Antes que Deus me esqueça, de Alex Andrade, é a história íntima de um futuro vazio

Por Ney Anderson

No novo livro do escritor Alex Andrade, Antes que Deus me esqueça, editado pela Confraria do Vento, conhecemos Joaquim de Jesus, ou simplesmente Joca. Um homem que narra a sua tumultuada vida de dentro de um presídio onde ele está cumprindo pena por várias contravenções. Ele é fruto de um estupro sofrido pela mãe, Joana, por um marinheiro, e foi expulsa de casa pela família por conta da gravidez ocasionada por conta dessa violência. Joca nasce numa viatura da polícia e logo em seguida vai morar com a mãe no bordel que a tia administra.

Nesses primeiros anos de vida, Joca vai amadurecendo de forma mais rápida, por conta do convívio com as prostitutas e os clientes, das várias coisas que ele vê e ouve todos os dias. Não necessariamente assuntos para uma criança. Já nessa fase inicial, ele tenta descobrir quem é o pai, achando que pode ser qualquer homem que entra no bordel. Até o dia que a polícia fecha o espaço.

Eles então se mudam para o bairro do Encantado, retornando para a casa da família que antes o haviam expulsado. Quando chegam lá, encontram um ambiente religioso extremamente hostil a presença dos dois. Continuam personas non gratas, como o protagonista mesmo fala. “Eu era o filho do demônio, o resultado do pecado, do fruto proibido”.

Joca é matriculado numa escola e tem novas descobertas lá. Sobretudo, começando a entender que o mundo não era a fantasia criada na cabeça dele. Nessa fase, ele aprende a jogar, e gostar de fliperama, na loja do tio. Negociando as fichas que recebia de presente em troca dos lanches dos amigos. Ele vai se tornando também um viciado no jogo e no álcool, para desespero da mãe, que sempre tentou salvar o destino dos dois.

No capítulo de abertura o leitor acompanha a gênese do personagem. A formação dele, as escolhas, a rebeldia pela vida que tem e a procura obsessiva pelo pai. A sua grande sombra. Na passagem para o segundo capítulo, Joca já é um jovem adulto contraventor, entrando para o submundo do jogo do bicho, com a vida se tornando cada vez mais marginal. “Eu andava com os rapazes que minha mãe não suportava, gente da escória, como ela costumava gritar pelos quatro cantos”. Aqui o texto é aberto e rápido, quase um thriller policial.

No terceiro capítulo são mostrados os aspectos psicológicos do personagem. Que se acentuam quando ele, enfim, encontra o pai. Os dois vivem em momentos opostos, mas complementares, cada uma com as suas desgraças. Aqui ele confronta o objeto da grande busca da sua vida. É possível entender a partir disso as angústias de Joca. O livro é conduzido na ânsia dessa busca. Mas quando acontece a vida dele desmorona ainda mais. A leitura demora a engrenar na primeira parte, mas melhora a partir do capítulo seguinte, quando a trama foca no personagem, já adulto, vivendo na contravenção.

Várias pessoas habitam o universo íntimo do rapaz, primas, tios, alguns amigos etc. Ele vai se moldando a partir do que a vida lhe passa a oferecer de forma aparentemente mais fácil. É um livro de forte memória. De alguém que relembra do passado através de um presente fracassado, sem esperanças de futuro. Joca é alguém que nasceu da violência e se entregou a ela, se metendo até com o tráfico internacional. É uma história cheia de rupturas, com vários tropeços do protagonista.

Longe de ser um romance religioso, esse aspecto é algo que permeia a obra. O livro tem muito do caráter de que o erro, ou a indução dele, não é algo que surta um efeito positivo duradouro. Nas entrelinhas, é como se o pecado cobrasse o seu preço de uma forma ou de outra. O estupro, por exemplo, sofrido pela mãe de Joca, foi o responsável por uma sucessão de desgraças, tanto para a mulher quanto para o filho, e sobretudo para o estuprador.

Não é uma história fácil. Nem todos vão gostar, porque não é livro que se pretende um final feliz. É um texto que coloca o dedo na ferida, mostrando que tudo cobra o seu preço, principalmente no submundo do tráfico. É um livro que mexe, incomoda, faz passar mal, na mesma medida das angústias do protagonista.

Acompanhamos o personagem marginal por natureza de forma muito bem construída. A situação deplorável do protagonista, onde a memória dele é o salvo conduto no local onde ele se encontra. Joca está na cela, mas é como não estivesse. Toda a sua vida vai sendo repassada. O relato é a sua tábua de salvação, porque na prisão ele chega ao fundo do poço, humilhado e violado.

Com diálogos muito bons e uma capacidade criativa admirável do escritor Alex Andrade, Antes que Deus me esqueça parece a autobiografia de um dos chefes do tráfico do Rio de Janeiro. E até é, mas não de um personagem verdadeiro. Por isso que é tão interessante a leitura, porque foi feito tendo a base ficcional trabalhada como algo real.

O relato da vida do protagonista com várias situações que o fizeram chegar até ali. Joca é alguém que o destino parece ter virado as costas. O título é muito direto no seu recado, embora o narrador-personagem se confesse no começo do livro como alguém que não acredita no divino. No entanto, é como se, antes que Deus o esqueça, ele lançasse o relato ao mundo. O lugar cruel que ele foi lançado, sem escolhas. A vítima e o algoz, nascido a partir de uma violência e moldada por ela, mas pagando o preço na mesma medida. No final das contas, fica a ótima reflexão das primeiras linhas do romance. “Do que somos feitos? Em que parte da vida percebemos a real importância de existirmos?”

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