A arte que se sobrepõe à morte

Por Ney Anderson

Miguel é um fotógrafo de cemitérios que ficou famoso no mundo inteiro por conta do olhar peculiar da sua arte. Mesmo dinheiro e fama não são suficientes para lhe dá a paz que ele tanto busca, porque sofre de transtorno depressivos acentuado por várias dores ao longo do caminho, como a sua homossexualidade combatida pelo irmão, a morte do pai e o suicídio da mãe. Filho de um coveiro alcoólatra, Miguel se torna alguém solitário. E encontra refúgio justamente na morte. Principalmente nos símbolos que a rodeiam. Essa é a base do romance Ninguém me ensinou a morrer (Reformatório), de Mike Sullivan.

Quem primeiro percebe os dotes artísticos de Miguel é o professor Enzo, que inscreve algumas fotografias do aluno em um concurso de prestígio, que o jovem acaba ganhando. O professor vira uma espécie de porto seguro, guru, lhe dando conselhos e sempre lhe auxiliando em todos os momentos. Inclusive quando precisou intensificar os tratamentos contra a depressão com sessões de eletrochoques. Mas no pior momento para o fotógrafo, quando ele está praticamente no fundo do poço, ao mesmo tempo que é celebrado mundo afora, Enzo morre e o deixa, mais uma vez, “jogado” à própria sorte.

A partir daí ele entra em uma roleta-russa, se relacionando com michês, utilizando cada vez mais drogas e fotografando os cemitérios mais famosos do mundo. Numa avalanche de sexo, sucessivos prêmios e amores frustrados, ele se muda para um novo condomínio, com apartamento mais amplo, onde busca encontrar o equilíbrio necessário para seguir fazendo o que tanto gosta. É nesse lugar que Miguel se apaixona por um rapaz menor de idade. E a vida que estava começando a tomar rumo, sai dos trilhos outra vez, culminando em desfecho trágico.


Mike Sullivan utiliza a arte sepulcral como base da perturbação emocional do fotógrafo Miguel

Miguel é alguém atormentando, inclusive pelo fantasma de uma criança que chora sangue. A capa traz justamente a imagem desse menino chorando e evoca exatamente a ideia da fotografia profissional capitando o momento de tristeza. O texto é focado nos conflitos da homossexualidade do personagem central, que tem muito de loucura e religião. Mesmo ele não sendo um religioso. A mãe do jovem, por exemplo, é fanática religiosa. E põe sempre em xeque as convicções dele, baseado na ideia ateísta que ele tem. A religião faz parte da trama de uma forma transviada. Mesmo sem o protagonista acreditar em Deus, tem na bíblia da mãe falecida uma espécie de conforto e recordação.  

Com a narrativa em primeira pessoa, narrada de algum ponto do futuro, é possível entrar no sofrimento do protagonista, quando ele frequenta lugares barra-pesada, bares sujos, procurando aliviar a dor da perda do amigo e depois o amor que Miguel não conseguiu expor ao vizinho. O romance tem um texto de dicção firme, envolvido numa prosa cristalina. Tão límpida que às vezes as surpresas surgem do nada. É um livro que não se sabe muito bem aonde vai dar. E isso é bom, porque tira o caráter da previsibilidade.

A morte e a solidão são temas trabalhados obsessivamente pelo autor, que parece ter descoberto a sua voz e o seu lugar na literatura brasileira. E aqui ele chega ao seu ápice. Esse é o melhor livro dos três que compõe a trilogia iniciada com o ótimo Corpo Sepulcro.  A literatura é uma arte que alcança o seu objetivo quando o autor consegue fazer a história caminhar por si só, quase transformando o que se lê em realidade. Ninguém me ensinou a morrer é assim. Por vezes parece que estamos diante de uma autobiografia, até nos darmos conta que é ficção.

Só é possível conquistar esse efeito quando a forma não se sobrepõe ao enredo. Quando a técnica não causa ruído ao estilo. E principalmente quando a história não é rasa, entregando apenas a superfície do personagem. Mike Sullivan vai muito além das tramas e sub-tramas para entregar um romance potente, onde a morte e a solidão são companheiras fúnebres rondando a mente e a vida do fotógrafo Miguel.

É um livro para ser lido à luz de velas, espreitando os mistérios que existem para além dos arcanjos e figuras inanimadas da arte sepulcral.


“A máquina fotográfica é apenas um complemento para apreender o que todos os meus sentidos já viram num momento anterior. Se não for assim não dá certo. A minha alma é meu guia. É ela que me direciona aos melhores ângulos, à luz perfeita, ao posicionamento do corpo diante de uma expressão tumular. O resto é magia. Algo acontece, eu me desligo do mundo e então uma boa foto surge. É esse o espírito dos cemitérios. Uma soma infinita de tempos mortos, inacabáveis, avançando lentamente para um mundo onde se dá a eternidade do que não se vê e do que não se sente”

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