras qualidades, ela dá aquele toque surpresa na última linha. O toque de Midas. Sempre encerrando como tiros certeiros no peito. Por isso mesmo o universo dos contos tem o sentido de incompletude, com os personagens sendo interrompidos em situações fortuitas.

A concisão quase cirúrgica dos contos demonstra uma escritora que entra na literatura como uma voz que não está preocupada com os enredos mirabolantes, mas ressignificando o conceito das micronarrativas, que é praticamente o subgênero dentro da tradição do conto moderno. Interrompidos é para ser lido com cuidado, de olhos bem abertos, porque ninguém sabe o que se esconde nos segundos finais da leitura. Alê Motta, definitivamente, é uma escritora para ser acompanhada.

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