“O peso do pássaro morto”, de Aline Bei, transforma a solidão num triste refúgio poético

 

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Nem sempre é fácil a opção por uma linguagem experimental, porque se corre o risco de experimentar e não chegar a lugar nenhum. Esse, com certeza, não é o caso do romance O peso do pássaro morto, da escritora Aline Bei, publicado pela editora Nós, em parceria com a Edith.

A história é o relato da vida de uma mulher dos 8 aos 52 anos.  Divididos em nove capítulos, estruturados como se fossem um grande poema, acompanhamos em primeira pessoa cada momento dessa trajetória. Aos oito anos, a narrativa mostra a menina inocente, ainda descobrindo o mundo, que ao perder a melhor amiga faz pequenos aviões com as cartas que escreve para ela. O que ela diz transmite uma sensação de empatia. A criança se reflete até na forma como o texto está desenvolvido. Porque é como se estivéssemos lendo uma ficção em forma não de palavras, mas da materialização dos pensamentos da menina, das ações infantis da personagem, e tudo o que essa pouca idade possa transmitir.

“na escola

                       em casa

                                             na cozinha

perguntei pra minha mãe:

– o que é morrer?

ela estava fritando o bife pro almoço

– o bife

  é morrer, porque morrer é não poder mais escolher o que

                                          farão com a sua carne.

quando estamos vivos, muitas vezes também não escolhemos.

mas tentamos”.

No final dos 17 anos ela engravida de forma indesejada e aos 18 se torna mãe. Aos 28 é uma mulher sufocada com os deveres domésticos e profissionais. Com o filho para cuidar sozinha e sem mais ninguém para ajudar. Com 37 anos o filho já está ausente, porque foi cursar a universidade em outro estado. A sua única companhia é o cão Vento, que surge na vida dela totalmente por acaso. Onze anos depois, com 48 anos, ela descobre que vai ser avó. No ano seguinte, resolve mudar de casa, para tentar se desprender um pouco do passado. Aos 50 ela se compreende como a menina sonhadora que nunca deixou de ser. Nos 52 anos ela já está totalmente amadurecida, se entendendo melhor, passando por momentos contemplativos da sua história.

A linguagem é utilizada de forma muito interessante, porque tenta expressar as nuances das falas e pensamentos da personagem em tempos diferentes, por conta da cronologia que passa por nove fases, abarcando exatamente quarenta e quatro anos num espaço relativamente curto de apenas 165 páginas. Essa relação do tempo com o espaço do romance é muito bem conduzida. Principalmente por ser um texto de forte carga oral, que vai quebrando a memória em pequenos espaços e sem a interrupção da pontuação.  

A memória da narradora dita todo o texto. O romance só funciona no campo dos pensamentos dela, já que ela vive uma rotina de solidão. O livro caminha no limiar dos segundos, que se transformam em horas, dias e anos. Cada linha é trabalhada de maneira a alinhavar o fio da vida da personagem, que vai se desenrolando de maneira sutil e sensível, com pequenas rupturas em todos os momentos da vida dela.

“Chorei assistindo um programa de TV. Nascida há anos

ainda passo por esses vexames

aproveito e tiro uma foto

de dentro da minha cabeça. daqui um tempo

olharei para ela e

ficarei triste

por eu ser eu mesma

e não haver outra saída possível pra deixar de ser eu e ainda assim seguir vivendo

A linguagem do Peso do pássaro morto se aproxima mais do teatro, do que propriamente da poesia, sempre num fluxo de consciência quase sensorial. O aspecto visual do texto, se apoia nas incompletudes da personagem. Porque ela uma pessoa densa, intensa, mas solitária, e de certa forma fragmentada. A imagem metafórica do título abre ainda mais a perspectiva pueril, por vezes sonhadora, da história. Mesmo quando o tempo avança e a personagem vai se transformado em outras.

A forma poética não existe apenas no estilo do texto de Aline, mas em tudo o que ela representa. Sobretudo através das ações infantis da personagem no começo da vida, até as pequenas transformações impostas pelo avanço da idade. E tudo isso numa linguagem precisa em cada uma das fases. Esse é um livro sobre as perdas que a protagonista vai tendo ao longo dos anos. Das saudades e das dores que ela, inevitavelmente, carrega. O tempo aqui é algo totalmente relativo, assim como a vida intensa, e rápida, de um pássaro. O pássaro morto do título. Mas qual o peso disso tudo? O romance de Aline Bei é recheado de vida, dentro do contexto de perdas e solidão. É ainda mais surpreendente por se tratar de uma estreia.

É um livro bonito e triste. Sobre dores e amores. Das perdas que a vida impõe. Não apenas através da morte, e acontecem algumas importantes, mas a perda da inocência e consequentemente da esperança. O peso do pássaro morto preenche os olhos, enaltece a alma e enriquece o coração. É uma experiência de leitura muito agradável, porque conecta com o lado mais frágil do ser. Enfim, é um livro para ser sentido. Em todas as suas dimensões. Ao final da leitura resta um incômodo pelo sofrimento silencioso que a personagem carregou até o último dia da sua existência. Não resta dúvida que esse é um dos livros mais sensíveis e originais dos últimos anos.

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