O Ditador Honesto, de Matheus Peleteiro, é a sátira utópica de um país à beira do abismo

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Imagine um país onde os índices de criminalidade beiram zero por cento. A economia é uma das melhores do mundo, o desemprego praticamente inexiste e a educação é referência no ensino público. Não estamos falando da Dinamarca. Esse é o Brasil criado pelo escritor Matheus Peleteiro, no romance O ditador honesto (edição do autor – 169 páginas). Como o título já deixa supor, é um texto satírico sobre a atualidade, embora não seja centrado em figuras reais da política brasileira.

 O ano é 2026, e o país está colapsado no final do governo do PSL, quando o advogado Gutemberg Luz decide disputar a presidência da república contra os tubarões da política, mesmo sem nunca ter sido um deles. Sem tempo de TV, ele se utiliza de uma forte presença e persuasão nas redes sociais para angariar o eleitor ao seu favor. Oferecendo o que a população quer ouvir, em uma grande capacidade manipulação de mentes.

Guto, como é conhecido entre os seus, arregimenta dois amigos, Juca Ferreira e Rubens Costa, para que eles se candidatem para a Câmara Federal e o Senado, e embarquem na sua ideia de domínio baseado simplesmente em pensamentos de transformação radical, beirando a utopia, ocupando os três poderes. Com mirabolantes para o desenvolvimento nacional, ele conquista fama e a confiança das pessoas, que passam a enxergar nele o salvador da pátria. E assim ele é eleito para administrar a nação. A história é contada por Antônio, bacharel em Direito, secretário de Gutemberg.

Mas tudo na verdade é fruto de um pensamento megalomaníaco de poder a qualquer custo. Em pouco tempo, jornalistas e veículos de imprensa que interpelam o novo presidente somem do ou são jogados no ostracismo. O mandatário cria, por exemplo, medidas que punem de forma bastante severa qualquer tipo de delito. Inclusive com bandidos sendo abatidos em praça pública. O presidente, então, vai tecendo a escalada de poder e delírio a níveis nunca antes de vistos.

“Carros-pipas passeavam lavando as ruas manchadas de sangue, ao tempo em que o vermelho passava a dominar os bueiros da cidade. Aqueles que perderam familiares, em busca de consolo, se apegaram ao ditado popular que dizia: “tudo tem o seu preço”, e se forçaram a acreditar, por mera conveniência, de que tudo fora apenas um plano de Deus para trazer a felicidade e a paz para todos. Havíamos encontrado, na morte, a prosperidade”.

É um livro que qualquer semelhança não é mera coincidência, mas que não se propõe a caricaturar políticos reais. O presidente, por exemplo, se comunica com os milhões de eleitores por meio das redes sociais. Rechaçando a mídia tradicional da real importância que ela tem, criando medidas provisórias para caçar jornalistas que queiram ir contra o governo. Transformando a relação da imprensa com o poder, onde parte dela é banida e a outra passa o ovacionar o presidente, fazendo apoio cego.

O desenvolvimento e a moralidade nacional são construídos através do banho de sangue, onde criminosos passaram a ser exterminados em praça pública, atingindo também inocentes em prol de um “bem maior”. Tudo isso é feito, claro, passando por cima da história, das leis e até da Constituição. O país de Gutemberg é fantasioso e surreal. Uma ditadura camuflada.

“Era curioso que, mesmo impondo alguns dos seus planos, após os primeiros meses, não vi uma pessoa sequer o chamando de ditador. Foi aí que percebi: para os indivíduos comuns, somente é ditador aquele que dita o que não é conveniente”

Para se ter uma ideia, o presidente cria um provedor global de filmes e séries, que bane das produções artistas que se portarem de maneira reprovável na vida pessoal. Gutemberg é fã de Maquiavel e conduz o governo muito calcado na filosofia do italiano. No entanto, parte da população se rebela contra o aparente desenvolvimento e paz maquiada. A sociedade foi aparentemente organizada, mas a calmaria mascarada começa a incomodar a população, a mesma que se dizia insatisfeita com o governo anterior. Porque, justamente, o que está em jogo é a satisfação do ego de um lunático.

 “Apesar de ler opiniões na internet para efetivar seus projetos, decidiu que não consultaria ninguém para discutir as suas pautas, simplesmente ordenaria e convenceria os seus subservientes quando se opusessem aos seus planos. A sua percepção sobre o interesse coletivo possuía uma concepção exclusivamente sua, e em seu pensamento era tão óbvio que a sua vontade era a vontade de todos, que ele não foi sequer capaz de interrogar a si próprio quanto à possibilidade de ser contestado pelos cidadãos”.

É um livro que propõe uma distopia, mas não como em outros livros mais fortes e chocantes nesse sentido. Mesmo assim, é um romance bem construído e interessante, com situações criadas por Matheus Peleteiro absurdamente possíveis. Ainda que não seja panfletário, tentando puxar para alguma direção (direita, centro, esquerda), O ditador honesto tem o tom político, sem dúvida, com as memórias do narrador Antônio relembrando as ambições de alguém que pretendeu, aos olhos das pessoas, salvar a nação, fazer dela próspera. Mas que na verdade não passou de uma grande cortina de fumaça para esconder a sua verdadeira obsessão. Que não era ser apenas o presidente, mas o dono do poder.

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